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A História de Dida

Dida, um jovem de 19 anos, vive na rua desde tenra idade – conforme informa sua história institucional. Teve passagens por diversos programas de atendimento: FEBEM (abrigos e casa fechada), Lar Dom Bosco, U.O - Centro, Abrigo Municipal Ingá Britta, EPA, ESR. Usa loló e cocaína e maconha sistematicamente. Possui vários processos por ato infracional, nunca conseguiu terminar de cumprir medida de PSC69. A vez que melhor se engajou numa PSC foi no Parque da Redenção (espaço aberto), com acompanhamento diário de um ex-militante do MNMMR70 e da EPA. Porém, a medida sempre regredia para Liberdade Assistida.


Quanto à sua situação familiar, tem um irmão mais novo que também mora na rua. Este último, conforme consta no seu prontuário no JIJ, aos seis anos de idade foi “preso por vadiagem”! Refere-se a uma irmã mais velha que mora em Novo Hamburgo e a qual tentamos vincular, o que funcionou por um determinado tempo, mas logo ele voltou para o centro de Porto Alegre.
Dida sempre se apresentou muito agressivo, fazia ameaças constantemente e fazia uso permanente de loló. Com a chegada dos 17 anos, Dida começou a afastar-se dos seus grupos de referência na rua: Praça XV e Ponte. Estava evasivo. Não conversava com ninguém. Andava vagando pelas ruas, mas não como antes, agora estava só. Caminhava sozinho e mesmo com a possibilidade de comer nas instituições que ainda estavam abertas para ele (no caso a EPA e a UO) revirava latas de lixo para achar comida. Seus amigos contavam o fato de ele comer comida do lixo, com nojo e espanto. Tentávamos buscá-lo através das saídas na rua, mas ele parecia nem sequer nos reconhecer. Seus colegas diziam que ele queria bater em quem se aproximasse dele. Conosco (educadores) era só o silêncio e o olhar no vazio. Estava enclausurado em si.

Lembro-me de uma vez, depois de alguns meses, que o encontrei na Praça XV cheirando “loló” com os guris e comentei com as colegas que cheguei ficar feliz de ver que ele estava falando e sorrindo, apesar de chapado. Mas lembro que a única coisa articulada que ele conseguiu falar comigo foi referindo-se ao aniversário dele que estava chegando e que agora “vou direto pro cadeião” ou “morro de vez”.


Aos poucos, conseguimos resgatá-lo de volta à EPA. Mas não foi um retorno tranqüilo. Sem a loló, ficava irritado, agredia, ameaçava a todo o momento. Não se concentrava em uma atividade o mínimo de tempo necessário para desenvolvê-la. Os professores estavam divididos; a maioria achava que ele não deveria permanecer mais na escola, que só estava atrapalhando os outros que queriam estudar. Vários relatos de abordagens de rua feitas pela escola confirmavam as falas de que muitos guris e gurias, incluindo Leila, não queriam ir à escola devido às agressões de Dida.
Estávamos discutindo, brigando até, sobre se ele deveria ser encaminhado ao atendimento de adultos (ao qual sabíamos que ele não iria). Uma internação forçada para desintoxicação foi pensada, mas não havia chances de operacionalizá-la, assim como em vários outros casos já tentados.
O técnico do JIJ que o acompanhava foi fundamental no processo de escuta do Dida. Ajudou, impondo condições para sua permanência fora do regime fechado da FEBEM. Condição esta que foi reforçada pela escola: precisava estar na escola para não ficar “preso”, mas precisava participar e “se acalmar” para continuar na escola. É claro que este limite já tinha sido tentado várias vezes, por isto o grupo de professores e funcionários da escola estava descrente dos resultados.
Chegamos a fazer a dinâmica de “júri simulado” entre os professores para discutir a permanência ou não do Dida na escola, agora já com 18 anos. O contra-argumento do pequeno grupo que “defendia” que Dida ficasse na escola era de que o tempo de “tolerância” e de “investimento” que a escola fez para que ele progredisse já tinha se esgotado, o “tempo dele” ainda não.
Dida participou da escola desde 1994, ou seja, desde as primeiras abordagens de rua. Tinha uma freqüência irregular devido ao uso abusivo de substâncias psicoativas, a cair na FEBEM várias vezes e, durante um tempo, a ter retornado para casa de sua irmã em Novo Hamburgo ou de sua mãe na Vila Cruzeiro.

Seu tempo de rua inclui-se no maior percentual do quadro daqueles que saíram de casa na “tenra idade”, ou seja, daqueles que não se fixaram na rua pelas instituições estarem no Centro, mas por não haver atendimento sistemático nesta época. O tempo que a escola (ou outro serviço) “investiu” nele foi de três anos. O que significava comparado aos doze anos em que viveu entre a FEBEM e a rua prioritariamente?


O tempo que havia se esgotado era o tempo institucional, jurídico, eu diria. Pois, ter 18 anos era o peso que carregava em seu corpo, ou melhor, na representação social que dá aos jovens moradores de rua (ou que cometem atos infracionais) quando chegam aos 18 anos. É seu ritual de passagem mais demarcado: para uma maioridade jurídica que não lhe inclui na vida adulta em geral, mas, ao contrário, limita mais ainda o seu campo de ação. Aqui a linearidade apresenta-se como real: a cadeia ou a morte. Talvez uma mulher e um barraco na vila se apresentem como alternativas, assim como ser patrão da coca e seguir fazendo arrombamentos sem nunca ser pego.
Para Marco Fernando, 18 anos, a consciência: “Ainda não sou patrão da coca”; para Ferreira, 23 anos: a cadeia onde ele está significa aprendizado para ser um patrão melhor; para Jovenildo, 22 anos, a cadeia ou a morte não se apresentaram como alternativas separadas: foi assassinado no presídio de Charqueadas.
Bica, 20 anos, após três anos de namoro com a mesma menina (também “de rua”) teve seu primeiro filho. Ocupou uma casa na Vila das Laranjeiras e estão juntos até hoje desde 1997. Já Sandro, 19 anos, com os 150 reais que ganhava da bolsa de trabalho educativo, juntou 50 por mês e, ao final do projeto, comprou uma casa pré-fabricada (de 700 reais) e convidou a mãe para morar com ele.
Podem parecer situações isoladas e pode-se mesmo questionar o grau de cidadania que faltaria atingir para uma vida mais digna, mas não se pode medir o que estes pequenos projetos pessoais representam na vida de cada ser humano. Neste contexto, os conceitos de fracasso ou de sucesso se medem pela habilidade em se manter vivo por mais tempo e em dar um sentido pessoal e relacional às suas vidas.
As características dos jovens adultos são absolutamente diferenciadas do restante da população mais velha que vive nas ruas. Porém para os programas sociais, que se utilizam apenas do critério da legislação, ao fazer dezoito anos caem na “vala comum” dos atendimentos de adultos. É por isto que a chamada “crise dos dezoito” é reconhecida como o período mais difícil para quem vive nas ruas.
Esta crise pode começar a apresentar sinais já desde os dezesseis anos, dependendo do grau de consciência da sua situação. Outros só conseguem “sentir o peso” dos dezoito anos quando cometem um ato infracional corriqueiro e vão parar no “cadeião” e não mais na FEBEM.
Outro momento em que percebem o seu tempo de vida, ou seja, a sua idade, é quando os serviços de atendimento lhe informam que não podem mais entrar, pois ele já é “de maior” ou, ainda, o que é pior: dizem que já investiram nele tudo o que podiam investir, e ele não colaborou.
Seria o momento ideal para incidir sobre prováveis projetos de vida, pois é um dos poucos momentos em que o menino/a ‘pensa’, ou talvez, ‘sente’ o tempo que está por vir, o futuro.
A idade de ser adulto exige a determinação de projetos. Porém, ela demanda uma organização de si e com o mundo, não mais de um mundo paralisado num tempo fictício. Apesar da ausência de expectativas reais que lhes impulsionam para um tempo fixado no presente, eles e elas, como nós, têm sonhos. Sonhos podem estar representados por uma imaginação positivamente furtiva da realidade, mas também podem transmutar-se em esperanças. Mas como transformar alguns sonhos em projetos realizáveis?

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