Um pouco de história: o despertar para a questão



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(Fragmento das discussões do Grupo Focal Reflexivo realizada no dia 06 de junho de 2007 – Grupo 01).

Desta maneira seria possível romper com a estrutura rígida da sala de aula. O professor poderia separar os alunos por grupos de interesse, visando discutir assuntos que surgissem durante as aulas. Poderia trabalhar com o texto contemporâneo, caracterizado por Lèvy (1996, p. 39) como aquele que alimenta “correspondências on line e conferências eletrônicas, correndo em redes, fluido, desterritorializado, mergulhado no meio oceânico do ciberespaço”. Um texto dinâmico, que se (re)constitui a partir das diversas intervenções efetivadas, que não exigem um horário pré-determinado, um encontro marcado, nem uma presença física para ser elaborado. Contudo, não há dentro ou fora do curso de Pedagogia, o incentivo ao pensar e à reflexão. As opiniões dos alunos, muitas vezes, acabam sendo uma continuação do que lhes é transmitido pelos professores. Não há troca, diálogo, instauração de polêmica, nem participação de todos. Assim, como bem afirma Coêlho (2006, p. 56), reduz-se o pensamento à “geração, armazenamento e processamento de informações, como se a mente fosse um chip de computador e pensar fosse fazê-lo funcionar”.

Conhecer, como salientam Pimenta; Anastasiou (2005, p. 102), não significa apenas informar-se. E da mesma forma, não basta ter contato com os meios de comunicação para torna-se uma pessoa bem informada. De acordo com estas autoras, “é preciso operar com as informações para, com base nelas, chegar ao conhecimento”. Os professores, neste sentido, devem assumir o papel de mediadores entre a sociedade da informação e os alunos para que, por meio da reflexão, os discentes possam construir o conhecimento.

Os professores até mencionam a importância do computador/internet, indicam links, eventos e enviam trabalhos por e-mail, mas não aprofundam essa utilização. Criam listas de discussão, mas que não servem para uma efetiva troca de informações e opiniões, para uma possível construção de um conhecimento compartilhado, coletivo. Não existe um real incentivo à discussão:


Daniele: Isso aí que ela fez com a gente [uma lista de discussão], mas nunca funcionou no sentido que deveria funcionar. Era mais para enviar trabalho.

(...)

Gilberto: Por que não acontecia?

Daniele: Não sei! Assim, quem ficava mais responsável por isso era a “F.”, porque ela tava orientando a “F.”, mas depois nem isso. A gente fazia alguma pergunta para quando que tinha ficado o trabalho... aí acessava lá achando que ela já tinha respondido, dois dias depois ela ainda não tinha respondido. Parece que ela ficava sem acesso ao computador. Ficou meio perdido esse espaço.

(...)

Gilberto: Aí eu penso que deveria fazer a discussão ali mesmo, o professor orientador participando... e as vezes a participação pode ser só para jogar fogo na discussão mesmo. Nem dar opinião: “não, mas pensa por outro lado...” Criar as pontes... ele está dando aula, mas na lista fala isso, isso e aquilo outro. Vai até criando as pontes... para não ficar: “agora é a aula, agora é a lista de discussão”, como se você pudesse fragmentar o pensamento da pessoa.

(Fragmento das discussões do Grupo Focal Reflexivo realizada no dia 06 de junho de 2007 – Grupo 01).

O e-mail, neste sentido, transforma-se em uma maneira de enviar recados ou deixar informações. Através desse recurso é possível comunicar-se com pessoas situadas nas mais diversas localidades; trabalhar com pessoas de diferentes cidades ou países; entrar em contato com autores que despertem nosso interesse, etc. Para o curso de Pedagogia, entretanto, o maior sentido do e-mail, que é a comunicação, não é explorado.

Da mesma forma acontece com os trabalhos. Entregar por e-mail ou impresso? Procurar na internet ou buscar no xerox? Quando há alguma proposta que envolva o computador há também, em contrapartida, algo que não torne indispensável sua utilização:
Carla: Algumas pessoas mandaram, acho que para o e-mail dela [“D.”], e pediu que entregasse o trabalho escrito também. Assim, impresso, né!?

(...)

Nara: Uma vez ela [“L.”] pediu para procurar na internet, o negócio do Manifesto [dos Pioneiros], mas também tinha no xerox, o pessoal preferiu ir lá.

(...)

Carla: Acho que a coisa que mais a “D.” encontra dificuldade lá na sala, é que nem todo mundo tem computador, né!? A Bruna não tem...

Mirella: Mas agora tem o acesso no infocentro, né!?

Carla: Tem o acesso no infocentro, mas...

Jaqueline: Nem e-mail ela não tem!

(Fragmento das discussões do Grupo Focal Reflexivo realizada no dia 05 de junho de 2007 – Grupo 02).

Na opinião dos alunos participantes da pesquisa, tal atitude dos professores pode ser fruto da preocupação com aqueles discentes que não têm acesso ao computador ou que não dominam este instrumento, o que os impossibilitaria de participar do processo. Contudo, por esse “desejo” de não excluir, acabam restringindo ainda mais a utilização do computador/internet, até mesmo para aqueles que a buscam:


Daniele: Ele [“T.”] pediu o e-mail de todo mundo na sala. Ele falou que ia mandar os assuntos todos por e-mail. A sala inteira chiou. Ele não pode mais mandar. Eu recebo por e-mail, porque eu falei assim “Ah, não. Eu prefiro.” Porque ele falou: “Quem quiser eu digito mesmo. Aí eu vou lá e entrego. Mas quem não quiser eu deixo lá no xerox”. Aí ele ficou reclamando, falou: “A gente tenta adiantar a vida de vocês para vocês não precisarem ir lá no xerox e vocês reclamam.

(Fragmento das discussões do Grupo Focal Reflexivo realizada no dia 27 de junho de 2007 – Grupo 01).
Gilberto: Ela [“D.”] mandou a apresentação, a primeira que ela fez por e-mail, depois ela escreveu: “O outro está no xerox” é... “Abraços”. Eu não entendi essa, né!? Eu sei que está no xerox, mas se eu mandei o e-mail...

(Fragmento das discussões do Grupo Focal Reflexivo realizada no dia 21 de junho de 2007 – Grupo 02).

O computador/internet, portanto, está presente fisicamente no curso de Pedagogia da UFJF, mas não faz parte de seu cotidiano. Não perde seu caráter de novidade, gerando estranheza entre professores e alguns alunos.

Em função dos aspectos destacados, percebo que a implantação do infocentro, em relação ao curso de Pedagogia da UFJF, não traz mudanças significativas para a formação inicial de professores:
Mirella: Vocês acham que a implantação do infocentro aqui na Universidade muda alguma coisa para formação de vocês?

Isadora: Facilita, né?

Gilberto: Se for pensado para ser utilizado além de estar só o computador lá, pode ter diferença. Do jeito que está, sem haver uma busca proposital, realmente não altera nada não.

Mirella: Como alteraria?

Gilberto: A idéia das questões lá que eu coloquei. Você tem que fazer uma pesquisa na internet, por exemplo, com sites que a gente só tem acesso aqui. É uma forma de estimular o uso dele de maneira além do que a gente já buscaria de forma isoladamente.

Mirella: Então vocês pensam que os professores propondo atividades para que vocês realizem no infocentro...

Isadora: Forçando mais, né? Que a gente fosse ao infocentro.

Carla: É, o SIGA é uma forma de impor.

(...)

Mirella: E mais coisas que poderiam incentivar o uso do infocentro, do computador/internet, além do que ele falou de propor trabalhos com a utilização de sites que só têm aqui na Universidade...

Gilberto: Não sei, também atividades culturais, listas de discussão, se elas tiverem bem coordenadas, né? Lista de discussão funciona. Pessoal vai lá, deixa uma opinião, deixa uma pergunta, pessoa vai lá assina, é legal também, incentiva a utilização. Com certeza.

(Fragmento das discussões do Grupo Focal Reflexivo realizada no dia 01 de junho de 2007 – Grupo 01).

Cabe, portanto, aos professores despertar seus alunos, que ainda não fazem um uso consciente do computador/internet, para as possibilidades de uso que este pode abranger. Vários são os níveis que se pode ter de apropriação deste instrumento e isso muitas vezes é fruto das necessidades de utilização que surgem. Daí que Souza (2007, p. 33) afirma ser variável e plural a aprendizagem, “uma vez que certos recursos, programas ou práticas de acesso podem ser significativas e válidas para alguns, mas não para todos”. Sendo assim, a mediação do professor torna-se indispensável para que haja a construção de conhecimento a respeito dos aspectos técnicos, conteúdos disciplinares e resolução de problemas. Como destaca Vygotsky, é através da imersão em atividades culturalmente organizadas que torna-se possível a apropriação de ferramentas, instrumentos e signos próprios de cada sociedade.

Diante disso, percebo que a tecnologia adentra a UFJF e o curso de Pedagogia, muito em função das exigências da sociedade; porém, ainda não se tem uma idéia definida do que o computador/internet representa, não sendo incorporado por seus docentes e grande parte de seu alunado. Isto pode acontecer pela velocidade dos avanços tecnológicos, o que nem sempre é acompanhado na mesma velocidade por nossa cognição. “La invisibilidad del ordenador pasa por adaptar esta tecnología a la pedagogía, pero también la pedagogía a la tecnología” (SALVAT, 2000, p. 34). Por enquanto, parece estar o curso de Pedagogia de um lado e as tecnologias de outro, não havendo uma relação intrínseca entre ambos. O computador/internet ainda não perpassa o curso de Pedagogia de maneira natural, o que torna a relação entre ambos frágil e fragmentada.


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