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2.2 A rua

Eles não apenas estão fora, na rua: estão proibidos de entrar.” “A rua não se constitui para o menino como espaço alternativo, mas sim como espaço possível. Não é lugar de liberdade (ainda que por muitos seja visto como tal), mas lugar de confinamento”

Craidy,1993.


O que é a rua? Espaço público. Espaço de ir e vir. Como na carta de Atenas: lugar de circulação, lazer, trabalho e cultura.
Questionar sobre o óbvio parece não ter sentido. Acontece que quando o familiar e o grotesco andam lado a lado, devemos nos permitir um estranhamento do que está entendido como o “normal”. A investigação de uma cultura de rua é mobilizada, acima de tudo, pela busca de uma política de desvelamento desta realidade. Tentativa de trazer aos olhos e ao coração um mundo que fica escondido entre o desdém político e a vergonha social.
Desde o advento das cidades, a rua surge enquanto o espaço público por excelência. Na fase anterior à revolução industrial, as crianças ocupavam naturalmente o cenário da rua. Cenário este que era palco de encontros, de jogos, de brincadeiras e das mais variadas formas de reunirem-se pessoas (Farge, 1979). Nesta época, não estava tão claro uma definição entre o espaço público e o privado.

Com o crescimento das indústrias e o processo acelerado de urbanização, as cidades recebem um número cada vez maior de populações pobres, o que constitui uma periferia urbana miserável. Sua população é considerada como uma ameaça. Ameaça diferente daquela, em tempos mais antigos, onde os miseráveis diluíam-se pelos campos, sendo enforcados por vadiagem aqueles que se encontrassem há algumas milhas de suas residências (Hill, 1987; Castel, 1998; Geremeck,1995; Delumeau,1989). A insegurança das ruas citadinas era o medo da rua enquanto espaço de reunião das populações, do impedimento da circulação tranqüila das classes abastadas, sem deparar-se com a contradição da miséria. A rua precisava ser higienizada, ser limpa dos “bandos de desvalidos que a infectavam”. Patrulhada pelo aparato repressor do Estado, tornou-se um espaço vigiado.


Para as crianças pobres, a casa na cidade era pequena demais, usada apenas para comer e dormir. Era a rua seu espaço de bem viver. Para as crianças das famílias ricas, a rua tornava-se um perigo a ser evitado. Com os espaços de lazer cada vez mais mercantilizados e o trabalho na rua considerado genericamente como informal ou ilegal, às classes populares restava a repressão. A rua adquiria, assim, a função única de circulação.
Como nos conta a arquiteta Mayumi Lima, que estudou as formas de estar das crianças na cidade e a sua produção do espaço: “As crianças passam a ser confinadas nas casas, nas creches, nos asilos ou nas fábricas, dependendo da classe social a que pertencem”.( 1989: 45).

Como vemos ainda hoje em muitas vilas de Porto Alegre, por exemplo, não há limites claros entre o fechado e privado da casa para o espaço público e coletivo das ruas. Retirando os espaços comercializados de lazer, esportes e diversão, os quais são inacessíveis à maioria das crianças e adolescentes resta, pois, os espaços público-privados das moradias, das escolas e das ruas.30


O que redefine a rua enquanto espaço de onde as crianças devam ser “retiradas” é a violência. Tanto a violência sofrida quanto a exercida, pois estas são circulares. Estar na rua não significa por si só, estar “abandonado”. O estado de destituição dos direitos básicos (crianças dormindo pelas ruas, roubando e/ou revirando lixo para viver, vendendo seus corpos por um pouco de comida e proteção, injetando-se com seringas contaminadas pela água do esgoto e pelo vírus HIV) é quem define o abandono social.
Este abandono só é “visto” quando as crianças e jovens perambulam pelo centro da cidade atrás da sua sobrevivência, Mas, cada vez mais, fica claro que sua trajetória começou bem antes de estarem expostos aos olhares de quem quiser vê-los dormindo nas ruas centrais. Nem tudo que se passa na rua está exposto aos olhos do público. Na necessidade de agregar-se, de delimitar um território próprio e de proteger-se o menino já inicializado como “de rua”, esconde-se em “mocós”.



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