Universidade federal do rio grande do sul


Os degenerados – os não homens



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Os degenerados – os não homens26

De quem és homem?

Sou um servidor,

porém não tenho senhor, cavalheiro.”

Como pode existir isto?”



Middleton27
Robert Castel, em sua obra As Metamorfoses da Questão Social, analisa a “sociedade salarial” para, entre outros temas, debater sobre a categoria “inempregáveis” ou “excluídos”. Numa perspectiva de “mobilizar a memória para tentar compreender o presente” (1997:21), resgata a construção da questão salarial nos primórdios da sociedade capitalista.
A condição de assalariamento que hoje ocupa a grande maioria dos ativos e que está vinculada a maior parte das proteções sociais do Estado28, foi, durante muito tempo, uma das situações mais incertas e também uma das mais indignas e “miseráveis”. Neste período, ser assalariado era instalar-se na dependência: “Alguém era um assalariado quando não era nada e não tinha nada para trocar exceto a força de seus braços (artesão arruinado, agricultor sem terra, aprendiz que não chegava a mestre)” (Castel, 1997:21). Porém, a liberdade comportava um lado sombrio – a individualidade negativa, personificada pelo vagabundo ou pelo inválido, por aqueles que, sem senhor, não tinham apoio ou vínculo, privados de toda proteção ou reconhecimento (idem).
Havia um modelo, na sociedade feudal, que pressupunha uma sociedade hierárquica e estática, que residia no elo de lealdade e dependência entre um homem e seu senhor, porém este modelo não correspondia exatamente à realidade, como nos informa Cristopher Hill:
... não eram mais foragidos da lei os homens sem senhor, porém existiam em número alarmante e (...) qualquer que fosse o seu número, o fato é que tais homens – servidores de ninguém – constituíam anomalias, um elemento potencial de dissolução da sociedade.” (1987:55).
Carmem Craidy questiona: se poderíamos considerar os nossos moradores de rua como pré-modernos por não aceitarem instalar-se na indigna condição de assalariado ou, como pós-modernos, agonizando entre o desejo do simbolismo do trabalho que os “inclui” e a realidade do desemprego que os taxa de supérfluos.
Para Castel, os desfiliados da Idade Média são os “ancestrais dos supranuméricos de hoje, não por uma identidade de condição, é claro, mas por uma homologia de posição” (idem, p.96).
O pessimismo trazido pelas modernas (e pós-modernas) teorias sobre os “excluídos”, os “supranuméricos”, os “incapazes”, os “supérfluos”, os “vagabundos” é a naturalização destes conceitos que cria uma identidade de “inempregáveis”. Para os sujeitos que vivem numa sociedade de matriz salarial é denominá-los de inúteis a este mundo, portanto passíveis de extermínio. Aí, então, entendemos a célebre frase de um dos diretores do Clube dos Lojistas de São Paulo para a imprensa: “quando se mata um pivetinho, se está fazendo um bem a toda sociedade”. Frase esta que ouvimos todos os dias, ditas de diversas maneiras ou até não ditas, mas visíveis nos olhares à população pobre e, em especial,aos favelados, aos vileiros e aos guris e gurias de rua.


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