Universidade federal do rio grande do sul


A “casa” e a comunidade de origem



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2.3 A “casa” e a comunidade de origem

A exposição das

crianças dormindo

nas ruas é a

exposição da

miséria

da ‘casa’.

jan/2001

Os conflitos familiares: “Briguei com meu padrasto”, “Briguei com minha mãe”, “Briguei com meu irmão” aparecem como primeira resposta ao motivo pelo qual dormiram nas ruas pela primeira vez. Porém, há também o relato de “Tô pedido46 na vila”, por ter descumprido alguma norma de conduta vigente na comunidade, como por ter roubado dentro da vila ou ter roubado de alguém importante de lá ou por se juntar às gangues.


Também encontramos, tanto dormindo pela primeira vez no centro, quanto passando a noite nas ruas ao redor do seu bairro, jovens que saíram de lá, porque não cheiram loló e não querem ser aviãozinho47. Como Jair, de 13 anos, que estava trabalhando em um minimercado de uma grande avenida nas imediações de seu bairro. Segundo os comerciantes que o “ajudavam”, ele estava dormindo sob as marquises deste local há várias semanas. Saiu do Morro da Cruz porque estava “pedido” pelos outros guris que não aceitam que ele não faça parte de nenhum grupo de lá. Jair relata que tem nojo do cheirinho da loló e que saiu de lá para trabalhar honestamente, por isto faz biscates junto ao comércio da Av. Bento Gonçalves: carrega caixas, limpa calçadas, etc. Assim ganha comida, roupas e, às vezes, é levado para alguma casa para dormir uma noite, pois os comerciantes confirmam que ele passa os dias e as noites ali e nunca o viram usando drogas.
Outro menino de 11 anos, quando brigava em casa ou na comunidade, saía levando um cachorro para lhe proteger enquanto dormia na rua, pois disse não confiar em ninguém, nem na vila, nem no Centro.
Poucos meses mais tarde, o primeiro menino foi encontrado passando a noite em frente a um hipermercado no centro da cidade, cheirando loló. O segundo, com quem conversei no fim desta pesquisa, havia abandonado os cachorros e estava dormindo na Praça da Alfândega, junto ao grupo de guris que fazem “programa” lá.
Tenho relatos de crianças e jovens que saem de casa quando nasce um irmão de outro casamento, mas que as condições sócio-econômicas da família não são consideradas graves. Porém, na maioria dos casos, “o rearranjo familiar,o conflito entre gerações e a circulação de crianças” (Cláudia Fonseca, 1993) aparecem como principais causas de internação na FEBEM e/ou de saída para a rua. Diz Cláudia: “...a privação econômica é obviamente um fator-chave. Todavia sem um exame cuidadoso dos fatores sociais e culturais através dos quais ela é mediada, a miséria nada pode explicar”. (1995:17)
O reordenamento apenas da região do centro da cidade, com a retirada das crianças e jovens das ruas, tende a um represamento desta população nos bairros periféricos. A realidade dos bairros ainda é tremendamente desconhecida tanto na sua forma de “demandar” as crianças e jovens para o centro da cidade, quanto nos potenciais criativos submersos que cada bairro tem.
Conforme levantamento da origem das crianças e jovens que estão no centro da cidade, feito pelo “Serviço de Educação Social de Rua” da Prefeitura de Porto Alegre, são a microrregião 3 (Leste/Bom Jesus),4 (Partenon/Lomba) e 5 (Grande Cruzeiro) que aparecem nos primeiros lugares, veja gráfico abaixo:

Coordenando a implantação do serviço de “Educação Social de Rua Comunitária” da Associação de Apoio ao FMDCA48, pude constatar que há características comuns nas três regiões que aparecem como as primeiras no ranking de região de origem das crianças e jovens que estão vivendo nas ruas.


São regiões mais próximas ao centro, com uma extensa área de ocupação irregular. Apesar do calçamento e dos serviços de esgoto e água tratada terem crescido nos últimos anos, as áreas de lazer são praticamente inexistentes. Em ruas íngremes e calçadas estreitais ou em pátios que se confundem com a rua, há crianças que brincam de carrinho de lomba, de soltar pipa, de bola de gude ou simplesmente saem a catar latinhas e a pedir nas sinaleiras. Quanto aos jovens, aglomeram-se nos becos e, em geral, passam o dia sem ter o que fazer, exceto “se virar do jeito que der”.
São regiões de tráfico intenso de drogas, onde os territórios de clientes estão bem demarcados tanto pelos traficantes, quanto por alguns serviços que deveriam atender os seus habitantes. Há uma deficiência no número de creches e sócio-educativos, assim como um despreparo dos técnicos para atender a parcela mais miserável da população, em geral usuária de drogas e itinerante. Mas, há também uma disputa dos serviços pelos “usuários” e por territórios.
A rede de atendimento fica esfacelada, ainda mais quando se trata de dar continuidade ao trabalho com uma criança que está numa região diferente de seu núcleo familiar. Ou no caso do jovem que chegou aos dezoito anos sem ter “se integrado” a um atendimento de adultos ou saído da condição de vida nas ruas, ele passa a ser um caso mais “atendido” pela polícia do que pela assistência pública.

Os serviços que visam à assistência às famílias mais pobres, não têm incidência direta nas formas de sobrevivência destas. Tanto as famílias quanto os próprios agentes públicos sabem que um dia a bolsa-auxílio acaba e que, mesmo durante o período de recebimento desta, o valor recebido é muito inferior ao que é arrecadado através da mendicância, furto, exploração sexual e/ou tráfico de drogas.



Relata-me uma mãe de um menino que foi encontrado dormindo nos arredores do seu bairro:“Eu não quero saber de bolsa, a gente não precisa de bolsa. O Ezequiel já fugiu de casa quinhentas vezes. Ele não pára, não me obedece deste que se meteu com estes aí [os filhos da vizinha defronte]. São tudo marginal e ele vai virá marginal também. Eu trato ele bem; pode perguntar prás vizinhas e prá ele mesmo. Eu só bato quando tá demais. Ele mente que vai pro colégio e foge prá tomá banho na represa, que é perigoso. Mente prá mim, me diz um monte de desaforo. Eu não tenho o que fazer. Tenho os pequenos prá cuidar. Não posso tá deixando os pequenos com uma vizinha prá andá correndo atrás do Ezequiel. Eu não quero bolsa, dinheiro, rancho, nada disso ... Eu quero que internem ele. Internem na FEBEM 49, que lá ele vai aprender alguma coisa. Vai aprender a valorizar a mãe, a casa. E... mais... vai passar melhor que nóis aqui [baixa a cabeça e ri]. Se ficar aqui, ele vai se misturar com os outros maloqueiros e vai virá marginal. Só quero que vocês internem ele”.50


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