Trabalho ref



Baixar 68.5 Kb.
Página1/5
Encontro28.05.2018
Tamanho68.5 Kb.
  1   2   3   4   5

XX CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICANÁLISE
INTERFACES: PSICANÁLISE, MEDICINA E SAÚDE PÚBLICA

“É mais promissor, no trabalho científico, atacar o que quer que esteja imediatamente à nossa frente e ofereça uma oportunidade à pesquisa. Agindo dessa forma, realmente com afinco e sem preconceito ou sem prevenções, e tendo-se sorte, então, desde que tudo se relaciona com tudo, inclusive as pequenas coisas com as as grandes, pode-se mesmo partindo de um trabalho despretensioso, ter acesso ao estudo dos grandes problemas.”

Sigmund Freud em Conferências Introdutórias (1915) – (Parapraxias)

Nestes 25 anos de trabalho meu interesse foi sempre voltado para a clínica. Nos primeiros oito anos atendi em psicoterapia de base analítica e depois apenas em psicanálise. É esta experiência, ou seja o atendimento clínico em psicanálise, a matriz de onde retiro todas as questões que pretendo abordar neste trabalho.


Sou uma entusiasta dos resultados clínicos obtidos pelo trabalho em psicanálise. Por este motivo sempre me ressinto da pouca quantidade e qualidade das divulgações feitas a respeito de nossa ciência. Decidi desde logo fazer “a minha parte”. Tornei-me, com certo orgulho, uma “militante” da psicanálise como brincam alguns colegas.
Estive, muitas vezes, em faculdades de psicologia de São Paulo e Ribeirão Preto, fazendo palestras, sempre sobre o mesmo tema: Conversando sobre Psicanálise. Minha intenção era desmistificar a psicanálise, trazendo-a para um plano mais acessível à média dos estudantes de psicologia. Depois, já como candidata no Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo interessei-me pelo Serviço de Atendimento, antigo Ambulatório, onde poderíamos atender em psicanálise um maior número de pessoas a preços mais acessíveis. Fui diretora deste Serviço por duas gestões. Na Sociedade de Psicanálise de Ribeirão Preto, tive participação ativa no projeto da Clínica de Atendimento. Também participei do projeto “Divulgação da Psicanálise” em Ribeirão Preto e ofereci gratuitamente, durante os oito anos que lá residi, seminários clínicos aos alunos da do 5º ano de Psicologia da USP de Ribeirão Preto.
Em 2004, dois anos depois de retornar à S.Paulo recebi um convite desafiador e estimulante: Montar um Grupo de Atendimento em Psicanálise no Ambulatório do Jogo Patológico e outros Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Fui para a primeira reunião com o dirigente do setor muito animada e saí muito angustiada. Foi sugerido fazer psicoterapia em grupo com os “jogadores patológicos”. Pela proposta teria apenas 20 sessões para realizar este trabalho. Minha angústia se explicava pela evidente impossibilidade de se obter resultados mais efetivos com este número de sessões.
Trago um sonho para compartilhar meus conflitos com o leitor, depois da proposta recebida. Nesta noite, sonho que estou dentro de um carro luxuoso e bastante espaçoso. De repente todas as luzes se apagam e o carro se desgoverna. Não havia mais nenhuma luz, tudo ficou completamente às escuras. A estrada era conhecida, descia uma serra cheia de curvas. Fico apavorada tentando brecar, mas não consigo achar o pedal do freio. A velocidade aumenta e eu nada posso fazer para parar o carro.

Peço ajuda a minha irmã que está no banco traseiro, mas percebo que ela está dormindo, bêbada. Seu hálito cheira a álcool, eu percebo que não posso contar com ela. Meu desespero aumenta e então me abaixo e tateando procuro encontrar o breque. Quando localizo aperto com muita força e o carro para bruscamente. Quando para, as luzes se acendem imediatamente e eu estou a poucos centímetros de um grande muro que me mataria se o carro não tivesse brecado. Acordo assustada, mas logo pego no sono novamente e é como se o sonho continuasse. Estou sentada em um sofá, junto com três pessoas, meu marido e mais dois homens que pareciam ser colegas de meu marido. Conversamos algo que não me recordo, saio da sala e entro no banheiro. Ao me olhar no espelho levo um susto. Estou com o rosto cheio de creme branco e os cabelos enrolados com bobies. Parecia estar fazendo uma destas máscaras de tratamento de pele. A impressão era de que eu estava fazendo um tratamento para ficar bonita mais rapidamente, usando então excesso de maquiagem. A sensação é de tamanho desconforto que acabo acordando.


Ao acordar associo imediatamente à minha experiência do dia anterior no Hospital das Clínicas. Sinto que o carro desgovernado, sem breque, pode estar ligado ao meu desejo de querer trabalhar. É como se o sonho me alertasse sobre a escolha de um caminho que é uma descida, aparentemente algo fácil e conhecido, mas se não tomo as providências e busco o breque, poderia ser destruída. Sinto que meus “bons objetos” estão em perigo. A presença de minha irmã , interpretei como sendo um aspecto meu “teimoso”, que quer fazer as coisas do “ do meu jeito”. Ao fato de ela estar bêbada, a associação que faço é de descontrole, de algo irresponsável. Imediatamente me lembro da proposta da terapia , com 20 sessões, supervisionada por uma psicanalista dentro de um hospital público. Me vem á lembrança o rosto cheio de creme, que associo com mascara e com a violência que é querer ficar bonita a qualquer preço, a ponto de perder a referência, pois, no sonho, não percebia estar “maquiada”. Penso que os conflitos que trazem meu sonho é em consequência da luta narcísica que estava sendo travada em meu mundo psíquico, pois me era sedutor aceitar o convite que me foi feito.
Esta experiência emocional que “escutei” da forma descrita, me possibilitou fazer uma análise mais sensata da situação e elaborar uma contraproposta e que, para minha feliz surpresa foi bem aceita pelo dirigente do setor. Percebi, naquele momento que eu estava com pré-conceitos em relação ao trabalho na Instituição maiores do que eu observei que tinham em relação a mim.
Recebi todo o apoio para montar o projeto. Pelos termos que solicitei e fui atendida, receberia em meu consultório uma vez por semana, por uma hora, os profissionais que trabalham no Hospital das Clínicas e que coordenariam o chamado grupo piloto. Iniciei com estas profissionais, ambas psicólogas, um estudo teórico do trabalho com grupos. Utilizei textos de diversos autores, mas nos detivemos a estudar linha por linha o livro “Experiências com Grupos” de Wilfred Bion. Como alegava com as participantes, minha intenção era utilizar o texto para conversarmos e ampliarmos a escuta psicanalítica. Nossa proposta é investigar as tensões existentes no grupo. Entendíamos o jogo como sintoma e, portanto, foi visto por nossa equipe como consequência das dificuldades que aquelas pessoas tinham para lidar com seu “mundo mental”.

Apresentado o projeto obtivemos um ganho considerável. O total de atendimentos passou para 60 sessões, o que daria, considerando os dias úteis, quase dois anos de trabalho. O grupo teria no máximo 9 participantes. As sessões seriam de uma hora e meia, uma vez por semana. As duas colegas trabalhariam em parceria com o grupo e eu faria supervisão semanal deste trabalho, no mesmo local onde o grupo se reunia. Isto quer dizer que teríamos um compromisso de nos dedicarmos duas horas semanais para este projeto. Uma das duas colegas se interessa, então, por transformá-lo em sua tese de mestrado.


Neste grupo, que se reúne semanalmente para estudo do texto teórico visando ampliar a escuta analítica com relação a atendimentos com grupos, juntaram-se duas colegas, também psicólogas que atendem grupos no Hospital do Servidor Público. Os grupos coordenados por estas duas colegas, já estavam em andamento. Foi logo possível, obtermos, pelos depoimentos das colegas, uma melhora na qualidade do trabalho. Isto estimulou toda a equipe, pois observamos que a escuta psicanalítica poderia trazer mais qualidade de atendimento a um número bem maior de pessoas que de outra forma não poderiam freqüentar nossos consultórios. Estávamos presentes em dois dos maiores hospitais de atendimento pela rede pública do Estado de S.Paulo.
Nossas conversas questionaram o setting no hospital do Servidor Público. Por exemplo: Os pacientes esperavam os coordenadores dentro de uma sala, na medida que iam chegando. Quando os dois coordenadores chegavam, iniciavam o grupo. Isto foi alterado: Esperariam na sala de espera, só entrariam com o coordenador, para que ficasse definido o inicio da sessão. Justifiquei teoricamente minha postura e as colegas observaram que fazia sentido e que não tinham pensado nisto anteriormente. Frizei também a importância do atendimento no horário estabelecido. O término do grupo, também deveria ser rigorosamente observado e não alterado. Afinal estávamos lá para estudar as tensões do grupo e o setting por si só criaria um campo fértil para a eclosão destas tensões.
Embora o atendimento em grupo no hospital do Servidor Público se mantenha, foi observado que, o fato de apenas um dos coordenadores de cada grupo receber o treinamento que estava sendo proposto, trazia dificuldades na condução do trabalho. Foi observada, também a importância da supervisão.
No primeiro dia de supervisão no ambulatório do Hospital das Clínicas, já tinha sido informada pelas colegas que na única sala disponível para o trabalho havia uma grande mesa, ao redor da qual o grupo se reunia. Observei que se encostássemos a mesa em um canto e utilizássemos o espaço para colocação das cadeiras em círculo, isto facilitaria uma proximidade maior entre os participantes. E proximidade, na escuta de um analista, é geradora de tensão. As cadeiras eram diferentes uma das outras. Solicitei que as cadeiras fossem iguais, inclusive das coordenadoras. Minha proposta seria não incentivar a idéia de uma autoridade e sim deixar que emergissem no grupo as dinâmicas referentes à questão da autoridade. Dessa forma teríamos mais elementos para o trabalho analítico e para observarmos os pressupostos básicos que se fizessem presentes (Bion, 1961).
Na segunda sessão de supervisão as coordenadoras observaram que o grupo buscava um modelo já estabelecido de funcionamento. Alguns participantes que já tinham freqüentado outros grupos, agiam como se aquele grupo funcionasse da mesma forma. Assim as coordenadoras eram solicitados a ficarem com o papel de líderes, à elas eram dirigidas todas as perguntas, dúvidas, necessidades de compreensão e entendimento. Em determinado momento a coordenadora mostra isto ao grupo e observa que um outra dinâmica começa a existir, embora a repetição deste modelo se mostre presente em vários momentos.
As coordenadoras observam que o próprio grupo vai trazendo situações geradoras de questionamentos interessantes. Por exemplo Um dos participantes mostrava a necessidade de dizer ao grupo o quanto ele se beneficiou de grupos freqüentados anteriormente e o quanto estava bem, sem nenhum problema, sem nenhuma dificuldade. Insistia tanto neste fato que se tornava uma espécie de líder “sano” pregando seu bem estar aos colegas “insanos”. Um dos participantes perguntou a ele: Se se sentia tão bem porque estava freqüentando aquele grupo? Com a pergunta uma nova dinâmica foi estabelecida entre os participantes.
Com estas e outras situações que foram se criando a partir deste trabalho, foram se mostrando as defesas e sendo percebidos os progressos. Em outra situação uma das participantes falava do seu bom casamento, falava também que saia todas as noites para jogar e lá ficava até altas horas. Uma outra participante perguntou como era possível ter um bom casamento dentro desta situação. E foi percebido pelo próprio grupo, sem a interferência das coordenadoras, as defesas que se usa para não ter contato com a verdade.
Algumas sessões tem sido bastante difíceis, a ponto dos coordenadores temerem que o grupo não consiga se manter. No entanto, embora haja bastante faltas, algumas pessoas se mantêm mais presente e obtendo ganhos expressivos com a atividade do grupo. Um dos integrantes diz que sente bem melhor, que tem se sentido diferente em relação às outras coisas em sua vida, por exemplo seu casamento, tem tido uma qualidade melhor e não sabe dizer porque, mas o fato é que tem conseguido não jogar. Sente vontade, mas não aquele impulso incontrolável (sic). Um outro mostra sua satisfação em ter sido liberado do medicamento psiquiátrico.
Temos um compromisso em apresentar, a cada 20 sessões, relatório do andamento do grupo para o dirigente do setor.
As coordenadoras até então acostumadas com outra proposta de trabalho em grupo, estão entusiasmadas com este novo método. Sentiam, já de inicio, que poderia trazer contribuições importantes à vida daquelas pessoas, embora observassem ser muito mais difícil o manejo desta técnica.
Devido ao bom resultado inicial da proposta implantada, foi inserida em Simpósio Internacional, que terá como tema “Dependência, Compulsão e Impulsividade”, que será realizado no Rio de Janeiro de 02 a 05 de Novembro de 2005. A proposta de discussão será : “Psicanálise e Farmacologia: Tradição e Novidade no Tratamento de Jogadores Patológicos, com a coordenação do Dr. Richard Rosenthal da Universidade da Califórnia, Los Angeles (EUA) e Hermano Tavares, dirigente do Ambulatório de Jogos Patológicos do Hospital das Clínicas de S.Paulo. Além desta participação, as duas psicólogas que coordenam o grupo escreveram um pôster, trazendo a repercussão que teve no trabalho delas o fato de estarmos fazendo o treinamento durante todo este período. Dizem: “Este trabalho se fez necessário a partir da visão da supervisora e percebido como fundamental pelas terapeutas, em função de experiências anteriores realizadas pela dupla em atendimentos em grupo.

Outro dado significativo notado nas discussões no grupo de estudos é a diferença e a importância de um preparo anterior no início do trabalho, refletindo na qualidade do manejo desse grupo.”


O tripé formativo mostra-se mais uma vez efetivo, pois durante todo o processo teremos a continuidade do trabalho teórico, a supervisão e a terapia de base analítica a que se submetem as coordenadoras.
Os resultados atuais já na altura da 16ª. sessão, são animadores e nos permite afirmar que estamos conseguindo neste setor do Hospital das Clínicas repercussões favoráveis dentro da área médica, possibilitando uma maior e melhor divulgação do Atendimento em Psicanálise de Grupo em Instituições Públicas.


Baixar 68.5 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5




©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
ensino médio
ensino fundamental
Processo seletivo
minas gerais
Conselho nacional
terapia intensiva
oficial prefeitura
Boletim oficial
Curriculum vitae
seletivo simplificado
Concurso público
Universidade estadual
educaçÃo infantil
saúde mental
direitos humanos
Centro universitário
educaçÃo física
Poder judiciário
saúde conselho
santa maria
assistência social
Excelentíssimo senhor
Atividade estruturada
ciências humanas
Conselho regional
ensino aprendizagem
Colégio estadual
Dispõe sobre
secretaria municipal
outras providências
políticas públicas
ResoluçÃo consepe
catarina prefeitura
recursos humanos
Conselho municipal
Componente curricular
psicologia programa
consentimento livre
ministério público
público federal
conselho estadual