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2.2.2 A Praça da Alfândega

A Praça da Alfândega é famosa na cidade pelas mulheres adultas que trabalham lá há muitos anos, durante dias e noites. Entre os “jogos de damas”32 e os balanços da Praça, esta área de prostituição e de exploração sexual vem caracterizando-se pela mudança ou ampliação de público: de feminino adulto para crianças e adolescentes, em maior número do sexo masculino.


Não posso afirmar com segurança que a prática de pedofilia vem crescendo assustadoramente nos últimos anos. Porém, desde 1997, tenho relatos constantes de crianças (inclusive com oito anos de idade) e jovens que procuram este local ou são levados, às vezes, pelos próprios irmãos, para realizarem “favores sexuais”. Neste mesmo ano, fiz uma denúncia na Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa a partir dos relatos de várias crianças (entre 8 e 12 anos) de estarem fazendo “boquete (sexo oral) a 1 real com camisinha, mas sem caminha é mais caro: 2 reais”. Utilizam-se dos motéis próximos à praça ou “fazem programa” nos banheiros públicos e embaixo das árvores do local. Tudo depende do valor pago ou do interesse do explorador.
Quem fica na Alfândega, não chega a formar um grupo de pertencimento único, pois este espaço é considerado pejorativo,33 mais como local de “trabalho” como de pernoite.

A Praça da Alfândega cada vez mais se afirma enquanto território de prostituição e exploração sexual misto. Porém, só para as mulheres mais antigas do local. Enquanto que os guris de todas as idades apenas “ficam por lá” para conseguir algum troco quando precisam, mas não assumem enquanto uma “profissão”. “Ele tá



dando o cú” é uma das “denúncias” mais freqüentes na hora das brigas que, geralmente, acabam em pancadaria.
Os guris mais antigos na praça já têm clientes fixos e parecem não se importar mais com o rótulo da homossexualidade: “o amor é cego”, disse-me Reinaldo (23 anos), contando como descobriu que o que importa é que gostem da gente. Considera que um de seus clientes é apaixonado por ele, diz-me que vai levá-lo para Nova Iorque, pois é um advogado muito importante e viaja muito, por isto ainda não está morando definitivamente com ele. “Ele me dá um monte de presentes, tudo o que eu quero: roupa, comida, cigarro caro e agora vai me comprar uma moto.”
As crianças e adolescentes explorados sexualmente costumam dormir em diversos locais. Alguns se agrupam sob as marquises das ruas ao redor, outros voltam para sua casa ou para a casa de algum amigo (a), incluindo a de “gigolôs” e “mãezonas” 34. Por vezes, passam a noite em claro e dormem nos bancos da praça, do amanhecer até o meio da tarde, quando reinicia o movimento de “clientes”.
São usuários sistemáticos de loló e cocaína inalada. As maiores demandas trazidas pelos jovens freqüentadores da Praça aos serviços de atendimento são para tratamento de saúde, em especial para doenças sexualmente transmissíveis.
Observei que, neste caso, os jovens que estão na faixa dos 18 anos já têm uma escolaridade (acima da 5ª série) mais elevada que a de outros grupos que conheci. Demandam por continuar a sua escolarização, mas não querem se juntar aos “velhos e velhas” que são maioria nos serviços de suplência de escolarização oferecidos pelo município. Dizem também que são discriminados pelos professores e pelos “boizinhos” – jovens estudantes dos supletivos gratuitos, que são pobres trabalhadores, mas andam “cheirosinhos e de tênis de marca”.
Continua havendo população indígena mendigando neste local, porém, desde 1998, está mais dispersa pelo centro da cidade, inclusive porque as políticas públicas não se entendem quanto a quem deve ocupar-se da questão indígena e como faze-lo.
A Praça da Alfândega fica defronte ao Shopping mais central de Porto Alegre é lugar de ver televisão na vitrine, dançar com as músicas da loja de discos e pedir para andar de escada rolante no shopping com alguém ou mendigar. Tudo, é claro, do lado de fora.



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