Universidade federal do rio grande do sul



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3.7 Tempo e ritos
Vimos neste capítulo, que o tempo suspenso num eterno presente é um estatuto da cultura da rua. Seu rito de entrada é a antecipação do risco pelo determinismo da morte futura no presente.
A suspensão do tempo é assim, própria do momento ritual. Este é o momento de uma transição entre um antes e um depois. O uso/abuso de drogas, em si, representa um ícone deste estado. É o elemento ao mesmo tempo socializador das relações internas do grupo de uma identidade de pertencimento e é também o demarcador do exílio para outras relações fora do grupo. Junto à questão da droga, aparecem os relatos da supressão da fome, do frio, do medo. Aparecem em contextos de exploração sexual e uso no tráfico, mas também em contextos de festas e confraternizações. O enfoque sobre a droga advém da prioridade dada a este elemento por vários atores que interagem com a cultura da rua na saturação dos dados de campo.
A droga – como eles referenciam – tem o caráter anestésico da memória que se impõe a qualquer indivíduo em estado de vigília. Memória que é disjuntiva devido às fugas constantes da temporalidade na rotina cotidiana que não organiza, entre outras coisas, o sono.
Assim, o sono – ter um lugar e um horário seguro para recostar-se e descansar, rememorar a história – assume um caráter terapêutico que propicia um fixar-se, entre outras coisas, em um tempo sociabilizado/sociabilizador. Eu ousaria insinuar que antes de “tratar” a questão da droga, é preciso tratar do dormir em paz.

Esta primeira organização de tempo-espaço-relações pode possibilitar o início de novas organizações que exijam cada vez mais um planejamento de ações.


O parar para dormir é, antes de tudo, o parar de circular eternamente. Só que esta parada não representa uma estagnação; pelo contrário, é entrar em movimento de reflexão. É o momento em que se rememora o que aconteceu antes e se prepara – em um nível mais ou menos consciente – para o que está por vir.
A possibilidade de rememorar o dia que passou é o início do resgate de uma história. Se ela se tornar freqüente, pode significar uma diminuição do excesso de impermanência, pois vai exigir uma reflexão para ações futuras, portanto exigirá projetos.
A demanda interna (a mobilização por projetos) interrompe a visão linear de ‘rua – drogas – morte’ e cria um campo de outros possíveis.
Como vimos, o “menino-de-rua”, na maioria das vezes, é pego de surpresa em um corpo adulto e, como foi dito, só percebe a demarcação do tempo de vida quando faz 18 anos e é barrado institucionalmente. A crise dos 18 anos é uma retirada do pouco chão que ainda lhes resta sob os pés. Neste momento, cada vez mais, existem a pressão externa e o apelo à decisão interna de um projeto de vida ou de um projeto de morte.


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