The bonds, the mass, the riots



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6. Massa, maioria...

O preâmbulo teórico acima expõe os conceitos e raciocínios a serem utilizadas nas considerações que proporemos a seguir: a pulsão, o revirão (com seu ponto de indiferenciação), os vínculos (primários, secundários e o originário), as formações (com polo, foco e franja), e o conhecimento (resultante de transas das formações).

Freud, no início do século 20, ao pensar sobre os modos vinculares presentes na “massa” (multidão, grupo, maioria, público, turba, populacho, rebanho...), diz que a separação entre psicologia individual e dos grupos não se mostra com nitidez, pois as relações com os outros jamais podem ser descartadas do estudo do psiquismo de cada pessoa. Suas perguntas são: “O que é então uma ‘massa’, de que maneira adquire ela a capacidade de influir na vida psíquica do indivíduo, e em que consiste a modificação psíquica que ela impõe ao indivíduo?” (FREUD [1921], p. 17).

Na virada do século 19 para o 20, Gabriel Tarde (1843-1904) distinguira conceitualmente massa ou multidão (foule) de público. Para ele, “a multidão apresenta algo de animal”, é um “feixe de contágios psíquicos essencialmente produzidos por contatos físicos” (TARDE [1901], p. 6), uma coletividade amorfa e passiva dominada por “interesses materiais” tais como intolerância, egoísmo, irresponsabilidade, perda do sentimento de bom senso, etc. Também comparara a massa a um estado de loucura ou de embriaguez caracterizado por uma espécie de rebaixamento mental em relação ao que as pessoas normalmente fazem. Já público é o “grupo social do futuro”, que se forma “por um feixe de três invenções mutuamente auxiliares – tipografia, estrada de ferro, telégrafo” e se define como “coletividade puramente espiritual, como uma disseminação de indivíduos fisicamente separados e cuja coesão é inteiramente mental” (id., p. 5). É assim porque diz respeito, sobretudo, ao compartilhamento de leituras e ideias.

Alguns anos antes, Gustave Le Bon (1841-1931) falara da ascensão perigosa das massas (foules), que seria uma barbarização progressiva da sociedade (LE BON [1895]). Diz ele que, só por pertencer a uma multidão, “o homem desce vários degraus na escala da civilização. Isolado, ele era talvez um indivíduo cultivado, na massa é um instintivo, por consequência um bárbaro” (apud FREUD [1921], p. 24). Para Tarde, as multidões são reflexo do passado, constituem a segunda forma mais antiga de coletividade e estão condenadas a ser substituídas pelos públicos, os quais se situam num estado evolutivamente superior. Viveríamos, então, na era dos públicos e não na era das multidões como defendia Le Bon.

Freud, considerando Le Bon e Tarde, dirá que os vínculos existentes na mente grupal são libidinais – isto é, dependentes de relações amorosas (sexuais) –, o que pode ser notavelmente constatado nas ocorrências de pânico. Surge aí algo dissolvente da massa, do grupo, uma reação ao relaxamento de sua estrutura libidinal (em relação ao líder), e, juntamente com uma angústia enorme, temos a expressão de um medo insensato e desproporcional em relação ao que o ocasionou (usualmente uma ameaça de perigo) (FREUD [1921], p. 50-54). Generaliza-se, então, “uma prontidão para o ódio, uma agressividade cuja procedência é desconhecida, e à qual se pode atribuir um caráter elementar” (id., p. 57-58). Os vínculos estabelecidos num grupo são, pois, libidinais e aglutinadores, mas, diante da ameaça de perigo (real ou não), dão lugar à manifestação de outra face dessa mesma aglutinação até então recalcada, a da agressividade desmedida.

Nos anos 1960, Elias Canetti (1905-1981) analisa as massas ou multidões a partir da violência que presenciou nas ruas de Viena e Berlim na época nazifascista. Para ele, a massa aparece num movimento ondular: por um lado, ela se dissolve com facilidade, é temporária; por outro, sempre existe a possibilidade de sua reorganização – e assim por diante. São quatro as suas características. Ela (a) quer crescer sempre”; (b) “[em seu] interior reina a igualdade”; (c) “ama a densidade”; e (d) “necessita de uma direção” (CANETTI [1960], p. 28). Quarenta anos depois, Peter Sloterdijk retoma as ideias de Canetti, mas encarece “uma mudança radical da sociedade moderna” em que o “estado de agregação como pluralidade organizada” se modifica profundamente, pois “as massas atuais pararam essencialmente de ser massas de reuniões e ajuntamentos; elas entraram num regime no qual o caráter de massa não se expressa pela reunião física, mas na participação em programas de meios de comunicação de massa” (SLOTERDJICK [2000], p. 20). Em sentido contrário, na mesma época, Antonio Negri e Michael Hardt pensam a Multidão (Moltitudine, Multitude) como capaz de substituir a noção marxista de proletariado e, assim redefinir, a luta de classes. Para eles, a multidão é poética, criativa e transformadora por ser composta de um conjunto de “singularidades plurais” que “contrastam (...) com a unidade indiferenciada do povo” (NEGRI e HARDT [2004], p. 139). Diferentemente do povo, a constituição e a ação da multidão se baseia “naquilo que as singularidades têm em comum” (id., p. 140). É, pois, a multidão como multiplicidade sem conta, homóloga aos circuitos e às redes da internet.

Podemos dizer que Canetti continua na linhagem de Le Bon, Tarde e Freud, para os quais a ideia de massa sempre esteve ligada ao estado de hipnose, de alienação a determinado discurso, a um líder, a um meio de comunicação, sendo um estado mental (a “alma da massa”) fortemente afetivo, demandante de orientação e comando. Sloterdijk, ao falar de “massa não reunida e não reunível na sociedade pós-moderna” ([2000], p. 21), não os contradiz, mas acentua o fato de que não haver presença física (que Tarde adscrevera ao público) não significa que não seja massa, pois estão ligados pelos (e aos) meios de comunicação. Negri e Hardt é que destoam dos demais ao colocarem a multidão como conjunto de singularidades, como multiplicidade e vigor das diferenças.





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