Universidade federal do rio grande do sul


Os processos identitários



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4. 3 Os processos identitários
Quando os meninos (as) estavam reunidos em grupo (nos serviços de atendimento ou nas ruas) e algum educador se referia ao grupo chamando-os de “vocês”, imediatamente vinha o alerta: “Vocês... é um bando de macacos!”

Paradoxal a uma ausência de história e de identidade da fala “Sobre mim não têm quase nada”, está a necessidade de reafirmação de si em outro dito bem comum entre os guris e gurias: “Vocês é um bando de macacos”. A tentativa aqui é a de apreender o sujeito enquanto ser, ao mesmo tempo social e dotado de uma individualidade própria. Contrário ao “vocês é um bando de macacos”, sem nome, sem contexto, sem desejo74 está a necessidade de se auto-afirmar e demarcar a sua individualidade.


Sinto que há ainda mais necessidade de reforçar esta subjetividade, esta peculiaridade no caso da população que vive nas ruas, por três pontos que destacarei como essenciais:
Primeiro, porque eles aparecem aos olhos dos transeuntes com uma massa disforme, subumana, brotada das calçadas. Segundo, porque eles aparecem aos serviços que se destinam ao seu atendimento como usuários, como alunos (a-luno= sem luz), como casos a serem resolvidos. E, terceiro, porque eles constroem um processo de identificação baseados nesses olhares dos ‘outros’.

A população em geral tem duas formas de representar os moradores de rua: seja por uma identidade negativada (vagabundos, delinqüentes, marginais, coitados, sofredores, pobrezinhos), seja por uma invisibilidade.


Descrevo o relato de uma professora da EPA numa de suas primeiras saídas para abordagem de rua, como forma de mostrar um pouco como os meninos são vistos por quem lhes deseja ver:

“Durante as caminhadas, encontramos crianças dormindo, embaixo do viaduto, próximo à rodoviária e no Trensurb. Fiquei impressionada com a modelagem de seus corpos ao dormir. Não se consegue identificar, parecem pedras, amontoados de roupas...! Quando eu identificava que era uma pessoa, eu levava um choque, um susto de estar percebendo uma pessoa humana de outra forma, com características, até então, para mim, não inerentes à figura humana. Estou lutando, não sei se para entender essas novas “figuras” ou se para rejeitá-las, e não aceitá-las desta forma, no sentido de que não mereçam essa condição subumana.”75

Neste estudo, por tratar especificamente das formas de intervenção nesta realidade, ou seja, das interações educativas, interessa-me mais o segundo e o terceiro ponto: o olhar dos trabalhadores sociais e o olhar que os próprios moradores de rua têm de si.
Enquanto categoria, as crianças são atendidas neste e naquele programa, os adolescentes, também, neste e naquele outro, mas os jovens adultos, que chegados aos dezoito anos ultrapassam a linha demarcatória de ação do ECA, partem para os programas destinados aos ‘adultos em geral’. Mas na representação destes jovens, ou como eles costumam dizer, “lá é prá mindingo”.
Alguns educadores confirmam esta hipótese, acrescentando sua interpretação: “Prá eles, quando chegam nos albergues/abrigos de adultos é como se cada olhar de um “mindingo” lhe dissesse: “Eu sou você amanhã”.
Num trabalho que iniciei com um grupo de jovens que estavam entre 16 e 18 anos, propus que definissem ‘mindingo’:
A pergunta “Quem são os mendigos?” suscitou desconforto no grupo e uma série de respostas:

“É quem mora na rua, não tem casa, não tem colchão, não tem nada”.

“É aqueles que são esculachados pelos mindingos.

“É bêbado”.

“É louco”.
A pergunta seguinte “Como alguém se torna mendigo?” começou a aproximar as respostas um pouco mais da própria realidade vivida por eles, ao ponto de citarem como exemplo alguns companheiros de rua que, segundo eles, já estariam virando mendigos.

“Sem o amor da família”.

“Sem o respeito das pessoas”.

“Porque a mãe não tinha condições de criar ele”.

“Tava sem ter o que usar, o que comer”.

“Tem gente que tem tudo em casa e quer ficar na rua porque quer.

“O Jair tá puxando carrinho de papel. Já tá virando mindingo de carteirinha!”.


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