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2.6 A casa e a rua
Como um ponto em um holograma a rua é o microcosmos das transformações sociais. Se, na antigamente, a rua se opõe à casa, delimitando espaços e vivências, na modernidade a rua adquire uma nova identidade (Pesavento,1994). O lar como aquele que delimita a intimidade da família e a rua como o espaço do público, não estão mais tão fixos como em outros tempos. Cada vez mais estas lógicas se misturam. Pergunta Da Matta: “O que ocorre comigo quando saio da casa e vou para o mundo da rua e das relações impessoais que ali (na rua) estão implicadas?” (1990: 100)
A resposta para esta pergunta está na capacidade de relacionar estes dois sistemas (da rua e da casa), pois eles são sempre complementares e complexos.

É preciso aprofundar o estudo da relação entre “público” e “privado” para a análise da situação de vida na rua: a transformação do indivíduo anônimo em indivíduo visado.Como se dá a inversão destas lógicas, nesta mudança de perspectiva da rua enquanto espaço público que se torna locus das relações mais íntimas e da sobrevivência cotidiana?


O domínio da “casa” em oposição ao domínio da “rua” (Da Matta, idem) neste caso, contraria o que estaria estabelecido enquanto domínio privado e domínio público, enquanto relações de pertencimento e pessoalidade e de anonimato e individualização.
A rua é, em si, uma transição, uma liminaridade, o que é próprio do momento ritual (Da Matta, 1990). Ter uma representação identitária “de rua” é estar suspenso em um espaço-tempo liminar.
Viver de modo contínuo no lugar-rua é ter uma vida em constante movimento e mudança. Mas esta mudança sozinha não é transformação, como me telefona Mestre, 20 anos, só para dizer: “Sabe o que eu fiz hoje?” Nem espera resposta e continua: “Caminhei, caminhei, caminhei, caminhei... e voltei para o mesmo lugar. O que mais tinha pra fazê?!”
O caráter de destino, de fatalidade vai aparecer mais forte na relação com as drogas e com a morte, como veremos nos próximos capítulos. Maffesoli diz que “o próprio da mudança é ser essencialmente traumática e dolorosa” (2001: 73), e na constante mudança a circulação assume uma circularidade, isto é, como se o sujeito fosse preso (exilado) em um círculo fechado onde o movimento fosse se tornando cada vez mais intenso, mas que não o levasse a lugar algum. Este movimento se torna cada vez mais frenético a ponto de não ser possível mais pará-lo, pois ele já está “entranhado”, como eles dizem, já se corporificou. Mas isto não significa dizer que ele não pode ser rompido. Que a esta nova “ordem” de exclusão, não seja possível introduzir uma “desordem” e uma nova “organização” (Morin, 2000), que se dê a partir das descobertas e das aberturas de novos espaços de pertencimento, novas territorialidades (de espaços-tempo-relações).
Uma nova territorialidade passa por criar novas unidades de pertencimento, que podem ser: o grupo da escola, o grupo de futebol, o grupo de RAP, o grupo da produção de papel reciclado, etc. Quanto mais espaços diferenciados se abrem ao morador de rua, mais se amplia seu desejo de sair da rua. Este desejo vai se construindo aos poucos e pode ter uma mobilização interna forte até em momentos que nos parecem fúteis, como freqüentar cinema, ir a uma conferência com outros estudantes, etc.

2.6.1 “Às vez eu venho de casa, às vez eu venho do centro55

Como vimos neste capítulo, a circulação exacerbada dos meninos e meninas de rua não é um fluxo de “liberdade” tão somente, mas um impedimento de circular por outros espaços. Como diz René Char, citado por Maffesoli: “São limitados por falta de cerca” (2001).


Se um dos ritos de entrada na cultura da rua é a assunção da rua enquanto identificadora de si, podemos pensar que a saída da rua dar-se-ia tanto nas oportunidades externas quanto na mobilidade interna (que são complementares) de uma nova territorialidade tanto espaço-temporal quanto identitária.
Para Da Matta, a rua é buscada tanto pela necessidade de anonimato que a casa (o bairro) não oferece, quanto pela criação de uma individualidade, um reconhecimento.
Também para este autor, o tempo da casa, baseado no privado e nas relações pessoais, é um tempo cíclico. Enquanto que a rua, demarcada como o local do público e do individual, tem um tempo linear (Da Matta, 1990). Então vemos a seguir que se há uma dimensão pela qual os moradores de rua parecem não circular, esta é a do tempo.


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