Universidade federal do rio grande do sul


Sonhos e projetos – trabalhar a incerteza



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Sonhos e projetos – trabalhar a incerteza

Trago o registro dos sonhos71 que alguns meninos e meninas relatavam ter quando questionados. Estas informações foram retiradas das entrevistas para matrícula dos recém chegados na EPA (de 1995 a 1999), a maioria delas feita por mim. Grande parte das respostas à questão “Qual o teu sonho?” era muito difícil e demorada, e muitos respondiam que não tinham sonhos. Alguns, antes de serem esclarecidos que não se tratava de sonhos dormindo, mas de sonhos/desejos estando acordados, respondiam que não sonhavam porque nunca dormiam. Outros diziam que tinham medo de dormir, porque só tinham pesadelos. Alguns eram enfáticos, outros improvisavam:




  • “Ser cantor de RAP, montar uma casa, trabalhar e ter família.

  • Ser psicóloga, dona de um restaurante.

  • Ter mãe, pai, namorado. Ser médica.

  • Jogar bola.

  • Ter um namorado "naquelas".

  • Melhorar de vida.

  • Se formar, ser alguém na vida, ter casa.

  • Sonho morrer e encontrar o meu pai e ficar com meus irmãos.

  • Ser o homem mais rico do mundo.

  • Ser serralheiro.

  • Ser cantora ou modelo.

  • Trabalhar na Cruz Vermelha.

  • Ajudar os meninos de rua.

  • Servir na marinha.

  • Ser veterinário.

  • Eu queria ter 5 filhos, trabalhar, ter uma esposa.

  • Ser advogado.

  • Seguir prá frente, não prá trás. Vivendo.

  • Trabalhar: médico. Gosto de jogar futebol, de pagode.

  • Ter um carro, uma moto.

  • Ser jogador de futebol.

  • Ter uma casa.

  • Nenhum.

  • Ganhar um roller prá ficar andando pelo centro.

  • Me formar em policial.

  • Entrar para o quartel.

  • Já tá realizado; pegar na oficina de mecânica.

  • Ter uma casa, bastante namorada.

  • Parar de cheirar loló, ir p/escola e aprender algo.

  • Trabalhar - ter o que eu quero.

  • Saber ler e escrever e um dia ser alguém na vida.

  • Completar a 8ª série e entrar no exército.

  • Namorar com a Kely.

  • Ser modelo ou professora.

  • Constituir uma família e ajudar a vó.

  • Ter um serviço prá me dar bem e uma casa só minha.

  • Estudar.

  • Nada, só trabalhar.

  • Trabalhar... de jardineiro ou computação gráfica.

  • Ser “patrão” da coca.

  • Ganhar na loto;

  • Ser brigadiano prá roubá, matá e não ir preso.”

Projetos podem ser idealizações da realidade imaginadas em termos de um futuro distante. Podem confundir-se com sonhos, na medida que estes também são projeções de realidade, só que em um tempo indefinido. Podem ser a projeção de um futuro muito distante, ‘ser advogado’; de uma volta ao passado: ‘que a minha mãe não morresse’, para um presente imaginário: ‘ganhar na loto’, ‘ser a Sandy’. Porém, a maior distinção entre sonhos e projetos não está apenas no tempo objetivo, projetado, mas na predisposição para a operacionalização do sonho/projeto, isto é, na organização do tempo e previsibilidade das ações de realização.


Como diz Bachelar: “O projeto é o onirismo de pequena projeção” (1988:148) e talvez por estar em uma escala menor de idealizações, seja possível organizar ações que o realize, entendendo toda a aleatoriedade que nos dificulta, na maioria dos casos, em conciliar a nossa vontade ao nosso destino, mas que nem por isto nos impede de sonhar e de organizar nossas ações para concretizar nossos desejos.
Morin nos ensina que “a organização é a ação (e o resultado dessa ação) de, ao mesmo tempo, manter, reunir e produzir (ou transformar)” (2001:196). Capacidades que necessitam de uma aprendizagem e, portanto, de um processo educativo para se desenvolverem. Ao mesmo tempo que não existe um projeto individual (puro), este não pode ser determinado pelos outros, mas na relação com os outros. Assim, o binômio moriniano autonomia/dependência surge como a possibilidade de conciliar desejo, liberdade, sucesso e ética.
A construção de projetos configura-se também em aceitar a incerteza, o erro, o desvio, em saber correr atrás do destino próprio que tomam as ações que empreendemos, em saber corrigi-las, em fazer da experiência passada (o impriting cultural a que se refere Edgar Morin) as informações para construir o futuro, em imaginar-se como outro(s) e, quando chegarmos a ser este(s) outro(s), estarmos preparados para o que vier, o que, certamente, não é só para a população de rua.
A vivência do corpo, das emoções, do presente talvez seja algo que este espelho escrachado nas ruas queira nos ensinar como viver o hoje, sabendo que o hoje é a própria vida, o passado não volta e futuro talvez não valha a pena ser tão cultuado. Como diz Carmem Craidy, somos educadores em busca das promessas da modernidade, atuando com jovens que já descobriram a ilusão desta.


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