Universidade federal do rio grande do sul


Tempo físico, tempo social e tempo



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3.1 Tempo físico, tempo social e tempo suspenso
Educadora, na praça:

“Então te encontro aqui amanhã, nesta mesma hora, tá?”

Menino: “Tá” - vai embora e retorna correndo:

“Amanhã é quando?”


Hoje, ontem, amanhã – assim representados, o presente, o passado e o futuro parecem dados objetivos, mas são apenas códigos de linguagem, símbolos que usamos para interagir em nossas relações humanas e organizar nossa trajetória. Mas estes símbolos necessitam de um sentido comum para comunicar algo a alguém. E ele só é compartilhado se estiver ligado a um significante que dê um sentido também comum.
O que significa o amanhã? A importância que ele tem na organização das minhas ações no dia de hoje? Como eu resgato as minhas experiências anteriores, a minha história para balizar os meus projetos futuros? Parecem questões de âmbito puramente individual, mas não são.
Na sociedade moderna ocidental, entende-se por sentido uma busca individual e, segundo Norbert Elias, a isto corresponde a um modo específico de experimentar a si mesmo como o homo clausus. Entretanto, diz que a essa compreensão do conceito de sentido é tão enganadora quanto a imagem do homem isolado que ela corresponde, pois:

... o conceito de sentido não pode ser compreendido por referência a um ser humano isolado ou a um universal derivado dele. O que chamamos de ‘sentido’ é constituído por pessoas em grupos mutuamente dependentes de uma forma ou de outra e que podem comunicar-se entre si. O ‘sentido’ é uma categoria social; o sujeito que lhe corresponde é uma pluralidade de pessoas interconectadas”(ELIAS, 2001;63).


As táticas de vivência temporal se constituem na rede de relações que estabeleço por onde eu circulo. Assim, o significante que tem (ou não) a palavra-símbolo amanhã para mim está revestido de um sentido compartilhado no grupo social a que me situo. Para o povo da rua, tanto o amanhã quanto o ontem são evitados.

Como diz Carmem Craidy:

... Nela (na rua) existem muros visíveis e invisíveis, interdições radicais, espaços delimitados, e – o que é mais grave - o tempo aí parece estar suspenso. Para os que vivem na rua, não há história, mas um repetir-se crônico e circular da vida sem projeto, eterno presente que implica a luta cotidiana pela sobrevivência. Permanecer vivo, ter algum prazer constituem o móvel fundamental do existir. O amanhã não existe, a não ser quando chegar na forma de hoje e trouxer suas exigências. O passado é melhor omitir; é duro e perigoso demais para ser lembrado. Esse eterno presente manifesta-se como suspensão de laços e perspectivas.” (1998;25)
Um menino de 11 anos, que se encontrava no início do processo de alfabetização na Escola Porto Alegre, não distinguia o dia da noite; para ele, quando o céu estava nublado, já era noite. Na rua, só tinha referências temporais pelos horários que recebia ou ia à caça de comida. Assim, o dia parecia estar sinalizado apenas pelo horário do meio-dia, da “bita”. 56
É importante ressaltar que tempo aqui é entendido enquanto um construto sócio-cultural, um código comum de uma determinada coletividade humana que não está nem aquém (uma estrutura a priori) nem além (um dado objetivo) das representações dos sujeitos, mas é, antes de tudo, um símbolo social compartilhado, resultado de um longo processo de aprendizagem (Elias: 1998).
Norbert Elias percorre a trajetória da constituição do tempo na sociedade humana, relata que “a princípio, a humanidade utilizava as seqüências constituídas pelos que chamamos de fenômenos naturais...”.
Continua ele:

Enquanto não sabiam utilizar outros quadros de referência que as seqüências de mudanças de ordem natural, para fixar começos e fins relativos, e desse modo, determinar intervalos de igual duração no interior de um continuum evolutivo constituído por eles mesmos, os homens desconheciam, por exemplo, a sua idade; a rigor não tinham que conhecê-la. Para determinar o começo de qualquer atividade social recorrente, não dispunham de nenhum padrão de medida comum, a não ser seus próprios impulsos imediatos.” (1998: 59).


Quando a escola foi iniciada e começamos a fazer o processo de investigação das histórias de vida, muitos dos “novos/as”, como eram chamados os recém-chegados na escola não sabiam dizer a sua data de nascimento. Mesmo para alguns que já eram adolescentes, a noção de “data de nascimento” não lhes dizia nada. Sendo assim, normalmente se recorria ao recurso de perguntar “Quando tu fazes aniversário?”, ao que a pergunta era então compreendida, porém a resposta em muitos dos casos era: “Hoje! Pode me dar o presente”.
Este “hoje” e “presente”, não é apenas um trocadilho que demonstra a malandragem57 de sempre querer levar vantagem da situação, do momento (talvez único), mas define também uma desconexão com o tempo passado, um desenraizamento de sua história pessoal enquanto código compartilhado de localização temporal de existência.
Outras respostas remetiam a uma proximidade com uma festividade do calendário anual. As respostas geralmente eram: “faço aniversário...(pensa um pouco) perto do Natal” ou “ ...perto do Carnaval” ou ainda com referência ao clima e às estações do ano, normalmente diziam “faço aniversário ... no inverno” que parece ser a estação do ano mais demarcada para eles aqui no sul, pois independente de termos um verão muito quente, que não se deixa passar desapercebido, o inverno é, sem dúvida, o período mais crítico e mais marcante para quem dorme na rua.
Apesar de sempre haver um interstício entre o início e o fim da resposta completa significar um “devo responder ou não”, é também uma busca de uma referência temporal que seja comum à sua interlocutora: o Natal, o Carnaval, o inverno, etc.
Para Elias, o tempo não é uma coisa em si, mas uma forma de relação complexa entre o tempo físico (maneira de determinar o tempo através da natureza) e o tempo social (com referência à organização das sociedades). Isto significa que o verbo mais adequado não seria “medir” o tempo, mas “temporar”, pois se trata de “uma operação de estabelecimento de relações” (1998: 39). Assim, tanto o tempo quanto o espaço só passam a ser concretizados e sentidos como ‘coisas’ a partir de um sistema de contrastes e de relacionamentos.
Podemos entender o tempo coercitivo/domesticador, mas também enquanto um código compartilhado/domesticado. Entretanto, a compreensão deste código compartilhado não está isolada do restante das outras práticas diárias.
Estamos tão habituados com a nossa configuração de tempo e espaço, que parecem universais. Não paramos para pensar que possa haver outras formas de percebê-los e de vivê-los e o quanto isto pode dificultar um diálogo, uma interação ao lidarmos com a cultura do povo da rua.
A sobrevivência nas ruas não está dissociada de uma sincronização com o tempo social hegemônico. Os guris/gurias estão sempre alertas, por exemplo, para quando é o final do mês e dia de pagamento do assalariados, mas , ao mesmo tempo, orienta individual e grupalmente as atividades das rotinas diárias de formas mais diversas. Não apenas pela sensação de liberdade: “eu acordo a hora que quero”; “batalho comida quando tenho fome”, mas pelo cercamento em um espaço-tempo delimitado pela urgência de manter-se vivo.

Como diz Elias:

Nas sociedades relativamente simples... a regulação e a estruturação do relógio fisiológico dependem muito mais diretamente, das possibilidades oferecidas ou negadas pela natureza externa – ou por outros homens eventualmente exploráveis – para atender as necessidades dos indivíduos.” (1998: 42)
Assim, nas sociedades nômades se vai à caça quando se tem fome, enquanto que, com a utilização da agricultura, o sedentário necessita de uma dominação/regulação maior para determinar o tempo.
Porém, se o ser humano se diferencia em várias culturas, ele é uno em sua biologia. Se também em nossas sociedades pós-industriais, os coletores/caçadores modernos de comida (Magni, 1990) precisam sincronizar-se com o tempo social dos outros.
Ainda entre as rotinas sócio-biológicas comuns aos seres humanos, há uma, entre outras, que aparece com freqüência como tema-problema em diversos contextos e que atua mais diretamente na construção de outra percepção temporal: o sono.


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