Universidade federal do rio grande do sul



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3.3.1 A historia de City
City, 19 anos, foi para a rua, como se diz nos serviços, em tenra idade. Seu irmão mais velho já tinha ficado um longo período morando na rua e ele diz ter ido atrás do irmão. Conheci-o com outro nome, ele era um dos muitos casos que tem duas certidões de nascimento, uma feita pelo pai logo que ele nasceu e outra firmada pelo padrasto quando se uniu à sua mãe.
Em 2001, conta-me sobre seu relacionamento mais duradouro com uma guria também moradora de rua: “o irmão dela tinha muita consideração por mim, eu praticamente criei Charlies (o filho dela)”. Eu pergunto quanto tempo eles ficaram juntos, ele não sabe responder. Pergunto até que idade ele criou o menino e ele pensa bastante e responde com gestos: “ah... até este tamanho assim”. Mesmo trabalhando atualmente e gerindo seu dinheiro e seu ‘tempo’, ele não sabe precisar a idade do menino que criou; refere-se ao tamanho aproximado da criança. Não lembra a data ou o período em que isto aconteceu, tem a referência do local: “Foi quando a gente morava no mocó do Casarão”.
Poderíamos pensar que um lapso de memória ou uma imprecisão de datas pode ocorrer a qualquer um de nós. Mas o que eu quero reforçar aqui é que a atemporalidade não é eventual nem extraordinária, mas, sim, característica permanente de quem vive nas ruas. É um fator primordial na sua inserção ou exclusão de outras redes de sociabilidade. Mais do que isto, é uma possibilidade ou uma intervenção na sua auto-organização que está ligada à projeção de outros possíveis futuros.
Em outro momento da conversa; ele relata que não quer arranjar mulher enquanto não deixar as drogas; diz que agora vai procurar o Pró-Jovem (foram feitas várias investidas para que ele fizesse um acompanhamento por lá só que ele acabava “largando fora” bem no início do tratamento. Lembro-me de várias vezes em que disse: “de que adianta eu ir lá (na terapia) conversá ... de que adianta eu não cheirá... aí eu chego lá no Casarão (mocó) e tá todo mundo cherando assim... meus amigos, né?... meus amigos cherando assim... tinha então que levá todo mundo prá lá.” 66
Este relato chama atenção para dois aspectos fundamentais: primeiro a força coercitiva do grupo, a necessidade de permanecer no grupo como único resquício de referência afetiva e, para isto, a necessidade de compartilhar. Segundo, a dica que ele dá para que toda e qualquer terapia que vise à redução do uso de droga precisa estar concatenada com o seu meio, e isto inclui o grupo de referência, pois é desta maneira que eles se organizam.
City ainda relata que estava usando crack com os amigos – os mesmos de vários anos - e conta como é o “barato” do crack:

“ A maconha é legal, mas dá muita fome. O crack tira a fome (e repete isto umas três vezes consecutivas)... o cara fuma uma pedra assim e não dá fome, não dá nada, não dá sede, não dá fome nenhuma. Um dia eu fumei uma pedra com os guri e fui tomá água assim (gesticula) e não conseguia engoli assim...Bah! o cara não consegue comê, nem bebê nada. E dá um barato assim... a gente vê tudo assim... longe... em câmera lenta assim... parece aqueles filme assim...”.


A conversa foi espontânea e ele usava seu corpo, enquanto caminhávamos pela rua, para mostrar como era a “viagem” do crack: em câmera lenta, com indecisão de gestos e exultante.
Corpo, gestualidade, sensação, prazer e não só doença, exploração sexual, tráfico e violência compõem essa tessitura que coloca a droga num patamar de rito cotidiano de exacerbação do tempo suspenso.
Encontro-o novamente no final desta pesquisa, e ele me diz que está com bolsa: “agora, só pro mês de abril”. Digo que estamos em janeiro, faz poucos dias que aconteceu a passagem do ano. Mais adiante da conversa, ele diz que tem uma encomenda de trabalho para o mês que vem. Pergunto, sem fazer muito alarde: “Prá que mês mesmo?” “Agora, prá abril “. Faço-me de sonsa: “...e que mês que eu disse que estamos mesmo?” Pensa muito seriamente, faz um esforço para não me decepcionar: “É... é... no final do ano... qué dizê na passada do ano... é... abril, né?” Olho prá ele com ar de descrédito e rimos muito, pois ele entende o recado. Tenho , por fim, um insight: “Tá bom, eu já vou. Que mês que é mesmo o teu aniversário?” Sem dúvida, ele responde: “Abril”. Mas tem uma ressalva: “Na certidão que o meu pai fez, né?!”67
Hoje ele mora na Vila Farrapos com uns amigos e trabalha com a produção de papel artesanal; tem 20 anos pela certidão que seu pai fez e teria 18 pelo registro do padrasto. Esta situação foi descoberta e regularizada em 1997, quando foi iniciada a composição de sua história de vida.


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