Universidade Federal Fluminense


Memórias do salto triplo: entrevista com Nelson Prudêncio



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Memórias do salto triplo: entrevista com Nelson Prudêncio

SQM- Nelson, gostaria que você contasse a história de seu encontro com o atletismo.

NP- Bem, o primeiro contato meu com o atletismo ocorreu em 1964, isso já com 20 anos de idade. Até então, eu desconhecia realmente o que era o atletismo. Eu me lembro que quando eu apareci na pista, um dos atletas me perguntou se eu sabia o que era salto triplo. Eu disse que não. Aí ele demonstrou a técnica. Por ter saltado 11 metros e pouco da primeira vez, ele se entusiasmou comigo e me chamou para fazer o treinamento. Isso foi uma identificação do acaso. É dito no esporte que é a prova que escolhe o atleta e não o atleta que escolhe a prova. Pode até gostar de outra prova, mas, não tem um potencial, nem um bom rendimento na prova. Naquele momento, creio eu, o que beneficiou para que me mantivesse na prova foi o resultado da performance. Não sabia o significado de quanto era 16 ou 17 metros, mas, quem estava há mais tempo, já sabia o quanto valia essa marca.

SQM- E a sua participação em Jogos Olímpicos, como foi?



NP- Em 68, já nos Jogos Olímpicos, eu saí daqui do Brasil sem um resultado expressivo. Saí daqui com 16m20. Meu negócio, na época, era apenas bater o recorde sul-americano, que era de 16m56. Nos Jogos Olímpicos fui assistir a um show e quando saí, notei que havia no saguão uma exposição do México, em que havia um podium. Nesse podium, é claro, havia um mexicano em primeiro lugar, do lado direito, um americano e, do outro, havia um negro de camisa amarela. Identifiquei-me com isso e três dias antes da competição falei para meu técnico: “Eu vou subir no podium!” E ele disse: “Que bom, estou gostando de ver!” O índice das eliminatórias era de 16m20, sendo que o italiano Giuseppe Gentile abriu-a logo de cara com 17m10... novo recorde mundial e olímpico! Mas, meu objetivo era apenas passar para a final; era para isso que eu estava lá. No segundo salto, eu consegui! Havia feito 16m57 e batido o recorde brasileiro e sul-americano. Já tinha colocado meu nome na história da América do Sul com o recorde brasileiro e sul-americano, mas era na final que iria começar a competição mesmo. Voltei para o alojamento e no outro dia estavam lá os finalistas, eram 12 os classificados para a final. Primeiro salto do Gentile: 17m22... novo recorde mundial e olímpico! Hoje em dia eu penso: “O que eu estava fazendo naquele disco?” No desenrolar da competição, Viktor Saneyev fez 17m23 e, em meu segundo salto, fiz 17m05. Já estava dentro daquela premonição que eu havia visto, pois, eu estava entre os três primeiros. Portanto, cumpria-se a profecia, se é que eu a posso chamar assim. Eu praticamente já me sentia acomodado, pensando: “quem sou eu para saltar 17 metros!” Mas, felizmente, eu não saí da concentração. Quando eu fiz 17 metros sabia que a briga ia ser boa, porque eu estava em condições de igualdade com os outros competidores. Na quarta rodada de saltos, um outro russo fez 17m09 e eu caí para o 4º lugar. Pensei: “Desse jeito, eu estou fora da jogada!” E eu saltei. Você não percebe quando faz um grande salto. Só ouvi a exclamação do público... era o novo recorde mundial e olímpico anunciado. Eu não tinha preparação psicológica para a coisa, mas, naquele instante, eu era o novo recordista mundial e olímpico! Eu fiquei extasiado, abobado! Fiquei parado pensando..., mas, naquele momento, eu sabia que a competição ainda não havia acabado, pois, faltavam duas rodadas. Todos os atletas estavam presentes e motivados e isso permaneceu até a última série. Na 5a rodada, o Viktor Saneyev fez 17m39 e eu estava com 17m27. Eu disse: “bem, está ótimo!” Mas ainda faltavam outras pessoas com reais chances de saltar acima disso e, no último salto, eu saltei 17m15. Bem, havia terminado e eu já podia desligar o circuito. Para mim estava ótimo! Chorei que nem criança, justamente pelo fato de saltar acima de 17 metros ... e nas Olimpíadas! Pensei: “Estou no podium olímpico!” O sonho de todo atleta é estar numa Olimpíada, deixar o nome no livro da história e com a medalha olímpica. Ter ficado como o melhor do mundo naquele instante foi muito gratificante!

SQM– E os outros Jogos Olímpicos?

NP–Na Olimpíada de 72, disseram: “Vamos levar Prudêncio pelo o que ele simplesmente fez no passado.” Eu havia trocado de técnico e disse a ele: “Vou à Olimpíada e vou saltar!” Então, eu disse para mim mesmo: “Vou subir no podium!” Na Olimpíada de 1976, em Montreal, como já existia o João, me puseram para escanteio, mas, quando saiu a relação dos convocados, eu estava entre eles. Fui mais para estimular o João. Não fui para a final. Não deu tempo para que eu me preparasse melhor e senti que os Jogos Olímpicos haviam terminado para mim. Com família constituída, os interesses passaram a ser outros. Minha passagem pelo esporte, creio eu, foi muito boa, abrindo um horizonte muito grande, não só em termos geográficos, como também, para o trabalho e integração com as pessoas.

Os autores: Sara Quenzer Matthiesen e Augusto César Lima e Silva pertencem ao Grupo de Estudos Pedagógicos e Pesquisa em Atletismo do Departamento de Educação Física da UNESP-Rio Claro





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