Universidade federal do rio grande do sul



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Mais por uma homologia de posição do que por uma igualdade de condição, nos termos de Castel, encontrei na dramaturgia um personagem que poderia ser considerado quase um arquétipo da população de rua. Podemos metaforizá-lo como um “bufo” moderno.

Como um excluído entre os excluídos, o bufão revela, na radicalidade de sua situação de miséria humana, os três grandes medos existenciais da humanidade: o exílio, a loucura e a morte. Ao exílio ele já foi jogado por sua condição de miséria e “anormalidade”. É em sua loucura de errante, de desviante, que ele é representado pelos outros. Sendo assim, o único medo que lhe resta é o da morte. É neste medo que está seu desafio maior. O risco em levar a cabo situações-limite (abuso de drogas, enfrentamento com o poder policial, atirar-se em frente aos carros) é, ao mesmo tempo, a última aventura que lhes resta experimentar e o único desafio a que se propõe driblar.



Assim, eles não “respeitam” nada, nem ninguém. Expõem os dramas secretos de seus interlocutores e têm a sutileza da percepção que só os desprezados (associados à desordem e ao mal) têm. Sabem localizar exatamente o foco de sua agressão. Acham as dores escondidas (recalques, no sentido freudiano) e trazem-nas à luz. Com a sinceridade de uma criança e a crueldade de um inquiridor, põem uma claridade excessiva ao que deveria ficar obscuro no “outro”, negativado em nós, àquele que queremos negar.
Ao mesmo tempo em que esta revelação de um “outro”, escondido em nós, irrita, agride e provoca reações, há uma sedução posterior que pode vir sobre a forma de jocosidade – o riso destrói as certezas. Às vezes fazem com tenhamos comiseração deles, o que, na verdade é uma auto-ironia, supõe um olhar cético sobre si mesmo.
O malandro que é malandro sabe disfarçar a sua esperteza em comiseração de si, em auto-ridicularidade. Faz o espetáculo! É mestre em improvisação, em dramatização, em inversão de papéis. Sabe ser o louco, o violento, o oprimido, o rechaçado, o reprimido, o obsceno, o doente, o inválido, o miserável. É o auge do nosso demens. E é por isto que fascina quem atua com eles: revela dentro do demens o sapiens (Morin, 2001).
As máscaras que assumem não são suas; são dadas pelas representações sociais a eles atribuídas em determinado momento ou lugar, em determinadas relações com outros indivíduos.
Mas o preço desta ousadia, deste baile de máscaras, é, certamente, uma carência de identidade substancial, uma subjetividade descentrada, formas de consciência sempre provisórias (Maffesolli;2001).
Apesar de aparentemente livres, pagam o preço dessa suposta (ou não) liberdade com a impossibilidade de se estabelecer de alguma maneira, de se enraizar. É essa pluralidade acentuada do “eu” que lhes dificulta a constituição de uma história, mas, ao mesmo tempo, permite-lhes percorrer vários mundos e perceber a pluralidade dos “outros”.
O arquétipo do bufão é o louco, fora do seu tempo; é o demens, física e mentalmente desviante de uma identidade idealizada como “normal”; é aquele que é constantemente expulso de todos os territórios, que vive um não-lugar (portanto um u-topos); o espaço dele é o exílio. Tendo a loucura e o exílio como componentes do seu ser, só lhes resta um medo: o da morte. Por isto, são espertos, criam estratégias de sobrevivência com a maestria que só quem vive o presente no limiar entre a vida e a morte sabe fazer.
Tentar definir uma identidade “de rua” é querer encaixar em um único molde algo que é múltiplo, não só pela heterogeneidade dos tipos que habitam as ruas, mas pela multiplicidade humana em si. Talvez a única identidade que seja preciso resgatar é aquela de que fala a educadora em sua bela e essencial redundância: são “pessoas humanas” expondo nas ruas todo o sapiens e todo o demens que está em cada um de nós.
Assim o “bufo” brinca com a inversão de papéis e nos faz rir e chorar da miséria que é também nossa.

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