Universidade federal do rio grande do sul



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3.4 Trajetórias – quando sente a dor

As histórias de vida destes jovens são marcadas, impressas no corpo e na alma, por uma trajetória que inclui um circular permanente num caminho de perdas e de desafios constantes.


A trajetória de rua é o percurso espaço-temporal e identitário percorrido pelo sujeito até à afirmação de uma cultura própria da vida nas ruas.
Como diz Preta sobre por que para algumas pessoas é mais difícil sair da rua:

“... depende do tempo. De quanto tempo ele já tá na rua. Eu, por exemplo, saí quando tinha 7 anos a primeira vez. Eles me pegavam, me botavam na FEBEM e eu fugia. Acho que depende da rebeldia também. Eu sempre fui rebelde, meus irmão não. É... tem um irmão que também apronta muito. Mas ele apronta lá mesmo (na vila). E eu... fui prá rua.”

Preta relata o que é preciso aprender para viver na rua:
“Também tem várias coisas que eu não queria; mas tive de aprender desde pequena. É... (afirmativa) é um aprendizado: andar armada ( com canivete e faca); e pedir... o que é pior... tem que aprender a pedir!”

Preta, na perspectiva da menina, encara os desafios da rua como algo que pode viciar :


“É um vício assim... Começa fazendo programa, não sabe bem o que que é aquilo. Depois vicia, não sabe viver outra vida. É que nem uma droga. É uma droga.”

“Tem amigas minhas que saíram da rua, mas ficaram no vício (de fazer programa). Têm outras assim que se juntam com uns véio, como a gente diz, né? Se junta com uns véio que cuidam delas. Bem ou mal... eles cuidam delas. Elas cuidam dos véio.”

“Mas só sai da rua mesmo quando dá uma dor aqui (bate na cabeça). Eu comecei com esta dor assim na cabeça. Quando eu tava grávida desta aqui, eu olhava prá barriga e pensava: o que que vai ser da minha filha? Mais uma que eu tô botando nesse mundo. As outras tão com a minha mãe. Acredite se quiser, mas elas nunca tiveram um piolho. Uma é bailarina lá no Tesourinha. Eu vi ela na tv esses dias. É linda e é bailarina. A outra também vai ser, tem que ver como a nega rebola quando ouve som.”
Quando perguntada sobre como ela conseguiu estar há tempo afastada da rua (saiu da rua?) e como se sai desta vida, ela diz:

“É uma dor na cabeça assim que pesa, quando pesa tudo que a gente já passou nesta vida. Aí pede ajuda. Olha, vô te dizê uma coisa: quando chega a pedi ajuda, tem que fazê alguma coisa, porque é bem aí que a neguinha sente a dor e quer sair da rua. Antes não, antes tudo é festa, é só zoeira, tanto faz. Mas quando chega a pedir ajuda tem que ajudar”.

Relativiza o tempo que é necessário para que aconteça o que ela chama de “se dar conta da dor”, e aí introduz o fator idade e a consciência de envelhecimento:
“Eu só fui senti a dor quando já tava velha, com 22 anos, né? Eu nunca pensei que ia durar mais que 18. Eu achava que ia viver até os 18 e já tava bom. Tem gente que sente essa dor antes até de que eu. Outros... só quando já tão morrendo, aí não adianta mais. Depende do tempo que ficou na rua, dos vícios – é tanta coisa que depende!”
Diz Preta: “Eu não sei como eu cheguei aqui. Eu não sei como eu cheguei aos 22...” Pensa e conclui: “23!” . Vai mais fundo: “Já os 18, assim... já tava bom prá mim.” Relembra: “O que eu já fiz nesta vida!” – e ri. Joga sua cabeça para trás e ri.
Olhamos para os lados, na sala do abrigo em que Preta está, e os já-adultos observam-nos: estamos rindo (vi pouco isto nos albergues para adultos que já visitei). Os já-adultos estão sérios. São em torno de dez e nenhum conversa com o outro. Bem diferente daquele “todos-ao-mesmo-tempo” do discurso dos meninos (as). Estão sentados em sofás na sala de estar. Olham uma televisão desligada ao lado do aviso “Para ligar a televisão é preciso chamar a monitora”. Não se pode saber aqui de onde vieram, mas é pouco provável que tenha sido de uma infância/juventude de rua. Não saberemos se já viveram mais do que Preta ou sequer se sentiram a “velhice” antes dela.68


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