The bonds, the mass, the riots



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8. Perguntas

A perspectiva da teoria polar das formações e da teoria geral dos vínculos que descrevemos supõe um campo transferencial genérico e homogêneo no qual se desempenham as Formações do Haver. Daí a ideia básica implícita na hipótese enunciada no início: a comunicação acontece segundo uma ordem vincular composta pelos vínculos primários e secundários mais o vínculo absoluto. No caso da massa, temos uma forte pressão dos vínculos relativos (primários e secundários) no sentido de sua compactação quando ela se forma, ou de seus afrouxamento e desatamento, quando ela se desfaz. Segundo Freud ([1921]), na formação da massa predominam a concentração, a aglomeração e a junção sintomáticas resultantes da transferência e da identificação com alguma formação dominante (o líder). Nesta aglomeração, massificação ou maranha vincular intensificam-se os afetos e inibem-se as possibilidades de pensamento. Dizemos, então, hoje, que a massa se desfaz – por exemplo, em caso de pânico – mediante a indiferenciação (neutralização) das polaridades dos vínculos afetivos (libidinais) que a constituíam. Mais que sugestão (enfatizada por Le Bon) ou imitação (Tarde), Freud propõe a ideia de libido (movimento da pulsão) como chave para o entendimento não só da massa, mas de toda ordem vincular: as relações amorosas (vínculos relativos) constituem a essência da alma das multidões.

A partir desses indicativos, para concluir nosso ponto, proporemos a seguir algumas perguntas como linhas de análise para os recentes movimentos sociais de rua ocorridos no Brasil:

a) Jean Baudrillard (1929-2007), outro autor importante sobre o papel das massas na segunda metade do século 20, diz que “o processo da massa e o dos meios de comunicação são um processo único. Mass(age) é a mensagem” (BAUDRILLARD [1978], p. 38-9). A ideia de que massa e meio sejam um processo único só reforça o fato de a massa ser um aglomerado de formações vinculares (portanto, sintomáticas) constituído pelo domínio que certas formações exercem sobre outras. Assim, nas múltiplas configurações que vemos nas manifestações atuais, mesmo absorvendo os meios de comunicação, a massa continuaria sendo expressão de naipes de vínculos já conhecidos (políticos, religiosos, estéticos, sexuais, econômicos...). Pergunta: O líder ou a liderança visível não estará sendo substituído por uma ideia ou um sentimento anterior que, embora difuso por conta de seu enredamento virtual, não é menos unificador sintomático da massa?

b) Vários analistas consideram a atual ordem de arrumação vincular como resultado da disponibilidade de meios eletrônicos de comunicação em rede (Facebook, Twitter, WhatsApp...). Como estes meios amplificam em escala nunca vista o poder de ação de grupos anteriormente sem chance de expressão, seus poderes de mediação começam a ser progressivamente explorados quanto à capacidade de desconfigurar, derrogar ou mesmo derrotar os meios anteriormente hegemônicos. Pergunta: Se, hoje, dados os meios de comunicação, a anterior massa de ajuntamento (corpos em presença) está virtualmente distribuída pelos mais diversos espaços, não continua ela, por isso mesmo, mentalmente em estado de massa justo pelo fato de as pessoas estarem ligadas aos mesmos meios de comunicação?

c) Para Negri, Hardt e seus comentadores o aspecto revolucionário da multidão está no fato de ser uma infinidade singular de não representáveis. Para afirmarem isto retomam os conceitos de “carne do mundo”, de Merleau-Ponty, e o de “mônada”, de Leibniz. Entretanto, Tarde, mais refinadamente, já propusera “uma sociologia da pulverização e da aglutinação das mônadas em qualquer nível” (MAGNO [2007], p. 117). Isto, sem falar em luta de classes ou proletariado. Pergunta: Esta característica – infinidade singular – não é precisamente aquela que desfaz qualquer multidão?

d) A transformática pensa a comunicação como transa. Nela, o que acontece é pulverização e aglutinação das formações no Haver. Já as singularidades são dispersas no mundo, e não se organizam em nenhuma multidão (MAGNO [2007], p. 117). Falar em multidão já é falar em algo classificável, em concentração sintomática e reafirmação de vínculos primários e secundários. Reiteração de alienação, portanto. Por outro lado, ao exercer sua competência de indiferenciação dos vínculos relativos para, na sequência, manejá-los da maneira mais artificiosa possível, cada pessoa – isto é, cada idioformação – é um dispersoide pelo mundo e não elemento de multidão (id., p. 118). Perguntas: As recentes multidões nas ruas requerendo reconhecimento de suas diferenças e particularidades já se livraram de suas configurações sintomáticas anteriores? Não se juntariam elas apenas porque, como dito no item b acima, há meios tecnológicos para tanto?

e) Experimentamos, hoje, concretamente, em larga escala, o que Freud chamou de retorno do recalcado. Ele se possibilitou muito pela disseminação das ideias psicanalíticas ao longo do século 20 e foi potencializado pela difusão das tecnologias digitais de comunicação e dos poderes que estas adquiriram nas últimas décadas. Demandas e desejos de toda ordem, antes reprimidos e sem meios de expressão, circulam agora nas redes sociais e colaboram na organização de inusitadas formas de ação e intervenção. Perguntas: Seres vinculares que somos (em nível primário e secundário), mas, acima de tudo, inarredavelmente vinculados ao Haver (vínculo absoluto) – do qual não há saída possível, pois não-Haver não há –, quais expedientes de dessintomatização são adequados22 para lidar com as situações atuais? É possível – mediante o entendimento da operação do revirão e do ponto de indiferenciação nele embutido – reconhecer o deslocamento atual das certezas sintomáticas (MAGNO [2013], itens 4 e 5) e, ao invés de recorrer a expedientes anteriores, buscar o recurso político a uma negociação permanente entre as polarizações e diferenças em conflito no sentido da produção de soluções provisórias e ad hoc como alternativa à barbárie ou ao totalitarismo sempre à espreita?

A transformática aposta numa resposta afirmativa a esta última pergunta. Esta é, aliás, a posição política da nova psicanálise.



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