Uma aula inesquecível de Ciências: o que dizem os alunos



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Uma aula inesquecível de Ciências:

o que dizem os alunos

Edna Scola Klein

(professora aposentada)

EMEF Padre Francisco Silva

Resumo: Este texto tem como objetivo socializar relatos feitos pelos alunos de 8ª série e pela professora de Ciências da EMEF Padre Francisco Silva, Campinas - SP, em 2007. Como trabalho de final de ano, foi pedido que os educandos elaborassem seus memoriais relembrando fatos marcantes, pessoas significativas e outros aspectos de sua vida escolar. Um dos textos sugeridos foi que escrevessem sobre “Uma aula inesquecível de Ciências”, tendo como objetivo analisar o que foi aprendido nesta disciplina. Os conteúdos científicos e cognitivos apareceram de forma diluída, tendo sido mais referenciados os sentimentos dos alunos nos momentos das aulas. Eles também fizeram citações de estratégias de aula, recordando momentos de participação, apresentando trabalhos, seminários, enfim, se colocando em outro lugar na sala, aceitando os desafios de também ensinar. Através da recuperação das memórias e recordações todos nós (alunos e professora) tivemos a possibilidade de refletir sobre as nossas histórias.

A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca...

A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo,

quase nada nos acontece.

Larrosa, 2002, p.21

Trabalhei por 15 anos na EMEF Padre Francisco Silva, em Campinas, como professora de Ciências no Ensino Fundamental II. Em 2007 me preparava para a aposentadoria. Por anos fui a única professora efetiva da disciplina nesta escola e isso me possibilitou ver os alunos crescerem. Esta situação me lançou algumas questões:


  • O que meus alunos aprenderam do conteúdo trabalhado?

  • Como posso avaliar os últimos quatro anos com estes alunos?

  • Como eles se apropriaram de conhecimentos?

  • Como me despedir deles?

Tínhamos na escola um trabalho de final de ano com estes alunos de 8ª série onde eles elaboravam seus memoriais, como uma forma de despedida, relembrando fatos marcantes, pessoas significativas e outros aspectos de sua vida escolar. Ai surgiu a idéia de um texto sobre “Uma aula inesquecível de ciências” (a professora Maria, de Português, foi a idealizadora).

Nas aulas de Ciências eu utilizava algumas estratégias que tentavam mobilizar a curiosidade e o interesse dos alunos, desenvolvendo atividades de observação e pesquisa com materiais do conteúdo (botânica, zoologia, corpo humano, química e física). Fazíamos experimentos que os alunos acompanhavam e depois relatavam por escrito ou em apresentações na sala de aula. Os educandos também tinham que preparar seminários sobre alguns temas e apresentá-los aos colegas. Eu acredito que aprender observando e procurando o material a ser estudado traz outras referências aos alunos.

Se a educação é pensada como algo que nos transforma, experimentar traz um pouco do pesquisador inato em cada um de nós. Aquele das nossas primeiras experiências da infância. Acredito que isto possa aumentar o prazer do aluno em estudar.

No texto abaixo a aluna se recorda de uma aula de cada série, mostrando estratégias, sua participação, as emoções, as sensações:


Bom, as aulas da Edna são sempre dinâmicas. Na 5ª série me lembro da aula em que ela levou um cartaz bem grande falando do ciclo d’água e separou a sala em duas turmas uma era H2 e a outra O. Aí nós nos misturamos pra formar água em forma sólida, gasosa e líquida.


Também me lembro de uma aula na 6ª série falando de animais e vegetais onde ela levou nomes de animais e vegetais e uma lã onde formamos uma teia que seria a cadeia alimentar onde eu e a Jayne éramos o sol, principal fonte de energia. E na 7ª, a aula que ela mostrou um vídeo sobre parto normal, coração e outros falando do corpo humano.

Ah, e da aula na 6ª onde colocamos uma folha de fortuna num copo com água e ela se “reprocriou”. E finalmente uma aula muito gostosa na 8ª série onde algumas alunas fizeram um relaxamento com direito a massagem e tudo, até óleo passaram em nós! Foi ótimo, como todas as aulas da Edna”.

B.X.


Se a experiência não é o que acontece, mas o que nos acontece, duas pessoas, ainda que enfrentem o mesmo acontecimento, não fazem a mesma experiência. O acontecimento é comum, mas a experiência é para cada qual sua, singular e de alguma maneira impossível de ser repetida.“ Larrosa (2002, p 27)

Outras duas alunas escrevem sobre o tema da sexta série:


“Uma aula inesquecível pra mim foi na 6ª série, quando a gente apresentou os animais e insetos na aula de Ciências. A gente tinha que falar onde eles vivem, o que eles comem, como eles se reproduzem e etc. Eu fiz com a Bia Xavier sobre a minhoca, e eu até lembro que antes de apresentar, uns dias antes eu tive que cuidar das minhocas na minha casa e dar comida para elas e observar como elas viviam.


E pra mim foi um dos trabalhos mais divertidos que eu já apresentei!”

R.




“Uma aula inesquecível que tive de ciências foi na 6ª série, quando estudamos os animais e as plantas. O dia da apresentação do trabalho sobre animais foi muito legal. Nós trouxemos nossos bichinhos de estimação como exemplo dos animais que pesquisamos. Trouxeram pássaros, hamister (meu grupo), minhocas, falaram sobre caracóis, aranhas e outros animais.

Foi muito legal esse dia!

Eu gostei muito, foi realmente inesquecível”. B.G.



As alunas se recordaram de momentos de participação, apresentando seu trabalho, se colocando em outro lugar na sala, aceitando os desafios de também ensinar. Trocar os papéis, pesquisar e ter respeito pelo que o outro tem a apresentar foram apontados como importantes.

As aulas de química, na oitava série também foram citadas:

“Já tive muitas aulas inesquecíveis de Ciências, mas a que foi e ficou engraçada foi quando a professora Edna fez vários experimentos para ver o que era base e o que era ácido. Foi muito interessante, pois formamos grupos, recebemos potinhos com um pouco de líquido de repolho roxo (fedia muito), mas mesmo assim misturamos vários elementos químicos, ele ficou vermelho, azul, etc. O mais engraçado foi que quando a professora saiu da sala, os alunos ficaram falando e comentando que tinha sido a Edna que havia “deixado” o cheiro ruim (de pum) na sala. No dia seguinte quando ela entrou na sala para dar aula, já chegou “revoltada” com os boatos, mas depois demos muitas risadas.” N.




Uma ótima aula de ciências foi quando a gente fez o trabalho de reações químicas, foi muito legal. Fizemos várias experiências que foram muito interessantes. A reação química que eu mais gostei foi o ácido clorídrico mais metais. Foi ótima, porque o ácido clorídrico começou a “roer” os metais. Essa aula que mais me marcou. Nesse dia ela também deixou a sala fedida, pois tinha feito experiência com repolho. A sala ficou fedida parecendo que alguém tivesse soltado gases. K.



As alunas citam o conteúdo científico trabalhado nas aulas, e aprenderam os conceitos. A primeira aluna descreve sobre o indicador natural de ácidos e bases (antocianina, presente no repolho roxo). A segunda aluna cita o efeito do ácido clorídrico nos metais. Mas junto ficou a lembrança do odor e do cômico da aula. A alegria e brincadeira fazem parte da aprendizagem. Não foi planejado o efeito do cheiro, mas no final serviu para a memória das alunas. Na sala dos professores, a professora que entrou depois de mim comentou que os alunos riram muito com a minha saída. Enfim, para mim também foi muito divertido.

Larrosa analisa a origem da palavra experiência e destaco aqui a associação ao radical periri (do latim) perigo, peirates (palavra grega) que significa pirata. Tanto nas línguas germânicas como nas latinas, a palavra experiência contém inseparavelmente a dimensão de travessia e perigo.

O sujeito da experiência tem algo desse ser fascinante (pirata) que se expõe atravessando um espaço indeterminado e perigoso, ponde-se nele à prova e buscando nele sua oportunidade, sua ocasião”[...] “Somente o sujeito da experiência está, portanto, aberto à sua própria transformação” (Larrosa, 2002 p.25-26).

“Lembro-me quando estava na 5ª série e que o meu grupo e os outros tinham que apresentar um trabalho, uma experiência.

O meu grupo Fez um vulcão que com vinagre e fermento borbulhava, e entrava “em erupção”. Foi quando eu apresentei este trabalho e logo em seguida, como sempre, a “Dona’ perguntou o que ocorreu para o “vulcão” entrar em erupção. Nossa! Lembro-me até hoje, fiquei apavorado, suando... e não me lembrei o que aconteceu e como sempre com o meu ”enroletion” consegui terminas a apresentação e me dei bem! UFA! B.


O aluno descreve a experiência de ser questionado e como a emoção e sentimentos foram fortes. Ele conseguiu apresentar seu trabalho e de certa forma ele se realizou por conseguir sair da situação. Como ele estava na 5ª série não era o conteúdo de química que eu questionei, mas sim a formação de Dióxido de Carbono, que ele explicou como um borbulhar.

o ensino direto de conceitos é impossível e infrutífero. Um professor que tenta fazer isso geralmente não obtém qualquer resultado, exceto o verbalismo vazio, uma repetição de palavras pela criança, semelhante ao papagaio, que simula um conhecimento dos conceitos correspondentes, mas que na realidade oculta um vácuo.” Vigotski (1989, apud Tonácio, p. 108, 2007).

No relato abaixo o aluno tem recordação das aulas de Orientação Sexual (O.S.) que eram realizadas fora do horário de aula, e se coloca como um debatedor:

“Sei lá qual das aulas foi inesquecível, pois até as que não participava eu gostava, pois eu tumultuava, mesmo a dona brigando comigo, eu continuava, mas as mais legais foram as de O.S. (aulas de Orientação Sexual que ocorriam fora do horário de aula), pois eu gostava desse assunto e sabia debater sobre eles, muito legal. Os experimentos, como aquele de plantar feijão no copo com papel, muito “loco” mesmo, eu adorava, velhos tempos inesquecíveis.” C.E.



Para Vigotski (1982) a aprendizagem, desenvolvimento e linguagem são indissociáveis. Por meio da linguagem e de suas diversas formas de comunicação verbais e extraverbais (olhares, gestos e movimentos), os sujeitos interagem uns com os outros e com o mundo que os rodeia. Todavia, por intermédio desses diferentes momentos interacionais, além da possibilidade de comunicação, algo mais é produzido: o pensamento.” Vigotski (1982, apud Tonácio, p. 105, 2007).



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