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UMA REFLEXÃO SOBRE A ATUAL EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR



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UMA REFLEXÃO SOBRE A ATUAL EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR

Rita de Cassia Miranda Jordão de Almeida



Resumo: Este trabalho é fruto da necessidade de refletir sobre os caminhos da Educação Física que me foi provocado após participar de uma reunião com professores de Educação Física envolvidos na elaboração de um projeto político-pedagógico. Trata-se de uma reflexão em meio às incertezas que permeiam a Educação como um todo e em particular a Educação Física Escolar, parte obrigatória e integrante, em nosso entender, da formação do homem enquanto ser social, inserido no contexto de desenvolvimento e transformação de uma sociedade.

No meio das incertezas desse nosso mundo pleno de equívocos convocamos os que anseiam buscar possibilidades de desvelamentos, em meio às dificuldades atuais da Educação Física Escolar. Ao ansiar penetrar na verdade desta praxe, pode-se pelo menos, tentar se afastar da equivocidade. Isto é, pensamos que evidenciando as incertezas produzidas no cotidiano da escola, poderemos, a princípio, produzir um momento de “realidade”. Essa realidade atual, histórica-contemporânea perpassa pelos campos da multiplicidade e da diversidade seja ela científica, artística, tecnológica, social ou filosófica. Ao olhar atentamente o atual momento histórico, o educador-observador, curioso, pode verificar que todo esforço aproximador na tentativa de elaborar propostas e explicitar esse mundo diverso convoca para o entendimento do exame da possibilidade da diferença e da oposição. A possibilidade da materialidade de novas tentativas educacionais aponta para a diversidade. A diversidade da atualidade é evidente por si mesma, ela se declara aos nossos olhos, porém ao primeiro olhar pode tornar-se incompreensível. Como compreender e explicar algo que nos escapa entre as mãos exatamente pela sua rede de possibilidades de utilização? A visão ou percepção imediata das coisas nos oferece uma unidade, algo que podemos denominar mas jamais imaginar a multiplicidade de sua constituição e aplicabilidade. No entanto, podemos nos conformar em reconhecer esse “algo” como única possibilidade essencial, o que se contrapõe aí, com a impossibilidade de vislumbrar outros modos de possibilidades e aplicabilidades. Eis o desafio que colocamos ao espírito do educador: transformar a evidência em provocação, para que se dedique a um exercício, por vezes penoso, o de procurar preciosidades entre os escombros. Diz-nos Merleau-Ponty: “emprestando o seu corpo ao mundo é que o pintor transforma o mundo em pintura” (1969:33).

O pensamento reflexivo estabelece um vínculo entre o que já foi estabelecido pela continuidade da praxe e o que ainda não foi plenamente absolvido, logo ainda no campo da obscuridade e/ou do des-velamento. Segundo Saramago, deve-se instigar “o leitor de maneira intrigante sobre os caminhos e descaminhos na Educação”. Entendemos assim, que um dos problemas e/ou descaminhos da Educação Física Escolar encontra-se na perda do significado da Escola. A Escola objetivando preparar indivíduos para a vida em sociedade em paralelo com o desenvolvimento de suas aptidões ou inclinações individuais. Observamos que a Educação Física Escolar, prioriza quase que exclusivamente o desporto, e o super-valoriza enquanto conteúdo escolar. A perda do significado da Escola ocorre por falta de relação com o mundo, pelo não aprofundamento e envolvimento de possibilidades, pela desproporção do grau de informação. A multiplicidade de alternativas da nossa contemporâneidade, embaralha a capacidade de escolha e decisão. Logo, faz com que o desconhecimento absoluto produza um encontro com o conhecimento absoluto. Ambos não se prestam ao esclarecimento, pois a falta de reflexão incapacita de distinguir a dimensão do real. Aceita-se e absorve-se tudo o que já “vem pronto”.

Sabemos que hoje, muitos conceitos perderam o seu significado, congelando os signos que se tornam incapazes de pôr em andamento a reconstrução da experiência da vida social e cultural. Porém, o retorno ao mundo sensível, após sua quase dissolução na mente dos indivíduos, se faz mister, embora seja um caminho longo e penoso a tentar percorrer por parte dos Educadores. Aqueles que em seu cotidiano escolar vivenciam a insensibilidade e vulnerabilidade dos valores socioculturais, tendo em vista os descaminhos sociais que assolam o país.

Aponto, como uma possível hipótese para esta questão social e consequentemente educacional, o cotidiano de nossa vida atual, delineado pelas marcas de nossas experiências, unindo o conjunto de problemas da vida que vem sendo perpetuados, de acordo com o desenvolvimento e crescimento da sociedade, tais como o acelerado aumento da violência, do desemprego que aflige as grandes Cidades, das crises políticas ligadas à corrupção e a vulnerabilidade econômica em que nos encontramos. Esses problemas abordados acima, agem dificultando a construção de uma sociedade mais humana, segura e sensível.

A reestruturação da identidade dos valores e conceitos congelados pela ausência de sensibilidade provocada pelas marcas deixadas pelas vivências sociais deve ser preocupação e intenção daquele que pretende educar.

Temos conhecimento que a Educação Física encontra-se repleta de interdições e desta forma, quando na Escola, deveria transmitir desde cedo, a distinção dos obstáculos pela própria experiência descobrindo os limites de suas potencialidades e desenvolvendo o sentido de liberdade.

No ato constitutivo da vida social, a liberdade constitutiva como princípio igualitativo como fim exige que se reconheçam limites à própria liberdade. A liberdade se refere não apenas à movimentação do corpo, o ir e vir, mas igualmente ao querer e buscar realizar seus desejos; ao poder escolher conhecendo as razões de sua escolha; ao oferecer o seu trabalho e dedicação, descortinando o sentido do emprego de seu esforço físico ou intelectual.

A vida em sociedade concorre com freqüência para criar sujeições que bloqueiam o exercício da liberdade individual e coletiva. Isto ocorre quando no processo educativo se ergue como meta estratificar regras, modelos e interdições. Daí encontramos razão mais do que suficiente para cobrar dos professores que sejam profissionais da Educação Física com competência para moldar um balanceamento entre o objetivo de construção do espírito livre e a compreensão de que a participação na vida social exige que essa liberdade seja fim e meio para organização da própria vida social. Não esquecendo que quotidianamente são os professores cotejados com uma dicotomia em sua ação educativa e que desafia as suas próprias convicções: de um lado, a preocupação com os limites exigidos pela Escola, por outro lado, a obrigatoriedade do conteúdo escolar. Mas a insistência dos interesses pessoais, da estagnação da impossibilidade de perceber outras possibilidades educacionais faz emergir uma forte tendência ao individualismo que corrói qualquer esforço de vida coletiva, destruindo por completo o espírito de solidariedade. Isso, justifica que, quando os seres humanos se tornam conhecedores do valor da liberdade podem organizar regras para a vivência social, podem construir a vida social e suas próprias regras, e essa mesma vontade construtora pode concorrer para sua mudança e transformação.

Cabe, finalmente, relembrar aqui, conceitos considerados fundamentais para a vida social que tendem a perder, paulatinamente, o seu sentido e, como tal, a capacidade para colaborar com as possíveis mudanças nos indivíduos. É fácil perceber como vão se tornando opacos e desvigorados alguns conceitos que sempre foram levantados nos processos educativos como fundamentais para o desenvolvimento humano – como os de civilidade, compromisso, participação, cooperação, solidariedade, liberdade, criatividade. E ainda os que compõem as fronteiras da vida estética e ética, os conceitos de beleza, harmonia, autonomia, respeito, felicidade, companheirismo.





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