Universidade Federal Fluminense


PERSPECTIVAS CORPORAIS E AS ESTRUTURAS SOCIAIS



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PERSPECTIVAS CORPORAIS E AS ESTRUTURAS SOCIAIS:

MODIFICAÇÕES AO LONGO DA HISTÓRIA OCIDENTAL

Amparo Villa Cupolillo

Adalgisa Maria de Castro

Anaia de Melo Barboza

Anderson Luiz Félix Barbosa

Cinthia Cristiane da Silva Marujo

Cintia Martins Rocha

Fernanda Pereira Toste

Flávia Souza Rocha

Frederico Santos Furtado

Jeiza Regina de Souza Machado

Márcio Gomes da Silva

Patrícia Rocha Lima

Patrick Gaigher Bermudes

Paulo Ricardo Santos Pinto

Reginaldo Xavier da Silva

Renato da Silva Delgado

Sheila Raquel Ferreira Segóvia

Wecisley Ribeiro do Espírito Santo

Resumo: O presente trabalho é fruto de reflexões e debates no Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Física Escolar (GEPEFE) da UFRRJ e tem por objetivo fomentar a discussão das estruturas sociais a partir da perspectiva da corporeidade. Analisamos os vários momentos históricos em que o corpo sofreu influências do meio, modificando-se em diversos aspectos, aqui explorados.

Partindo de um olhar antropológico, o corpo é um reflexo da concepção cultural, tornando-se assim um suporte de normas (signos) ditados pela cultura, os quais, segundo Rodrigues (1979) “o indivíduo tenderá, a custa de castigos e recompensas, a se conformar, até o ponto de que estes padrões de comportamento se lhe apresentarem como tão naturais quanto ao desenvolvimento dos seres vivos”. Cada sociedade elegerá os atributos que irão configurar o que, e como cada indivíduo deverá ser e, com isso, pode-se afirmar que cada cultura se expressa a partir de corpos diferentes e que estes são na verdade a própria face (identidade) das mesmas.

Tomando por base, o aparato social nele incorporado (língua, vestuário, hábitos diversos, entre muitos outros), torna-se ligeiramente fácil a distinção entre os diferentes corpos. Pode-se afirmar, portanto, que cada estudo aprofundado dos usos do corpo é um estudo aprofundado da estrutura social na qual ele está inserido.

Para este estudo, partiu-se da ótica corporal, na busca da compreensão da estrutura social que, como visto anteriormente, pressiona os seus indivíduos a fazerem determinados usos de seus corpos, e a se comunicarem com eles de maneira particular. Se pretende a partir daqui, corroborar a necessidade de se fazer um inventário e descrições dos usos do corpo, feitos na história e na atualidade já destacados por Mauss e reafirmado por Rodrigues (1979).

Sob esta perspectiva faz-se necessário resgatar a historicidade das interpretações que o homem fez sobre seu próprio corpo na tentativa de compreendermos as relações existentes entre estas concepções e as relações sociais estabelecidas no contexto histórico.

Silva (1999) sugere que o processo de desligamento do ser humano da natureza dá-se na modernidade. O interesse pelo corpo neste período encaminhar-se-á para a dominação, tal como acontece em relação à natureza. Esta mudança ocorre entre os séculos XVIII e XIX e consolida-se no século XX, com a idéia formal de indivíduo, autônomo e isolado.

O mundo contemplativo perde lugar para o mundo do trabalho, fonte de ascensão. Weber chama este processo de “desencantamento do mundo”, perdendo os componentes mágicos e religiosos se estruturando concomitantemente ao capitalismo.

A modernidade, coroada pelas Revoluções Burguesas e Industrial, opera estas transformações, colocando o ser humano como objeto de conhecimento com fortes interesses pelo corpo.

Descartes é quem vai administrar a revolução de imagens do universo feitas por Copérnico e Galileu inaugurando uma nova ontologia do ser e da realidade. O mundo se transforma num conjunto de objetos a serem conhecidos.

Em Descartes o corpo é do domínio da natureza, autorizando a razão e a ciência a conhecer e dominar o corpo humano. Esta concepção separa corpo e alma e reforça a idéia de corpo máquina. Medicina, moral e mecânica são ramificações da física.

O trabalho descritivo das partes dos seres na medicina precedeu a decomposição em partes ainda menores, ou seja, uma especialização, na qual o corpo resume-se a arranjos diferenciados dos tecidos e órgãos que seria uma desconsideração pela complexidade: “a medicina e a expectativa corporal do século XIX se rendem à lógica dos laboratórios” (Silva, 1999).

O triunfo da razão instrumental se dá pela redução da racionalidade em uma de suas facetas: “o funcionamento abstrato e o mecanismo do pensamento”, capaz de classificar, inferir e deduzir, removendo-se todos os fatores não intelectuais (conscientes ou inconscientes), tais como emoção. Esta tendência vai ser extremada no interior do positivismo, enquanto filosofia e método, reforçando a materialidade.

O positivismo vai respaldar as ações que são desenvolvidas a partir do século XIX no âmbito do corpo individual ou social.

O corpo sofreu, ao longo dos séculos, várias influências. Mas foi sem dúvida a partir do século XVIII que este passou a ganhar mais espaço na vida em sociedade. Fruto da crescente urbanização vivida na Europa.

Obviamente, não foi apenas no século XVIII que começou a se valorizar o corpo. Porém foi marcadamente neste período que ele veio a se tornar centro de toda uma engrenagem que se forjou com o advento do capitalismo, como diz Foulcault (1995): " Não é a primeira vez, certamente, que o corpo é objeto de investimentos tão imperiosos e urgentes; em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes muito apertados, que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações. (...) A escala, em primeiro lugar, do controle: não se trata de cuidar do corpo, em massa, grosso modo, como se fosse uma unidade indissociável mas de trabalhá-lo detalhadamente; de exercer sobre ele uma coerção sem folga, mantê-lo ao nível mesmo da mecânica - movimentos, gestos, atitude, rapidez: poder infinitesimal sobre o corpo ativo." Estamos falando aqui de uma clara mudança paradigmática de se conceber o corpo, evidentemente que essa mudança não pode ser vista como um abandono ou uma quebra na concepção corporal renascentista mas uma transição não absoluta do corpo como templo do espírito para o corpo máquina, objeto, o que segundo Sérgio a Idade Moderna não constitui a superação da primeira (decorrente da tradição católica), pela Segunda (vinculada ao modo de produção industrial). Para este autor são os inúmeros aspectos de tais concepções que forneceram as bases da visão de corpo vigente na modernidade. É a perspectiva da “carne” como inimiga do espírito, bem como a separação entre dominantes (eminentemente intelectuais, voltados às questões do espírito), e dominados (eminentemente corporais, máquinas produtoras das riquezas apropriadas pelos primeiros) que sustentam uma antropologia dicotômica (corpo-alma) vigente nos séculos XVIII, XIX e XX.

Por isso mesmo, comenta Sérgio que, não conseguimos superar essa epistemologia idealista que limita nossa compreensão do real. A construção do conhecimento não é possível, senão pelo ser humano concreto, corporal, não é possível “conhecer ou conhecer-se desprezando o corpo”.

A compreensão fetichista do corpo mercadoria hegemônica no modo de produção capitalista é fruto ao mesmo tempo de uma revolução cultural que resgatou o valor ontológico e epistemológico do corpo para o qual o desporto concorreu inequivocamente e este novo valor é apropriado pelo capital e transformado em valor de troca.

Cupolillo (1996) acrescenta que " a perspectiva do mundo do trabalho apresenta assim, material bastante rico quando se pretende discutir a instrumentalização do corpo na atualidade. A sociedade industrial moderna, na corrida alucinada pelo progresso e pelo lucro, reificou a natureza, os homens, seus corpos e, com eles, as relações sociais e humanas."

A partir da perspectiva de Rodrigues (1979), segundo a qual o corpo inscreve, em si próprio, os signos de uma determinada estrutura social, é possível estudar o corpo a partir da estrutura ou, a estrutura a partir do corpo. Buscaremos nestas linhas finais, arriscar algumas aproximações entre a corporeidade e a nova forma de organização estrutural das sociedades capitalistas contemporâneas.

Estas novas formas decorrem fundamentalmente da globalização do capital, da automação e flexibilização da produção, e do neoliberalismo ou a idéia de que:

“O mercado é portador de racionalidade sócio-política e agente principal de bem-estar da república” Chauí (1999).

Essas seriam as causas principais de uma profunda mudança no mundo do trabalho e, por isso mesmo, em todas dimensões da vida humana.

No plano econômico, “esse modelo político tornou-se responsável pela mudança da forma de acumulação do capital, hoje conhecido como acumulação flexível...” Chauí (1999).

No plano ideológico, assistimos à emergência do discurso pós-moderno, do pós-industrialismo, etc.. Este discurso, mesmo aliado à queda do socialismo real, suscitou uma atmosfera determinista que estabelece como inexorável o projeto de sociedade existente. Nesse sentido, apologéticos do capital como Fukuyama, anunciaram o “fim da história” e a vitória.

É nesse contexto que importamos analisar a corporeidade humana contemporânea.

Quais os valores que estão marcando a concepção de corpo em nossa sociedade, a partir da reestruturação produtiva.

Evidentemente não objetivamos aqui fornecer uma leitura definitiva deste corpo, senão apontar alguns elementos que, na nossa forma de ver, são importantes para a construção de uma interpretação da corporeidade contemporânea.

Nesta direção, entendemos que, os valores que fundamentam a cultura ocidental hodierno são, de igual modo os valores que conformam a concepção de corpo nesta mesma cultura.

A primeira questão seria então refletirmos sobre quais são as marcas que a chamada “acumulação flexível” imprimiu sobre os valores tradicionais que forneciam o fundamento moral do capitalismo clássico.

A esse respeito, Senett (2000) sugere que: a flexibilização do trabalho; a instabilidade e a deriva profissional a qual submetem-se os trabalhadores; a ilegibilidade do curso da própria vida; a abstração absoluta da produção decorrente da automação do processo, impossibilitam o ser humano de construir uma narrativa duradoura que dê sentido à própria vida.

Nesse sentido, os valores duradouros tais como, a lealdade a empresa; a amizade entre os companheiros de trabalho; o senso de responsabilidade (destruído pela lógica da capacidade de correr riscos no novo modo de acumulação); o caráter mais ou menos estável os quais são incompatíveis com a necessidade de mudança, são desconstruídos, corroídos pelo trabalho no novo capitalismo. Como esta dinâmica se manifesta na corporeidade humana?

Sérgio utilizando a “Teoria do Reflexo” já citada, comenta que antes do ser humano compreender a realidade, ele vivencia (corporalmente) esta realidade própria. Daí que ela se reflita em seu corpo e ela a interprete corporalmente.

Nesta direção a “corrosão do caráter” (e dos valores que conformavam o trabalhador no capitalismo) é também a corrosão do corpo produtivo e a inauguração do corpo descartável. Ou seja, na medida em que a alíquota de trabalho corporal tenha diminuído sensivelmente, os valores morais que constituíram o corpo produtivo não são mais necessários e, por isso mesmo, ele próprio não o é.

Cabe indagar se seria o fim da concepção do corpo máquina ou se seria apenas uma nova roupagem desta concepção, do que Sérgio chamou de mercantilização do corpo.

Não sendo como propósito esgotar o assunto, tentamos aqui elencar alguns elementos que consideramos importantes para o entendimento da corporeidade contemporânea. Importa agora submetê-los ao escrutínio público para que possam ser negados ou afirmados.

Os autores, Amparo Villa Cupolillo é Doutoranda em Educação - UFF/RJ, Professora do Departamento de Teoria e Planejamento de Ensino da UFRRJ e Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Física Escolar/UFRRJ, os demais são acadêmicos do Curso de Licenciatura em Educação Física e membros do GEPEFE/UFRRJ.



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