Um pouco de história: o despertar para a questão


O aluno do curso de Pedagogia da UFJF utiliza o infocentro instalado na Faculdade de Educação?



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O aluno do curso de Pedagogia da UFJF utiliza o infocentro instalado na Faculdade de Educação?

Com que finalidade e freqüência?

Em que medida esta utilização influencia seu processo de formação?

Que sentidos passam a construir a respeito do computador/internet em sua vida pessoal e em ambiente escolar a partir desta utilização?

3. A ABORDAGEM HISTÓRICO-CULTURAL E A PESQUISA NAS CIÊNCIAS HUMANAS
Método não é algo abstrato. Método é ato vivo, concreto, que se revela nas nossas ações, na nossa organização e no desenvolvimento do trabalho de pesquisa, na maneira como olhamos as coisas do mundo.

Bernardette Gatti


Como mostra Gatti (2003), o método não é algo fechado. Não precisamos seguir sistematicamente cada ação planejada, mas refletir sobre sua relevância de acordo com a evolução do trabalho. E mais importante que isso, precisamos ter em mente que o método não deve se materializar apenas no momento do trabalho de campo. O método deve guiar nossas ações, nosso olhar para os acontecimentos. É por isso que precisamos ter claro o referencial teórico-metodológico que fundamenta nosso trabalho e nossas atitudes.

Sendo assim e considerando os objetivos propostos nesta pesquisa, bem como o foco de meu estudo, optei pela investigação qualitativa de cunho histórico-cultural. A escolha por esta perspectiva se efetivou por considerá-la mais adequada para estudos que se vinculam às Ciências Humanas.

Desta maneira, faço de Lev Semyonovich Vygotsky (1896-1934) e Mikhail Bakhtin18 (1895-1975) meus companheiros para diálogos constantes no decorrer deste estudo, buscando neles a fundamentação teórico-metodológica necessária à pesquisa.

Defendo aqui, com base nestes autores, uma forma de pesquisar diferenciada daquela praticada nas Ciências Naturais e Exatas, em que se contempla o objeto de estudo e o foco volta-se todo para o pesquisador, considerado como o único sujeito da pesquisa: aquele que contempla e descreve o que observou.

Em Ciências Humanas, para Vygotsky (1996) e Bakhtin (2003), o homem deixa de ser vislumbrado como objeto, passando a assumir o papel de sujeito. Assim, o estudamos em suas especificidades, encarando-o como ser social, expressivo e falante, que se constitui através das relações que estabelece com o meio.

Apoiada nesse pensamento, a pesquisa com base na abordagem histórico-cultural não separa mente e aspectos internos, de corpo e comportamentos externos. Reflete sobre o indivíduo em sua totalidade, abrangendo ambos os aspectos, que estão constantemente interligados com as relações que o sujeito estabelece com a sociedade na qual está inserido. O sujeito, diante disso, é um ser histórico, datado e marcado pela cultura, o que demonstra sua especificidade e singularidade diante dos demais.

No que tange a este assunto, Bakhtin (2003) ressalta que, justamente por essa diferença entre eu e o outro, que os sentidos e significados deste outro são inesgotáveis para mim. Sendo assim, eu nunca o compreendo em sua totalidade. Sempre há algo por conhecer e por descobrir, principalmente se considerarmos que não somos seres completos, prontos e acabados, mas estamos nos constituindo enquanto pessoas. Desta maneira, quando realizamos uma pesquisa, o conhecimento que construímos não é apenas sobre o outro, mas também com o outro, que é um sujeito de discurso. Por isso o conhecimento e as relações estabelecidas são dialógicos e a pesquisa uma relação entre sujeitos, que se encontram em constante processo de interação, alterando-se ao longo de todo o processo.

De acordo com o exposto acima, Amorim (2001) ressalta que a pesquisa é um encontro que parte da diferença entre os envolvidos, visando uma compreensão do outro em seu contexto. É nesse confronto de diferentes vozes que nos transformamos (nós, pesquisadores e o outro, pesquisados), que temos nossos pontos de vista reformulados, que nos constituímos enquanto pessoa. A fala, o diálogo, as contrapalavras, portanto, são os responsáveis pela (re)significação e (re/des)construção de olhares, opiniões e idéias, tendo cada um (pesquisador e pesquisados) o seu “papel”.

Assim sendo as Ciências Humanas, nesta perspectiva, podem ser consideradas como ciências do discurso (Amorim, 2001), ou do texto (Faraco, 2003). O homem se constitui no e pelo discurso – que é um texto –, nas inter-relações com o outro. Neste sentido, é na compreensão das condições de produção do discurso (do texto, da expressão) dos sujeitos que realizamos os aprofundamentos necessários para a compreensão que buscamos.

Compreensão esta que, de acordo com Freitas, M. (2002), representa uma atribuição de sentidos, uma tomada de posição diante dos textos criados (e a serem criados) pelos sujeitos, por meio de sua expressão sígnica. Nós enunciamos através de signos, de palavras com significado, às quais atribuímos sentido. Se essas palavras se constituíssem apenas como sons vazios, com uma significação única e imutável, não mais poderiam ser denominadas como tais (como palavras) e passaríamos a estar nos referindo a sinais.

Conforme Bakhtin / Volochinov (1988, p. 130), “a multiplicidade das significações é o índice que faz de uma palavra uma palavra”. Isso justamente pelo fato de comportar vários sentidos. Assim, “um signo não só reflete e refrata a realidade, como tem uma encarnação material” (FREITAS, M., 2002, p. 23).

Tal expressão sígnica, por sua vez, é pelo pesquisador interpretada e, por isso, recriada diante dos variados sentidos simbólicos possíveis de serem agregados ao que vivenciamos. Impossível se torna, portanto, pensar em neutralidade na pesquisa. O pesquisador, já no ato de sua entrada em campo, gera intervenções na realidade, seja por trazer novos elementos de reflexão e análise acerca do seu cotidiano; seja por interpretar os fatos com base em suas vivências.

Em síntese, “compreender não é um ato passivo (um mero reconhecimento), mas uma réplica ativa, uma resposta, uma tomada de posição diante do texto” (FARACO, 2003, p. 42). É um processo “que supõe duas consciências, dois sujeitos, portanto, dialógico” (FREITAS, M., 2002, p. 25).

Pode-se dizer, diante disso, que nos desenvolvemos como seres humanos a partir do contexto social que nos envolve, da nossa historicidade, da interação com o outro, com a mediação da linguagem. Isso representa a valorização da linguagem como base para compreensão dos acontecimentos; como mediadora da construção do conhecimento e para a própria constituição do sujeito.

Ao pensar sob o prisma da linguagem, Bakhtin / Voloshinov (1988) vislumbra na interação (comunicação) verbal a essência da língua, que se materializa através de enunciados. Um processo em que locutor torna-se ouvinte e ouvinte torna-se locutor, interagindo constantemente, exteriorizando suas compreensões acerca do assunto, entrecruzando pensamentos, posicionamentos, argumentos; mudando pontos de vista, reformulando questões pelo olhar do outro.

O diálogo, por sua vez, é uma das formas mais importantes da interação verbal (Faraco, 1996). De acordo com Bakhtin, este representa o confronto de uma pluralidade de vozes sociais. Representa, portanto, “relações de sentido que se estabelecem entre enunciados, tendo como referência o todo da interação verbal (e não apenas o evento da interação face-a-face)” (FARACO, 2003, p. 63, grifo do autor).

Assim, fundamentada na teoria enunciativa da linguagem de Bakhtin, pretendo vislumbrar a visão que os alunos da UFJF, os gestores e bolsistas do infocentro têm a respeito deste local, no momento do diálogo, da interação verbal, de exteriorização de seu pensamento, preocupando-me com todo o contexto que os envolve, com a historicidade dos sujeitos.

A importância dada por Bakhtin ao diálogo é tão grande que, para ele:


Viver significa tomar parte no diálogo: fazer perguntas, dar respostas, dar atenção, responder, estar de acordo e assim por diante. Desse diálogo, uma pessoa participa integralmente e no correr de toda sua vida: com seus olhos, lábios, mãos, alma, espírito, com seu corpo todo e todos os seus feitos. Ela investe seu ser inteiro no discurso e esse discurso penetra no tecido dialógico da vida humana, o simpósio universal (BAKHTIN, apud FARACO, 2003, p. 73).
Por sua vez, não participar desse diálogo, não se comunicar, não ser ouvido; enfim, não ser para/pelo um outro e para si mesmo, significaria morrer. É aí que está a importância da alteridade, que é “a condição da identidade: os outros constituem dialogicamente o eu que se transforma dialogicamente num outro de novos eus” (FARACO, 1996, p. 125). Isso significa pensar na complementaridade de visões, na importância do outro para a nossa constituição e para nos conhecermos com maior profundidade.

É a partir daí que se desenvolve grande parte do trabalho do pesquisador, que é constantemente permeado pela relação que estabelece com o outro e a maneira com que olha para esta relação e reflete sobre ela.

Desta maneira, “o outro é ao mesmo tempo aquele que quero encontrar e aquele cuja impossibilidade de encontro integra o próprio principio da pesquisa” (AMORIM, 2001, p. 28-9). E nesse momento apresento um outro conceito bakhtiniano, a exotopia, que é a capacidade de complementar o outro pelo que vemos dele e que ele não pode enxergar. A posição exotópica é o elemento através do qual se materializa a alteridade. Significa ter uma visão do outro que ele nunca terá, porque eu estou externo à ele, vendo algo dele que ele não vê. É a partir disso que a busca do encontro entre pesquisador e pesquisado se dá.

O eu, desta maneira, não se constrói sozinho, mas em colaboração com o outro. De acordo com FREITAS, M. (1996, p. 166), “a vida é vivida nas fronteiras entre a particularidade de nossa experiência individual e a auto-experiência de outros”.

A partir destes conceitos de exotopia e alteridade, pretendo demonstrar a existência de, durante o campo e após o trabalho, modificações não apenas nos sujeitos, mas também em mim, enquanto pesquisadora, a partir do momento que entrar em contato com outras visões sobre o que pretendo estudar, complementando minha idéia sobre as TIC e a formação inicial.

Essas idéias remetem, ainda, a outro conceito bakhtiniano, a polifonia, já que a existência humana não é, de forma alguma, monológica. Somos seres inacabados e nos constituímos na e pela interação verbal, pelo diálogo com o outro. Um outro diferente de nós, com outras vivências e experiências, com outra visão a respeito do mundo.

Em síntese, assim se caracteriza a investigação qualitativa numa abordagem histórico-cultural, bem salientada por Freitas, M. (2003, p.27-8):


  • A fonte dos dados é o texto (contexto) no qual o acontecimento emerge, focalizando o particular enquanto instância de uma totalidade social. Procura-se, portanto, compreender os sujeitos envolvidos na investigação para, através deles, compreender também o seu contexto.

  • As questões formuladas para a pesquisa não são estabelecidas a partir da operacionalização de variáveis, mas se orientam para a compreensão dos fenômenos em toda a sua complexidade e em seu acontecer histórico. Isto é, não se cria artificialmente uma situação para ser pesquisada, mas vai-se ao encontro da situação no seu acontecer, no seu processo de desenvolvimento.

  • O processo de coleta de dados caracteriza-se pela ênfase da compreensão, valendo-se da arte da descrição que deve ser complementada, porém, pela explicação dos fenômenos em estudo, procurando as possíveis relações dos eventos investigados numa integração do individual com o social.

  • A ênfase da atividade do pesquisador situa-se no processo de transformação e mudança em que se desenrolam os fenômenos humanos, procurando reconstruir a história de sua origem e de seu desenvolvimento.

  • O pesquisador é um dos principais instrumentos da pesquisa porque, sendo parte integrante da investigação, sua compreensão se constrói a partir do lugar sócio-histórico no qual se situa e depende das relações intersubjetivas que estabelece com os sujeitos com quem pesquisa.

  • O critério que se busca numa pesquisa não é a precisão do conhecimento, mas a profundidade da penetração e a participação ativa tanto do investigador quanto do investigado. Disso resulta que pesquisador e pesquisado têm oportunidade para refletir, aprender e ressignificar-se no processo de pesquisa.

Diante disso cabe a seguinte questão: que tipo de pesquisa pretendo desenvolver? Que tipo de relação pretendo estabelecer com os sujeitos?

Percebo a incoerência de uma pesquisa que visa compreender uma realidade e que, para tal, não considera a voz de cada sujeito. O importante, por conseguinte, é notar que tanto pesquisador quanto seus pesquisados, são peças primordiais para a pesquisa. Sendo assim, à palavra do pesquisador e do pesquisado deve ser dado o mesmo grau de importância. Ambos devem participar ativamente do processo de pesquisa, aprendendo e refletindo, re-significando-se e transformando-se no decorrer da pesquisa a partir do diálogo travado. A visão que um tem do outro, desta maneira, não está pronta nem acabada, mas é transformada durante todo o processo, assim como suas visões e opiniões a respeito do objeto de estudo.

Nós, pesquisadores, parecemos ser recriadores da realidade observada e vivenciada. Damos sentido à cada fala e situação, somos os responsáveis por garantir a continuidade e riqueza do diálogo. Ao mesmo tempo, temos a certeza de que os “resultados” encontrados representam o momento da pesquisa. Aquela realidade não acaba com o fim de nossa pesquisa e está em constante transformação e construção.

Guiada por esta concepção de pesquisa, desenvolvi minhas observações e entrevistas no Projeto Piloto realizado. E também com esta concepção refleti sobre o projeto do infocentro, sobre a utilização do infocentro feita pelos alunos, sobre o trabalho realizado pelos bolsistas e sobre os sentidos por eles (alunos e bolsistas) construídos a respeito deste ambiente, contrapondo sempre a idéia do projeto e as vozes de seus gestores com a sua real implantação.

Esta concepção também foi a diretriz de todo o trabalho de campo desta pesquisa realizado no decorrer do ano de 2007, assim como seu processo de análise.




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