Um pouco de história: o despertar para a questão



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Mirella: O que seria uma coisa “totalmente internet”?

Jaqueline: Copiar e colar.

Mirella: Copiar e colar!? (...) Mas e se vocês pegassem o livro e copiassem? Ia ser “totalmente internet”?

Jaqueline: Não! Mas ela [“L.”] fala que quando a gente lê o livro, a gente consegue tirar outras conclusões do que você lendo na internet. É como se a internet tivesse uma idéia montada. Tipo: é isso, então você fica achando que é isso. Agora livro não: vai lendo, você vai pensando em outras coisas, lembrando outras coisas.

Norma: Porque no livro, você está lendo, aí você acha uma parte importante, você vai, marca, escreve, aí você já vai escrevendo com as suas palavras. Eu acho que é isso que ela pensa, né!?

Jaqueline: É!

Norma: Você vai escrevendo com as suas palavras já. Aí depois dali você monta o seu texto, a partir do que você tirou do livro. Na internet não, você vai...

Carla: Já está tudo resumido para você.

Norma: Você já vê aquilo pronto, aí dá uma vontade de dar “ctrl c / ctrl v”, sabe? (...) Eu acho assim, você tem que usar várias fontes, tanto livro, quanto internet e fazer comparação entre o livro e a internet.

(Fragmento das discussões do Grupo Focal Reflexivo realizada no dia 05 de junho de 2007 – Grupo 02).

O receio é tamanho, que parece que o professor precisa andar pelo aluno, guiá-lo a cada link clicado, através do qual é possível encontrar diferentes informações sobre os mais diversos assuntos. Escolha, seleção e criticidade são indispensáveis, mas no lugar de trabalhar a autonomia, parece ter que fazer por ele, para evitar o acesso a sites julgados como não confiáveis. Há ainda, a falsa idéia de que com o livro lemos melhor, refletimos mais, opinião que é fruto da repetição da fala de uma das professoras do curso de Pedagogia da UFJF. O “control c + control v” é problematizado, como se fosse intensificado com a chegada da internet. É uma tentação para as próprias alunas, mas precisa ser reavaliado. Ao contrário da cópia em uma única enciclopédia, tida como verdade única e inquestionável, temos agora o acesso a diversos sites, a seleção de pontos chaves e a construção de um novo texto, que toma forma através da tela do computador, pelo entrelaçamento de partes selecionadas-copiadas-coladas. Segundo Barreto (2002, p. 77), “é uma ressignificação da autoria nesses tempos de seleciona-copia-move-recorta-cola”.

É necessário, ainda, perder a idéia de que na internet existem informações que não são verdadeiras e nos livros ou revistas informações confiáveis. O senso crítico, a necessidade de filtrar, de comparar, vale tanto para internet quanto para o livro, mas não é o professor quem deve fazer pelo aluno.

O texto impresso e o hipertexto digital devem ser explorados dentro da sala de aula, convivendo de maneira pacífica e harmoniosa. Um não exclui o outro, um não é mais importante nem mais verdadeiro que o outro. Quando ambos forem utilizados na escola, terá início um processo em que aquele que ensina e aquele que aprende produzem sentidos, cada qual construindo o percurso de sua aprendizagem (SILVA, M. 2002).

Além disso, existe a preocupação de que a criança, a partir do contato com o outro pelo computador/internet, perca o interesse pelo contato face-a-face:

Gilberto: o problema não é o computador, é a relação que a gente estabelece. Ele fica em frente à tela. O pai não cria nenhum mecanismo para ele socializar. Ele vai viver num grupo de crianças, vai fazer brincadeiras, o que é extremamente importante, não consegue, não sabe, tem dificuldades acima do esperado porque ele só sabe ficar no computador, bater nas teclas...

Carla: Hoje acontece muito disso, não tem capacidade nem de conversar.

(...)

Gilberto: A gente fica viciado em máquina. E eu acho isso um problema. Os meus avós viveram muito bem sem celular. Eu vou morrer por causa disso? É útil, sem dúvida, mas... Eu acho que é a relação: quem é mesmo dono de quem? Porque senão...

(Fragmento das discussões do Grupo Focal Reflexivo realizada no dia 01 de junho de 2007 – Grupo 01).
Norma: Eu acho que hoje, a parte ruim da internet é que os jovens estão muito em frente à internet. Ficam o dia inteiro e têm aquelas salas de bate-papo... MSN e tal. Conversa com o outro como se fosse um amigo de longa data. Aí para conversar cara-a-cara, tem timidez.

(Fragmento das discussões do Grupo Focal Reflexivo realizada no dia 05 de junho de 2007 – Grupo 02).

A idéia é que a criança ou o adolescente se fecharia no mundo do computador/internet, suprindo através deste instrumento todas as suas “necessidades interativas” e, portanto, não mais precisaria de um encontro físico para socializar-se. Fora da internet ele seria uma outra pessoa, tímida e com dificuldades de comunicação. Utilizar o computador/internet, diante disso, seria sinônimo de solidão, exilamento, falta de emotividade e solidariedade, incapacidade de trabalhar em equipe. Seus usuários constantes poderiam entrar em um processo de desumanização, idéia ligada a uma visão de que as relações estabelecidas por meio da internet não são reais. Portanto, aqueles que destinassem muito de seu tempo a esse ambiente estariam imersos em um mundo imaginário e ilusório.

Tal argumentação vai contra um uso do computador/internet que preze a liberdade, a pluralidade, o trabalho coletivo e a cooperação (SALVAT, 2000). Ele minimiza distâncias, possibilita uma maior interação entre diferentes culturas, até então desconhecidas. As tecnologias não são um inimigo que deve ser combatido, mas uma presença a ser pensada.

Com outra visão a respeito desse assunto, Lèvy (1996) ajuda-nos a compreender melhor o sentido de real e virtual. Ao contrário do que muitos pensam, um não se opõe ao outro, embora ambos se diferenciem. O que acontece na internet são interações de natureza simbólica, mas que representam ações humanas, assim como as interações presenciais. Desta forma, as interações são virtuais, mas também reais.

A interação via internet, tão praticada pelos jovens atualmente, instaura uma nova forma de estar e se comunicar com o outro. De acordo com Freitas (2005), este é um encontro virtual mediado pela linguagem, que geralmente é expressa por meio da leitura/escrita em tela. Hoje novas formas para essa comunicação surgem, possibilitando que também se ouça e veja o outro através dos microfones/fones e da Webcam.

Por sua vez, a solidão temida devido à utilização do computador/internet não é inerente à máquina, mas ao processo de constituição social do qual fazemos parte na sociedade contemporânea, que nos torna cada vez mais individuais. A reflexão que deve ser realizada, portanto, são as dimensões que as TIC abarcam, sejam elas positivas ou negativas, que na realidade são fruto do modelo econômico-político-social vigente em nossa sociedade. Como aponta Arruda (2004, p. 27), descolar as tecnologias desse contexto, atribuindo apenas à elas os frutos de nossa sociedade significa não valorizar “um processo histórico de desenvolvimento das forças produtivas sob a ótica mercantil, permeada por relações de poder e conflito.

Todavia, a medida que tais receios sobre o computador/internet iam sendo expostos e discutidos nas sessões de Grupo Focal Reflexivo, pareciam minimizar-se. Assim, uma nova relação com este instrumento parecia surgir no decorrer da pesquisa.


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