Universidade federal do rio grande do sul



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1.2 Metodologia
1.2.1 O dilema de Hermes
O etnógrafo é um pouco como Hermes: um mensageiro que, contando com algumas metodologias para descobrir o mascarado, o latente, o inconsciente, pode obter a sua mensagem até mesmo através do furto. Ele apresenta linguagens, culturas e sociedades em toda a sua opacidade, estranheza e falta de sentido; então, como se fosse um mágico, um hermeneuta – o próprio Hermes - esclarece o que não estava claro, torna familiar o que era estranho e dá sentido ao que era desprovido de sentido. Ele decodifica a mensagem. Ele interpreta.” (Crapanzano apud.Canevacci, 1993:29)
Se a metodologia é o caminho, ela deve ser guiada pelo lugar onde se quer chegar. Neste caso, caracterizar a cultura de rua não é possível por uma apreensão anacrônica, sem percebermos sua dinâmica. Optei pelo estudo etnográfico balizado através das histórias de vida devido a característica processual, multifacetária e de permanente mudança que esse estudo impõe, o que, por si só, já caracteriza a cultura e a rua, assim como a concepção de processos identitários que desenvolvi neste trabalho. Ao contrário de abandonar-me a meras descrições dos locais, dos grupos e das histórias investigadas, desejei construir “descrições densas”. Cito Geertz, para quem o objeto da etnografia é “uma hierarquia estratificada das estruturas significantes”, isto é, a “cultura como sistema semiótico”, cuja análise constitui uma “ciência interpretativa à procura dos significados” (1982: 17).
Para confirmar esta mobilidade e, por vezes, o caráter escorregadio da temática, reafirmo nas palavras de Carmem Craidy:
O fenômeno meninos de rua é, antes de tudo, um fluxo que expressa um movimento de exclusão social mais amplo e se manifesta de forma particular na infância, por ser ela o elo mais frágil.” (1998:22)
Quis investigar como este fenômeno se produz.Acreditei que uma descrição etnográfica aprofundada pudesse ajudar a construir este caminho e a revisitá-lo sempre que necessário, especialmente pelas três - ou quatro - características que Geertz aponta:


  • ela (a etnografia) é interpretativa;

  • ela interpreta o fluxo (grifo meu) do discurso social e

  • a interpretação envolvida consiste em tentar salvar o ‘dito’ num tal discurso da sua possibilidade de extinguir-se e fixá-lo em formas pesquisáveis” (1978:31).

A quarta característica da qual Geertz diz se utilizar é o seu aspecto microscópico, entendendo que esta microscopia não busca um microcosmo que explicaria um “todo”. Apesar da antropologia também trabalhar com as grandes realidades estruturais/conjunturais, ela “as confronta em contextos muito obscuros para tirar deles as maiúsculas: Poder, Violência, Mudança, Opressão, etc.” (Geertz, idem). É nesta retomada, da cotidianidade, que me encontro epistemologicamente. Acredito ainda que é preciso varrer alguns resquícios do pensamento binário (e, por vezes, maniqueísta) entre indivíduo e sociedade, micro e macro visões, quantidade e qualidade, objetividade e subjetividade, só para citar alguns exemplos que se referem mais especificamente aos aspectos metodológicos.


Alguns autores aos quais me referenciei, trabalham com o conceito de subcultura (como Cláudia Fonseca, David Snow e Leon Anderson, entre outros). Para Snow e Anderson:
Como as sementes das quais as subculturas germinam estão estruturalmente fincadas, os elementos comportamentais (o que as pessoas fazem), de artefato (o que produzem ou usam para produzir) e cognitivos (os significados que as pessoas dão às coisas) que se unem para conferir a uma subcultura o seu traço distintivo podem ser em parte interpretados como adaptações a necessidades e oportunidades estruturais. Desse modo, as subculturas não são fenômenos sui generis mas têm origem nos processos de acomodação e resistência a forças e mudanças sociais de coletividades de indivíduos.” (1998: 76)
Mesmo compreendendo a argumentação destes autores, optei pela noção particularizada de “cultura de rua”, por acreditar que o conceito de subcultura ainda possa remeter a um estigma de inferioridade cultural tão presente, não só na população de rua, mas no próprio povo brasileiro e terceiro-mundista em geral.
Tomei o cuidado de não isolar o segmento estudado como fora (ou excluído!) de um sistema mais amplo de relações econômicas, políticas e culturais ou como “unidades realmente independentes e autocontidas”, procurando, assim, “localizar experiências suficientemente significativas para criar fronteiras simbólicas” (Velho,1997: 15/16) e contextualizá-lo dentro das relações mais amplas em que está inserido.

Quanto à noção de “cultura de rua”, propus defini-la como um conjunto de: comportamentos, valores, visões de mundo, percepções (tais como as de tempo, espaço e pessoa), aspectos interacionais, estratégias de sobrevivência e rotinas cotidianas bastante específicas a uma população com características peculiares, mesmo que heterogêneas, e com uma rede de relações e interações simbólicas próprias.


Estas características acentuam-se com o decorrer do tempo de permanência na rua e com a desvinculação gradativa dos laços de parentesco e de outras redes sociais de apoio, o que é, ao mesmo tempo, causa e conseqüência da dificuldade de circulação por outros grupos sociais.

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