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Palavras-chave: 1- Saber docente 2- Prática pedagógica 3- Formação profissional

Baseio-me, neste trabalho, principalmente nas teses defendidas por Tardif (1991, 2000) em relação aos saberes docentes, relacionando-os com a formação profissional, prática pedagógica, professor-pesquisador e reflexivo, com contribuições de outros autores, no qual os professores são considerados como sujeitos do conhecimento e possuidores de saberes específicos ao seu ofício e o trabalho educativo cotidiano como não sendo somente um lugar de aplicação de saberes produzidos por outros, mas também um espaço de produção, transformação e mobilização de saberes que lhe são próprios.

Concordo com Nóvoa, ao acreditar que os fatores pessoais contribuem decisivamente para como a formação será incorporada e vivida pelo futuro professor, influenciando diretamente a atuação profissional. Essa é também a opinião de Borges (2001) que destaca a história de vida como elemento crucial para entender o desempenho profissional na medida em que os fatores inerentes à profissão e os fatores externos (como expectativas futuras, visão de mundo, condições subjetivas do sujeito, pessoas que influenciam sua vida) estabelecem uma relação simbiótica, formando a identidade do profissional.

Para conceituar saber docente utilizo a síntese de Borges (1998, p. 50) sobre as idéias de Tardif et al. (1991), como sendo “O conjunto de saberes que o professor possui não só no que diz respeito aos conhecimentos já produzidos que ele transmite, mas também, ao conjunto de saberes que integram sua prática e com os quais ele estabelece diferentes relações.”

Para esses autores o saber docente é um conjunto de vários saberes, proveniente de diversas fontes e pode ser entendido como um “amálgama, mais ou menos coerente” (Tardif et al., 1991, p.218) de saberes provenientes de quatro fontes:

Saberes da formação profissional - transmitidos pelas instituições formadoras, são aqueles das ciências da educação e da ideologia pedagógica coerente com essa atividade;

Saberes das disciplinas - saberes sociais sistematizados e tematizados na instituição universitária;

Saberes curriculares - saberes sociais que a escola/ sociedade seleciona para serem transmitidos às futuras gerações;

Saberes da experiência - desenvolvidos pelo professor no exercício de sua profissão.

Dentre esses, os professores priorizam e identificam-se com os saberes da experiência, pois estes têm origem na prática cotidiana e são por ela validados. São saberes que constituem os fundamentos de sua competência e que o professor adquire através de sua experiência profissional e pessoal. Esse saber da experiência é considerado pelos professores como elemento de referência, validação e análise da sua prática escolar. Segundo Santos (2000, p.46), a recente valorização de saberes da experiência social e cultural, senso comum e da prática, deve-se aos diferentes olhares que se tem hoje sobre os estudantes, o professor, o currículo e as instituições escolares. Já os saberes da formação profissional, disciplinares e curriculares, presentes durante a formação acadêmica, são produzidos e legitimados pelos cientistas, sendo então vistos como prontos e transmitidos aos futuros professores para que transmitam às futuras gerações. Por isso, explica-nos Tardif et al. (1991), é que os professores encontram-se numa relação de exterioridade no que tange os saberes que possuem e transmitem.

Há um conjunto de saberes nesse “mundo comum vivido” pelos professores que são considerados essenciais para eles no exercício profissional. Uma síntese elaborada a partir das leituras acessadas neste estudo permitiu identificar alguns fatores que dificultam a construção do saber pelos professores. São eles: o distanciamento entre formação acadêmica e realidade escolar, que se configura no distanciamento entre teoria e prática; a atividade de pesquisa muito distante da prática profissional; a falta de reflexão na ação; o pouco diálogo com outros professores da instituição onde trabalha; a pouca ou ausência de participação em grupos de estudos, congressos, seminários; a história de vida influenciando na maneira como o professor entende e reflete sobre sua prática, pois os processos de formação pessoal e profissional estão intrinsecamente relacionados com a construção dos saberes, a etapa em que estão na carreira profissional (Huberman, 1992, estruturou o ciclo de vida profissional dos professores tomando por partida a carreira. Segundo ele, as etapas pelas quais os professores passam são sete: entrada na carreira, fase de estabilização, fase de diversificação, pôr-se em questão, serenidade e distanciamento afetivo, conservadorismo e lamentações, e, por fim, o desinvestimento), pois essa etapa define muitas atitudes dos professores.

Essa pesquisa é do tipo teórica-empírica, tendo como corpus documental de análise as monografias de conclusão do curso de especialização, as quais sistematizam os conhecimentos produzidos pelos professores-discentes durante o curso e correspondem ao registro próprio do processo pelo qual eles passaram. Esse processo contempla o que foi produzido por eles em relação às propostas pedagógicas em Educação Física, a escolha de um referencial teórico para embasar suas ações pedagógicas, o processo de reflexão na e sobre a ação, os relatos dos principais problemas ou entraves à mudança da prática pedagógica almejadas por eles. O total de monografias é catorze, apesar de quinze professores terem feito o curso, mas um não concluiu e, portanto, não entregou a monografia. A técnica utilizada para análise dos dados foi a análise do discurso, caracterizada como um método de investigação que se propõe a realizar leituras críticas e reflexivas que não reduzam o discurso a análises de aspectos puramente lingüísticos nem o dissolvam num trabalho histórico sobre a ideologia. Destaca-se também a análise qualitativa em torno dos dados (Brandão, 1997).

Sendo assim, constatei que os professores valorizam os saberes provenientes da formação profissional, mas se reconhecem mesmo como educadores durante a prática propriamente dita. Em síntese, pude elencar os seguintes saberes produzidos pelos professores: repensaram as relações que mantiveram com a formação acadêmica em Educação Física; valorizaram as experiências profissionais, mas após o curso (e talvez seja por causa da maneira como o curso foi pensado) atribuíram a devida importância aos saberes disciplinares e a formação profissional; apresentaram inquietação com a prática pedagógica feita sem planejamento, sem reflexão; perceberam a importância da interação com os outros professores da escola para a efetivação de algum objetivo, mesmo que alguns professores já desenvolvessem um trabalho coletivo na escola; conscientizaram-se da importância de estudarem constantemente; valorizaram a formação continuada; perceberam como a história de vida / identidade do professor influencia a prática pedagógica; importaram-se em dar voz aos alunos para saberem o que esperam de suas atuações como professores; descobriram que existem vários caminhos para se atingir um mesmo objetivo, cada professor tem sua maneira; consideraram a teoria e a prática como práticas distintas, mas complementares; que a subjetividade é uma característica fundamental para a atuação do professor; analisaram a prática pedagógica criticamente, apontando os problemas e buscando alternativas para melhorá-la, não se atendo apenas aos problemas técnicos; assumiram uma postura mais comprometida com seu ofício.

Esses saberes da experiência são aqueles desenvolvidos pelos professores no exercício de sua função, fundados no trabalho cotidiano. Tardif et al. (1991, p.220) esclarecem ainda que “... [esses saberes] incorporam-se à vivência individual e coletiva sob a forma de habitus e de habilidades, de saber fazer e saber ser”.

Notamos porém, que, para que a construção dos saberes torne-se uma prática comum entre os professores não adianta apenas fazerem cursos esporádicos nos quais apenas um professor da escola participe. Ao contrário, acreditamos que toda a escola deva envolver-se com o processo de formação continuada para mudar realmente a prática e o entendimento do ensino, dos saberes. O envolvimento isolado de professores com a formação continuada dificulta uma mudança total na instituição na qual trabalham porque são minoria, e, na maioria das vezes, acabam sendo ‘engolidos’ por ordens e determinações institucionais.

Os cursos de formação de professores, assim como as escolas, poderiam operar com o modo de construção de saber, nos quais os alunos seriam estimulados a também constituírem por si mesmos um saber diferente e útil para suas vidas. Mas essa não tem sido a prioridade a tal ponto de, considerando o tipo de formação que tiveram, muitos professores parecem sentir-se incapazes de construir um saber, o que os levam a se acomodarem frente a um repertório de saberes prontos. Essa acomodação pode ser proveniente da concepção que o próprio professor tem de si mesmo, não se concebendo como sujeito de sua prática, mas sim como mero executor de rotinas e de atividades que são transmitidas de gerações passadas; do tipo de formação educacional pelo qual passam, pautado em concepções de que o aluno recebe conhecimento e a este cabe o papel de apreensão para futura aplicação; e também pode acomodar-se em sua prática pedagógica em função do ciclo de vida profissional em que se encontra. Sobre esse assunto, Huberman, 1992, apregoa que a carreira apresenta um desenvolvimento por processos e não por seqüências, visto que a totalidade da população não é homogênea e por isso, as seqüências no ciclo profissional são variadas, passando todos os profissionais pelo processo de desenvolvimento na carreira.

O professor que atua no processo educativo deve ter clara a idéia de que esse processo não se esgota, ao contrário, é algo mutável, variável. Se assim considerado, podemos perceber que a formação do professor não se inicia na graduação, tampouco se finaliza com o término desse curso. O processo de formação é inacabado e a escola / universidade, enquanto lócus privilegiado de reflexão pedagógica, é um espaço rico para oferecer elementos importantes para a formação profissional.

No meu entendimento, os saberes da experiência são na verdade os caminhos que os professores trilham ou reconhecem para conduzirem suas práticas profissionais. E a partir do momento que percebem ou descobrem esses caminhos (que podem ser objetivos ou subjetivos) tendem a tornar suas práticas reflexivas, em interação também com os alunos e outros professores. E assim professores constroem saberes que são atitudes, comportamentos, macetes, modo de organizar a aula, estilo pessoal, habitus, saber-fazer, saber-ser e saber-pensar.

A autora, Sabrina Poloni Garcia é do LESEF da Universidade Federal do Espírito Santo





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