Trabalhos Apresentados IV senabraille



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MUDANÇA DE STATUS

Em nossa observação durante o desenvolvimento do projeto, percebemos que o revisor de textos em Braille do CAP/BH depois que aprendeu a assinar, passou a

anotar com um lápis as letras corrigidas na própria folha de revisão, o que facilita a interação com os profissionais que fazem a transcrição e a adaptação de textos em Braille.

Uma vendedora de cosméticos quis aprender os números para registrar os telefones das clientes ou de pessoas que ligavam para sua casa e pediam que anotasse o telefone para alguém da família.

Anotamos algumas falas e comentários obtidos em conversas informais e depoimentos espontâneos que demonstram a mudança de status, o sentimento de pertença e de auto-estima.
1 - Auxiliar de secretaria, 23 anos, casada, mãe de 2 filhos, ensino médio. Considera que aprender assinar é importante porque “Hoje em dia serve para tudo... Tendo um documento assinado posso ter conta corrente, cartão de crédito, fazer compras pelo crediário, assinar o ponto, em fim exercer a cidadania”.

Ela admite ter passado por situações constrangedoras quando foi fazer um empréstimo e comprar no crediário porque, depois de tudo preenchido, não podia assinar ficando na dependência de terceiros. Ressalta que a assinatura vai mudar sua vida.

2 - Auxiliar de biblioteca, solista de uma banda de música, 34 anos, divorciada, tem dois filhos, ensino médio. Relatou que há muito tempo despertou nela o desejo de

aprender a assinar e, às vezes, ficava triste por ter uma formação, saber ler, escrever e, no entanto, constar na identidade um “não assina”.

Para ela, assinar significa ter mais independência, não precisar mais de um procurador, poder realizar coisas simples como ter cartão de crédito, ter uma conta no banco, poder movimentá-la, assinar cheques, contratos de aluguel, dar autógrafos, assinar a folha de presença do trabalho... E o mais importante, assinar a matrícula do filho e os bilhetes que recebe da escola.

Numa conversa com o filho ele diz todo feliz: -- “Agora mamãe você já pode assinar os meus bilhetes!... – Eu vou te mostrar as letras baixinhas e altinhas”...

-- Ela diz: --“não vou precisar pedir minha ajudante para assinar por mim!”
3 – Músico autônomo, 38 anos, casado, um filho, ensino fundamental incompleto,. Para ele, assinar significa “ser igual aos outros, realizar o sonho de abrir uma conta corrente e conseguir financiamento para compra da casa própria”. Contou que foi fazer um empréstimo na Caixa Econômica Federal e foi dito a ele, diante de todo mundo, que não podia fazer porque não assinava.”

Depois que aprendeu a assinar resolveu formar palavras com as letras de seu nome e pedia ao filho de 6 anos para ler. Considera que mudou de status porque as pessoas agora o colocam nas nuvens e ele passou a ser visto como uma pessoa de muita inteligência.

Na rodoviária de São Paulo, foi exigida a assinatura para compra de passagem no cartão de crédito. Como ele sabia assinar, conseguiu comprar a passagem. Comentou também que faz compras em diversas lojas e as pessoas ficam surpresas porque ele assina.
CONSIDERAÇÕES GERAIS

A partir da incorporação do projeto entre as atividades do CAP/BH, outros usuários manifestaram o desejo de aperfeiçoar sua assinatura e despertaram a curiosidade e o interesse em aprender as letras do alfabeto e os números. Eles se sentem encorajados com a experiência dos outros e perdem o receio, pois a assinatura deixa de ser um tabu já que as dificuldades são desmistificadas.

A importância do ato de assinar passou despercebida ou foi negligenciada durante a infância ou a juventude destas pessoas talvez pelo fato de ainda não se confrontarem com as exigências e responsabilidades inerentes à vida adulta. Além disso, elas conviveram e ainda convivem com a ignorância de quem enxerga e não acredita que sejam capazes de assinar ou de desempenhar outros atos corriqueiros. Para muitas pessoas, a escrita do nome em Braille corresponde à assinatura. Para outras, basta a impressão digital. Existem, ainda, aquelas que se contentam com a escrita simplificada por meio de letra de forma.

O ensino da escrita cursiva em tinta para pessoas cegas é importante, seja para escrever o nome por extenso, reconhecer letras e números, ou formar palavras e sentenças, facilitando a comunicação com as pessoas que enxergam. A escrita do nome, de números e de pequenas anotações tem uma utilidade e uma função social que não deve ser subestimada. Por isso, o projeto ASSINO EMBAIXO vai além do simples ato de assinar, uma vez que repercute na vida do sujeito de forma abrangente, representando emancipação, independência, responsabilidade. A assinatura contribui significativamente para o fortalecimento da auto-estima, afirmação de identidade e legitimação da cidadania.


BIBLIOGRAFIA
CAPARRÓS, José Antônio Espana. Elaboración de Cuentos adaptados para niños y ninas com ceguera y baja visión. Disponível em:

http://www.cepmalaga.com/actividades/interedvisual/icv_interedvisual_programa.htm/.

FERREIRO, Emília. Reflexões sobre alfabetização. 15ª. Ed. São Paulo: Cortez, 1990.

MEC/CENESP. Programa de Capacitação de Recursos Humanos do Ensino Fundamental Deficiência Visual – Vol. 3 Série Atualidades Pedagógicas. 2001.
RUSSO, Carmem. CANO, Maria Elena – Concepções sobre a Lectoescrita Braille Protagonistas em seu processo de Ensino-Aprendizagem. (Tradução livre de Elizabet Dias de Sá). 2004. Disponível em : http://lerparaver.com/bancodeescola/.

SÁ, Elizabet Dias. Acessibilidade: as pessoas cegas no itinerário da cidadania. Revista Benjamin Constant, Rio de Janeiro, Ano 9, n. 24, p. 20 – 25, abril 2003.

---------------. Necessidades Educacionais Especiais na Escola Plural. Disponível em :http://lerparaver.com/bancodeescola/.

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*Izilda Maria de Campos

izilda@pbh.gov.br

izildamc@yahoo.com.br

Professora especializada na área de deficiência visual, trabalha no Centro de Apoio Pedagógico às Pessoas com Deficiência Visual de Belo Horizonte – CAP/BH.

Pedagoga, pós-graduada em Alfabetização: Interdisciplinaridade e construção.






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