Universidade Federal Fluminense


POSSIBILIDADES DA EDUCAÇAO FISICA FRENTE ÀS DIFICULDADES



Baixar 1.22 Mb.
Página246/334
Encontro27.05.2018
Tamanho1.22 Mb.
1   ...   242   243   244   245   246   247   248   249   ...   334
POSSIBILIDADES DA EDUCAÇAO FISICA FRENTE ÀS DIFICULDADES

ATUAIS: CONTRIBUIÇOES DE VYGOTSKY

Maria Cecília de Paula Silva



Resumo: Este ensaio visa discutir algumas teses de Vygotsky, utilizadas para auxiliar as reflexões acerca do processo ensino aprendizagem, na proposta escolar da disciplina Educação Física na rede municipal de ensino de Juiz de Fora/MG, construído durante o ano de 1999. Este tema fez parte das discussões relacionadas com a necessidade dos profissionais de educação física se colocarem diante da escola publica conscientes de estar trabalhando com um conteúdo escolar fundamental para o entendimento da realidade como totalidade, juntamente com os demais conteúdos escolares, possibilitando aos alunos atuarem na realidade para sua transformação, no sentido da superação das suas condições de vida e das crescentes desigualdades econômicas e sociais da maioria da população brasileira, de classe.

Este ensaio visa apreciar algumas teses desenvolvidas por Vygotsky e utilizadas nas reflexões acerca do processo de ensino-aprendizagem, para a construção da proposta de Educação Física na rede municipal de ensino de Juiz de Fora/MG(1999). Este processo de discussão/reflexão/ escolha desta perspectiva histórico-cultural se deu através de uma dinâmica de encontros, conferencias, debates e participação coletiva dos professores envolvidos no ato pedagógico e convidados

Pretendíamos desvelar as contradições da educação física brasileira {Oliveira (1994), CBCE (1997)} e de apontar caminhos para sua práxis pedagógica no cotidiano escolar, baseados em trabalhos anteriores {Coletivo de Autores (1993); Castellani Filho (1998); etc.}. Caminhos estes diferentes do ate então hegemônicos na realidade brasileira, que seguiam os princípios da política neoliberal.

O neo-liberalismo na América Latina é fruto da crise fiscal, delimitado pelo esgotamento do Estado de bem-estar social e da industrialização substitutiva de importações. De acordo com Sader (2002), a crise de divisas só acentuou os traços da crise do processo de acumulação de capital. O sistema produtivo, transformado em sistema financeiro, multiplica os devedores para multiplicar os consumidores.

No entanto, com a crescente crise econômica, refletida pela inflação, aumento do desemprego estrutural, aumento da miséria e da desigualdade socioeconômica do Estado, as esquerdas brasileiras tentam atualmente construir formas hegemônicas alternativas para a sua superação. Estas alternativas pretendem articular um projeto de socialização do poder, desarticulando, ao mesmo tempo, as bases de legitimação do neoliberalismo, entre as quais, a educação publica, que priorizava a formação de cidadãos passivos e despolitizados, contribuindo para a desagregação social.

O ser humano foi considerado nas discussões para o programa, em sua individualidade, mas fazendo parte de um coletivo – a sociedade brasileira – e nela tendo que intervir. E esta sociedade também foi considerada em toda a sua riqueza e diversidade, destacando a historia e a cultura do país e da região, que são patrimônio coletivo e fazem parte da tradição do povo, senhas da nossa identidade cultural. Este entendimento diverge da conduta hegemônica do mercado, que considera o individuo como sendo um consumidor, um homem imóvel. Nesta



invisível violência do mercado, a diversidade é inimiga da rentabilidade, e a uniformidade manda. (...) A ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que qualquer ditadura de partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar” (Galeano, 1999, p. 260).

Com o objetivo de não reproduzirmos copias, mas mediarmos a formação de sujeitos históricos para intervirem e poderem modificar a realidade brasileira, optamos por estudar e trabalhar a partir da abordagem sócio-histórica desenvolvida por Vygotsky. Seus escritos são abundantes e interdisciplinares, complexos e densos em informações preliminares. Apesar de ele ter escolhido como preocupação principal o “estudo da gênese dos processos psicológicos tipicamente humanos, em seu contexto histórico-cultural, detendo-se também em questões de varias áreas do conhecimento” (REGO, 1999, p.16), dentre elas a arte, a literatura, a lingüística, a filosofia, a neurologia, o estudo das deficiências, do desenvolvimento, da aprendizagem, enfim, com temas relacionados aos problemas educacionais.

No projeto proposto(Paula Silva, 1999), buscamos aprofundar o conhecimento por ele desenvolvido a respeito das raízes histórico-sociais do desenvolvimento humano e a questão da mediação humana. Enfocamos a interação entre aprendizado e desenvolvimento – a zona de desenvolvimento proximal. A partir de reflexões e debates, decidimos trabalhar com esta perspectiva (da zona de desenvolvimento proximal) dos alunos, esta entendida como sendo a distância entre o que o sujeito já sabe e a possibilidade que ele tem de aprender; alem do processo de formação de conceitos e o papel desempenhado pelo ensino escolar.

Nesta abordagem, o individuo não é resultado de um determinismo cultural, ou seja, não é um receptáculo vazio, um ser passivo, e sim um sujeito que realiza uma atividade organizadora na sua interação com o mundo, capaz inclusive de renovar a própria cultura. Neste processo, o individuo ao mesmo tempo em que internaliza as formas culturais, as transforma e intervem em seu meio. E é nesta relação dialética com o mundo que o sujeito pode se constituir e se libertar.

Compreendemos que este conceito é fundamental para os professores que entendem o seu papel como o de fazer a mediação entre o saber escolar (“conhecimento científico”) e o saber popular (“conhecimento popular”) proporcionando a possibilidade de se fazer uma interação entre os conhecimentos novos e os já adquiridos, entre o conhecimento individual e o social. Esta abordagem possibilita-nos postular ainda que a aprendizagem se dá de forma dialética entre estes conhecimentos, e não, como uma mão única. O desenvolvimento humano não é, então, produto de fatores isolados que vão amadurecendo, nem mesmo de fatores ambientais que agem sobre o organismo controlando o comportamento. E sim, resultado das trocas entre os seres humanos e o mundo, trocas recíprocas que se estabelecem na vida, cada aspecto influindo sobre o outro.O professor atua no sentido de provocar rupturas e ampliação do conhecimento da cultura corpora, de amplia-lo, diversifica-lo, aprofunda-lo, critica-lo, provocando com isso mudanças significativas em sua bagagem cultural e em seu sentido social.

Através da interação do homem com o mundo, das transformações recíprocas, é que o homem se faz homem. Dessa forma, a compreensão do ser humano “implica necessariamente na compreensão de sua relação com a natureza, já que é nesta relação que o homem constrói e transforma a si mesmo e a própria natureza, criando novas condições para sua existência” (Rego, id., p. 96).

Nesta relação, o trabalho é entendido como uma atividade pratica e consciente, através da qual o homem atua sobre a natureza. Esta noção de produção pelo trabalho – no qual o homem produz indiretamente sua própria vida material ao produzir seus meios de vida (motor do processo histórico) – diferencia o homem dos outros animais e o explica, pois é pela produção que se desvenda o caráter social e histórico humano.

Uma outra questão importante nesta abordagem é o modo como ele trabalha a conceituação de imitação. Para Vygotsky, uma compreensão plena do conceito de zona de desenvolvimento proximal deve levar à reavaliação do papel da imitação no aprendizado. Contrariando a psicologia clássica, Vygotsky postula que a imitação não é somente um processo mecânico, pois a criança só consegue imitar o que está no seu nível de desenvolvimento. Desse modo temos que os humanos são capazes de aprender através da imitação no sentido humano do termo, pois o “aprendizado humano pressupõe uma natureza social específica e um processo através do qual as crianças penetram na vida intelectual daquelas que as cercam” (Vygotsky, 1984, p. 99).

Assim, como as crianças podem imitar uma variedade de ações que vão muito além dos limites de suas próprias capacidades, numa atividade coletiva ou sob a orientação de adultos, usando a imitação, as crianças são capazes de fazer muito mais coisas. Este fato, embora pareça pouco significativo, é fundamental pois, demanda uma alteração radical da doutrina que trata da relação entre aprendizado e desenvolvimento.

A partir dela, o concreto passa a ser um ponto de apoio necessário e inevitável para o desenvolvimento do pensamento abstrato - como um meio e não como um fim em si mesmo. Através da noção de zona de desenvolvimento proximal, este autor propõe uma nova fórmula, a de que “‘o bom aprendizado’ é somente aquele que se adianta ao desenvolvimento”(Vygotsky, 1987, p. 101).

Um aspecto essencial do aprendizado é o fato de ele criar a zona de desenvolvimento proximal; ou seja, o aprendizado desperta vários processos internos de desenvolvimento, que são capazes de operar somente quando a criança interage com pessoas em seu ambiente e quando em cooperação com seus companheiros. Uma vez internalizados, esses processos tornam-se parte das aquisições do desenvolvimento independente da criança.

Deste ponto de vista, embora o aprendizado não seja desenvolvimento, ele acontecendo de forma adequadamente organizada resulta em desenvolvimento, colocando em movimento vários processos de desenvolvimento que, de outra forma, seriam impossíveis de acontecer. O aprendizado torna-se assim, um aspecto necessário e universal do processo de desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente humanas; que acontece com a colaboração do grupo, no trabalho com os outros, através de orientação, na coletividade, na interação com os outros e o meio social e, principalmente, através da valorização do trabalho em grupo

Sendo o processo de vida social, política e econômica, condicionado pelo modo de produção de vida material e sendo as condições materiais as formadoras da base social, das suas instituições, regras, idéias e valores, a realidade evolui por contradição, constituindo-se num processo histórico. Este processo materialista histórico dialético, é resultante das intervenções das praticas humanas, que ocorrem de modo dinâmico, contraditório e conflituoso, urge ser compreendido como um processo em constante mudança e desenvolvimento.

O materialismo histórico dialético de Marx e Engels utilizado por Vygotsky em sua elaboração teórica como fundamento da mesma, ao construir um sistema explicativo da historia e da sociedade, estabelece os princípios epistemológicos que orientam esta analise. De acordo com a perspectiva dialética, sujeito e objeto de conhecimento se relacionam reciprocamente sendo, portanto, o conhecimento (interação do homem com a natureza) determinado pela realidade objetiva. Neste sentido, o homem faz parte da natureza e a recria em suas idéias, sendo um sujeito ativo em sua relação com o mundo, reconstruindo este mundo.

Esta concepção explicita que o processo de desenvolvimento relaciona-se diretamente com a evolução histórica das necessidades e interesses culturais. Neste sentido, devemos partir da atividade real deste homem para podermos chegar a uma pratica educacional diferenciada, a pratica dos homens historicamente situados.

O desmonte do Estado no Brasil, na sua capacidade de financiar a educação e outros serviços incompatíveis com a lógica do mercado e do lucro, apesar de ser cruel, “não chegou (...)a níveis tão perversos como, por exemplo, na Argentina e Chile, porque há forças sociais organizadas que se contrapõem” (Frigotto,1996,p.163); forças estas que atualmente estão no poder e tentem a modificar o quadro de entendimento da educação como investimento em formação de mão-de-obra barata, como formadores de copias de trabalhadores/consumidores, para um quadro em que a educação publica, gratuita e de qualidade seja o ponto central da questão política para a juventude brasileira.

Uma educação que privilegie a formação humana unitária e politécnica, articulando os processos educativos aos interesses da classe que vive do trabalho, proposição esta de Marx/Engels. Uma educação que entenda a necessidade da formação na perspectiva da emancipação humana, em que se organizem “processos educativos no conjunto da sociedade brasileira: a concepção de escola unitária e de educação ou formação humana omnilateral, politécnica ou tecnológica”(Id, ibid, p.173).

Estas foram algumas das reflexões que consideramos relevantes de serem discutidas com os professores públicos de Juiz de Fora, especificamente relacionadas com as teses formuladas por Vygotsky e a epistemologia dialético-materialista. Apesar destas discussões terem sido formuladas, as decisões não foram consensuais, o que reflete a realidade contraditória em que vivemos e a palco da luta hegemônica estabelecida neste espaço social. Talvez, mais importante que a proposta elaborada (Paula Silva; Zacarias et alli, 2000), seja a sinalização das opções do coletivo envolvido na formulação da referida proposta, mostra-nos como tarefa histórica a constante reflexão deste tema e o investimento na educação que possibilite a classe que vive do trabalho, o acesso a uma base de conhecimentos científicos que permita resolver problemas e situações diversas, os possibilite a apreciação e consumo de bens culturais mais amplos, alem de proprorcionar o acesso ao poder político.

Mostra-nos alem: que a tarefa de eliminar os mecanismos de exclusão presentes na sociedade brasileira (o 3º maior índices de desigualdade econ./social mundial), é tarefa árdua e continuada, tarefa da luta de classes. A violência política e social hoje presentes representam o longo caminho que ainda teremos que percorrer, explicitam as dificuldades encontradas diante das possibilidades de lutas travadas no cotidiano das relações sociais, de classe.

A autora, Dra. Maria Cecília de Paula Silva é da rede municipal e particular de Juiz de Fora.





Baixar 1.22 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   242   243   244   245   246   247   248   249   ...   334




©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
ensino médio
ensino fundamental
Processo seletivo
minas gerais
Conselho nacional
terapia intensiva
oficial prefeitura
Boletim oficial
Curriculum vitae
seletivo simplificado
Concurso público
Universidade estadual
educaçÃo infantil
saúde mental
direitos humanos
Centro universitário
educaçÃo física
Poder judiciário
saúde conselho
santa maria
assistência social
Excelentíssimo senhor
Atividade estruturada
ciências humanas
Conselho regional
ensino aprendizagem
Colégio estadual
Dispõe sobre
secretaria municipal
outras providências
políticas públicas
ResoluçÃo consepe
catarina prefeitura
recursos humanos
Conselho municipal
Componente curricular
psicologia programa
consentimento livre
ministério público
público federal
conselho estadual