Universidade federal do rio grande do sul



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3.3 Drogas e rua
A droga aparece como “coisa mais importanti” ou que caracteriza o estar na rua não só para os guris e gurias. Os educadores de rua expressam constantemente sua indignação e impossibilidade de atuar com eles ou abordá-los quando estão “chapados”.
Não há um só relato, seja dos próprios meninos, seja dos educadores, da família ou da população circundante, em que a droga não apareça nos discursos e imponha sua presença como fator central.
Mas como eles vivem as drogas? O que a droga representa para os meninos-de-rua? Pode ser o espaço que preenche no corpo a fome e o frio do presente, mas estes fatores isolados não dizem tudo; há também a dor das lembranças do passado e da previsão do futuro.
A droga é, em si, uma suspensão do tempo. E como diz Van Gennep, o ritual se dá em um tempo, um espaço e em uma identidade suspensa, liminar. (Gennep, 1974). O uso/abuso de substâncias psicoativas pode ser entendido enquanto um ritual cotidiano de suspensão do tempo presente e das sensações físicas e psíquicas.
A continuidade do uso/abuso de drogas não proporciona o mesmo prazer que, por exemplo, no primeiro “pico”, nas primeiras “cheiradas”, mas continuam a usá-la, enquanto nada a tenha substituído. Quantas vezes, durante atividades extremamente prazerosas, eles dizem que “esqueceram de cheirar”, ou mesmo reconhecem que enquanto estavam trabalhando, jogando, brincando, não têm vontade de cheirar. Não se trata meramente de ocupá-los para que não usem drogas, mas de descobrir novas formas de prazer e de sentido para a vida.
Não há uma receita mágica para grupos ou indivíduos separados. As políticas de saúde que trabalham no princípio da redução de danos, ainda têm se mostrado as mais eficientes, seja trocando uma droga de maior impacto sobre o organismo por outra menos devassadora, seja aumentando gradualmente seus espaços e tempos em contato com algo mais prazeroso e, portanto, reduzindo o uso sistemático.
Mas, o que ocorre com freqüência é uma guerra de intolerância, uma guerra do ou...ou: “ou cheira ou vai à escola”; “ ou se pica ou participa das atividades,” e ,em geral, a droga sai ganhando a guerra.
Por mais difícil que pareça a um educador compreender (o que não significa aceitar) o uso de drogas - seja porque está preocupado com a saúde das crianças e jovens ou para reafirmar sua postura moral contra as drogas ou para conseguir ter mais sossego em seu trabalho - a questão que se coloca não é a de acabar com as drogas ou de fazer parar o uso de drogas, mas é a de saber até que ponto o uso de drogas está comprometendo suas relações humanas e se sobrepondo a elas. Isto é, até que ponto a convivência com as drogas está ganhando a batalha contra a convivência com os outros no sentido mais amplo.

Nos relatos de campo dos educadores de rua (datas diferentes, em 1997):


“...levaram um tempo para nos reconhecer, estavam muito cheirados”;

“Encontramos Fabrício completamente chapado. Levou algum tempo até ele nos reconhecer e conseguir articular uma palavra”.

“...falamos com eles da dificuldade que é para nós conversarmos quando estão cheirados: arrastam a língua demoram para responder, perguntar algo...”.

“Não dá prá trabalhar quando eles chegam cheirados. Não tem condições. Eles tão noutro mundo.”



“Leandro reclamou para o Léo porque ele mostrou a lata de Sulvicryl. Disse que não vai para o São Pedro (para desintoxicação), porque não quer largar os amigos. Avaliação: a questão da droga é um grande nó a desatar. Avaliamos que eles estão nos pedindo ajuda, mas estamos sem agilidade (nada) para oferecer”;

As atividades na rua nem sempre conseguiam afastá-los do ‘cheirinho’. Isto sempre causou grandes constrangimentos e cobranças aos educadores. Mas devemos esperar que eles parem de cheirar para abordá-los?

(1995)

Faz pouco tempo que estamos encontrando, em termos de políticas públicas, serviços que atuem diretamente com a questão do uso/abuso de substâncias psicoativas (a exemplo da Casa Harmonia, inaugurada em 2001, e do Ambulatório Pró-Jovem- municipalização de um serviço de saúde que atende não só moradores de rua).

Os outros serviços, não-governamentais e normalmente de cunho religioso, que se destinam a tratar dos usuários em situação de reclusão (fazendas65, internações hospitalares para desintoxicação, etc.) sempre se mostraram ineficientes a esta população. Cada vez mais se observa que, tratando os indivíduos isolados de seu contexto, não se obtêm os resultados esperados, pois o apelo à droga é tanto físico-biológico quanto psicossocial.


Os serviços de reclusão, na medida que os retiram de seu meio, criam um mundo fantástico: em geral dão abrigo, comida, trabalhos agrícolas e artesanais, orações, etc. Mas o tempo de permanência nestes locais não é eterno – e nem deveria ser o que faz com que, voltando à sua ‘rotina’ de circulação entre casa, rua e abrigos, ele encontre os mesmos cenários e os mesmos relacionamentos de antes e retorne ao uso/abuso de substâncias psicoativas. Estes serviços, isolados, podem garantir uma redução de danos temporária que é válida, mas não tem permanência. A história que City nos conta, mistura muitos elementos que compõem esta trajetória, mas a droga certamente é o de maior destaque.


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