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Centro e periferia – territórios distintos e complementares



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2.5 Centro e periferia – territórios distintos e complementares

Com a constante pressão da sociedade em geral por segurança pública e o incômodo (físico, psicológico, moral) causado pela população de rua, há uma tendência dos programas assistenciais no país de enxergarem o menino-de-rua apenas no centro da cidade. E a higienização do centro da cidade continua uma política pública pertinente nas grandes capitais, tanto por partidos de direita quanto pelos de esquerda (respaldadas as devidas justificativas políticas e sociais). Mas o que representa esta “limpeza humana” do centro da cidade?


Um exemplo ainda muito incipiente, porque recente na história, é da cidade de Belo Horizonte. Em visita recente a esta capital, conversei com educadores de entidades governamentais e não governamentais que atuam com a população de rua do centro e da periferia da cidade. No centro da cidade há uma visível redução do número de crianças perambulando e/ou dormindo na rua, assim como registram os dados do projeto “Miguilim” da prefeitura de lá. O que demonstra uma efetiva atuação dos serviços especializados, respaldados pelo empenho dos educadores. Em compensação, alguns educadores relataram-me que alguns dos jovens que estavam na rua e que voltaram para suas comunidades, não encontrando outra forma de sobreviver, engajaram-se totalmente no tráfico de drogas que cada vez se torna mais forte, inclusive com a presença do crack (trazida por jovens que fogem do Rio de Janeiro).
Outros relatos que me impressionaram foi quanto à incidência de suicídios (enforcando-se ou atirando-se das pontes) entre os meninos que, segundo os educadores, pareciam estar “resolvidos”, “integrados”, fora da rua. Com este relato, diz-me o Frei Mariano, da Associação Franciscana Irmão Sol: “Tirar o menino da rua é fácil. Difícil é tirar a rua do menino”. 52 Reitero com esta fala - que marcou todo o percurso desta pesquisa -, que retirar menino da rua, recolhê-lo, como querem alguns, não incide sobre nenhuma mudança profunda, apenas reforça o eterno retorno: rua-casa-institucionalização.
A cultura própria que se constitui nas ruas está transpassada pela cultura da casa e das instituições, assim como pelas outras que o menino transita. Ela é uma forma própria de viver, sentir e perceber o mundo que, com o tempo (como veremos no capítulo seguinte) de permanência cada vez maior na rua, vai se cristalizando de tal forma que não basta dar uma casa ao menino ou à sua família, é preciso que ele se transforme em um “menino de casa”. E isto envolve tanto fatores de oportunidades de novas socializações , quanto de mobilidade (Charlot,1997) 53 para tal.
O que representa estar no centro de Porto Alegre para o menino e a menina-de-rua?

Extraídos de meus diários e dos relatos de campo dos educadores, temos alguns registros que dão indícios do que representa o centro da cidade para os(as) meninos(as):

Régis dos Santos Rosa, 13 anos, disse que gostava de ficar no centro porque tem multidão e porque pode comer cachorro-quente”. (Registro de abordagem da ESR, Praça XV, 1998). Com o passar do tempo, o que é extraordinário para o menino de casa, como comer cachorro-quente, para o menino de rua acaba virando rotina.
Marcelo, 19 anos, conta que no centro é muito mais fácil de afanar e de se safar” (Diário de campo, Praça da Alfândega, 2001).
Sabrina, 17 anos, responde com uma pergunta: ‘E aonde mais que a gente vai se virar’ [fazer programa54]?” (Diário de campo, Pç XV, 2001).
O centro da capital é o lugar de maior concentração e circulação humana. Permite, ao mesmo tempo, um anonimato necessário à segurança de quem sobrevive de pequenos furtos e a exposição necessária a quem necessita viver da mendicância, do comércio informal e da exploração sexual. É o local por excelência da ambigüidade entre o anonimato e o reconhecimento/ pertencimento.


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