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1 TEXTOS E CONTEXTOS


Neste capítulo, apresento um pouco do cenário e algumas das personagens que compõem este trabalho, assim como a metodologia e o referencial teórico de que dispus para interpretá-los. Faço ainda um resgate da origem do conceito de exclusão social que gerou uma categoria já estigmatizada: a dos “excluídos”. Por fim, aponto três elementos de análise que serviram de base para circundar este estudo sobre jovens moradores de rua e de onde parti para a escolha destes.




1. 1 O Teatro da Rua


O menino de rua entra em cena”

Foto de Zé Inácio, publicada no livro Atuadores da Paixão de Sandra Alencar – Porto Alegre/ Secretaria Municipal de Cultura – FUNPROART/ 1997.


O ano é 1994, o lugar é a Esquina Democrática, cruzamento entre a Rua da Praia e a Av. Borges de Medeiros, em Porto Alegre, ponto de encontro para os ritos cotidianos e os grandes rituais que a modernidade gaúcha realizou nas últimas décadas: manifestações partidárias, religiosas, encenações teatrais.


A foto registra a cena da peça “Dança da Conquista”, teatro de rua do grupo “Ói Nóis Aqui Traveiz”. Uma multidão de transeuntes se aglomera para assistir à trama que relata o aniquilamento do povo indígena, dos “sem-alma”, dos “sem-cultura”, sob o jugo da colonização ocidental moderna.
Pessoas interrompem sua caminhada cotidiana pelas ruas: vão ao trabalho, voltam das compras, foram a uma consulta médica, circulam para pegar outro ônibus. Para eles, este é um espaço de comércio e circulação. Interrompem sua rotina para olhar na rua, para olharem-se na rua.
Já, para outros, a rua não é só passagem; é seu espaço privado de domínio. Passam a maior parte do tempo lá, dormem lá, comem lá, amam lá. Entra em cena o menino-de-rua.
Na foto, a atriz Arlete Cunha representa sua personagem: a identidade de um bispo missionário da nação portuguesa. Xandinho, jovem adulto morador de rua, sobe no altar fictício no meio do palco da rua e se oferece à catequização, tomando o lugar do próprio Cristo crucificado: olhar concentrado sob a cruz dourada, silêncio; tempo cênico medido tal qual um profissional; braços estirados equilibram o peito aberto à nova ordem. Desempenha bem o seu papel.

Seria trágico, mas a platéia ri. Do seu corpo exala uma mistura de odores: suor concentrado de vários dias sem banho, roupas com urina seca e sujas do lixo das calçadas onde dorme, “loló” impregnada pelo corpo: “Sai daí, cheirador”, é o que lhe dizem.


Ele está fora do lugar. Não é um ator; deveria colocar-se junto à platéia anônima de passantes. Apesar do teatro de rua convocar os espectadores a participar, poucos se atrevem à exposição pública. Mas Xandinho destaca-se, individualiza-se. Sabe que está no seu espaço cotidiano e os outros são os que vieram ritualizá-lo temporariamente. Com a desenvoltura de quem circula permanentemente por diversos territórios – nômade de espaços e identidades – rouba a atenção para si. E foi este momento que ficou registrado pela mística da fotografia. Se a arte tem o poder de parar a flecha do tempo, como diz Prigogine, talvez a fotografia, enquanto arte, pudesse revertê-la.
Na foto, Xandinho está desempenhando mais uma personagem ritualizada das muitas que precisa assumir vivendo publicamente no centro da cidade. Não sabemos muito de sua história, pois em 1994, ano em que se inicia este trabalho, os serviços aos quais me vinculo, priorizam atender à população de crianças e adolescentes que sobrevivem das ruas centrais da cidade, e que, conforme delimitação do ECA7, vai até os 18 anos.
Xandinho, apesar de ter aproximadamente 1 metro de altura, é um jovem adulto. Não sabe precisar a sua idade nem quer fazê-lo. Pode jogar com nomes e idades diferentes conforme sua estratégia de sobrevivência lhe recomendar. Só tem como auto-referência identitária uma categoria: “Sô menino de rua!”.

Não é igual aos outros meninos-de-rua, pois ninguém é igual ao outro. Porém, do conjunto de práticas e valores que compartilha e que lhe confere um significado identitário, há uma que Xandinho não se reveste: vive quase sozinho. Incorpora-se a um ou outro grupo de recém-chegados à rua, pois geralmente é repassador de loló. Mas passa a maior parte do tempo só, perambulando pelas ruas do Centro, dormindo em plena luz do dia numa das mais movimentadas avenidas centrais, no calçadão da Borges.


É cagüete8 - dizem os outros guris sobre ele - quando um guri afana no centro, ele fica gritando, de sacanagem: ‘Pega, pega... pega ladrão”. “É amiguinho dos brigadiano. Pode vê, ele entra e sai do postinho da Brigada a hora que qué, com o paninho molhado (de loló) e tudo” “É... é... mas os guris querem matá ele.”9
Como eu disse antes sobre Xandinho, pouco se conhece de sua história anterior à rua. Sabe-se que ele tem um longo tempo de Centro. Com a cabeça desproporcionalmente maior que o corpo, lembra uma figura dramática da pré-modernidade: o bufo10. Suas estratégias de sobrevivência são demarcadas pela oscilação entre várias personagens: o coitado, o violento, o sacana, o debochado, o idiota, o doente. É um exilado nas ruas, considerado louco e, em sua trajetória incerta (ou seria certa?), a única coisa que tem a temer é a morte. Esta não tarda por vir – para todos nós, diríamos – mas, para ele, a certeza da morte anunciada é determinante e determinada de uma vida de antecipação de riscos11.

De riscos e estratégias, Xandinho segue sua trajetória de jovem adulto até 2001, ano que finda esta pesquisa. Mais uma vez, segue sua rotina: vai até o “mocó” do Casarão da CEE12 para buscar loló13. Mas lá se desenrola outra cena que não a da foto no teatro de rua, em 1994, como descreve um outro guri:


Xandinho foi lá, porque tinha acabado a loló dele, né? Já ninguém mais queria vendê prá ele. Que nem eu disse, né... ele cagüetava todo mundo. Tava sentado assim, cherando, rindo. E o Tatu (líder do mocó) já não tava bom dos corno naquele dia. Começô a dizê: ‘Tu... heim? Tu... heim? É cagüete, né?’. E todo mundo ria. Tatu pegou o 38 assim (mostra)... e começou a girar e pá na cara dele! Girava e pá... E todo mundo ria. Girava e pá, girava e pá. Até que acertou uma (bala) bem naquele testão.

Enterramo no pátio mesmo. Ficô raso. Ninguém conseguia cavá direito, tava todo mundo doidão... a terra era dura. Botamos uns saco de lixo por cima, mas choveu e saiu uma perna prá fora assim (demonstrava com o corpo e ria).

Ninguém se importô, ele ia morrê mesmo, né?”14
A trajetória de Xandinho poderia ser exaustivamente detalhada nestas poucas páginas de dissertação, mas mesmo que o estudo aprofundado desta história de vida e de morte comunique um universo - uma cultura de rua - que transversaliza o nosso, não seria suficiente para dar conta da heterogeneidade de histórias de vidas de tantos outros meninos e meninas que revelam diversas possibilidades de se tornar ou deixar de ser “de rua”.

O que há de comum nestas histórias? Onde elas se aproximam e onde elas se distanciam de outras? São perguntas que geram novas: O que caracteriza/delimita, para as crianças e jovens que fazem das ruas seu espaço prioritário de existência uma cultura própria? Quais são os ritos de entrada e de saída desta cultura de rua?


São estas questões que busquei investigar neste trabalho, tentando estabelecer alguns contornos sobre o que caracteriza esta cultura, com o objetivo não só de enxergar melhor com este espelho cruel da condição humana, mas de abrir travessias possíveis para o diálogo entre visões de mundo diferenciadas.


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