The bonds, the mass, the riots


Dissolução dos vínculos e psicanálise



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2. Dissolução dos vínculos e psicanálise

Para contextualizar, vejamos o que diz Jean-François Lyotard ([1979], p. 20s) sobre uma expressão metódica do saber na primeira metade do século 20. Segundo ele, fez-se uma clivagem8 esquemática da sociedade em dois modelos. Num, ela é vista como formação de um todo funcional (Talcott Parsons); noutro, como divisão em duas partes (Marx: “a luta de classes e a dialética como dualidade que trabalha a unidade social”). Esta expressão não é mais sustentável: já antes dos anos 1970 os autores detectaram a decomposição das grandes narrativas supostamente organizadoras do mundo e a “dissolução do vínculo social”9 que se garantiam por um organismo dotado de instituições com forte poder de pressão sobre as coletividades. A partir de então, as coerções do Estado, da família, escola, exército e Igreja se enfraquecem e as tais coletividades, para além de suas diferenças proletárias e burguesas, capitalistas e operárias, se veem deslocadas para um cenário multiconectado em que, no século 21, as “classes”, todas, queiram ou não, passam a estar planetariamente concernidas e obrigadas a rápidos deslocamentos de papéis sociais.

A referência a vínculos identitários centrados na família já havia perdido muito de sua hegemonia ante os desempenhos decorrentes da chamada segunda revolução industrial dos anos 1880, com a crescente disseminação de formas de convívio desenvolvidas nos ambientes das fábricas, escritórios e centros urbanos. E desde os anos 1970 as pessoas passam a ter que engendrar suas identidades – isto é, suas ideias de “si mesmo” – em meio a uma terceira revolução, que troca a ênfase na produção e no consumo em massa unidirecionados por uma economia flexibilizada (HARVEY [1989]) baseada em serviços e informações planetariamente dispersos. As posições perdem as durações que lhes eram conferidas anteriormente, tempo e espaço se sobrepõem na telecomutação e a obsolescência se torna rotineira. Muda, assim, o teor da agonística social e os vínculos parecem cada vez mais regidos pela transitoriedade, pela fragmentaridade, horizontalidade e simultaneidade. Resulta que, hoje, os jovens, pelo menos, parecem pouco se incomodar com isso, ocupando-se apenas com a rapidez maior ou menor do acesso a informações e estímulos que não param de chegar tecnologicamente, aos quais se ligarão pelo período da duração de seus interesses.

O contexto da indicação de Lyotard nos possibilita incluir a psicanálise e a influência singular que teve nas concepções das identidades pessoais e dos modos vinculares que se formatam desde o início do século 20 segundo a “ideia de um inconsciente pessoal ou dinâmico” (ZARETSKY, 2004, p. 5). São os prenúncios da ação afirmativa de identidades baseadas, entre outras coisas, em modos de existir como mulheres com vidas e anseios não mais apensos aos dos homens (maridos) ou como homens com preferências e fantasias fora da obrigação de reprodução (papai / mamãe / bebê). É quando a expressão do feminismo (a nova mulher) e da homossexualidade masculina desponta como pioneira de um inédito horizonte, o de uma “vida pessoal” (id., p. 44).

Mesmo tomando esta serventia da psicanálise na formatação das novas identidades que começam a desfilar suas feições com efeitos que ainda perduram em nossos modos de pensar e agir, há que registrar que ela não escapou de ser a “mitologia” do século 20 (assim como o marxismo foi sua ideologia). Sem o destacamento em seu corpus de conceitos rigorosos10 o bastante para sustentar a base axiomática de um pensamento consequente com os acontecimentos dos anos 1980 em diante, seu arcabouço não deixaria de ficar reduzido a mitemas copiados da sintomática social repetitiva da espécie humana (MAGNO [2003], p. 13s)11. A própria noção de espécie humana se modificara de modo nunca antes visto, e a ideia de identidade já não mais podia dissociar-se da inclusão cada vez maior de próteses (ALONSO, 2012) como uma assumida “segunda natureza”12, tecnologicamente aparelhada, sem a qual a espécie se via desarmada para desempenhar-se no mundo.

3. A pulsão, o revirão e a transformática

Na direção contrária à tendência mitológica acima mencionada, interessa-nos resgatar e potencializar o que Freud, em 1920, traz com o conceito de pulsão de morte, um impulso ou força constante que ele descobre no psiquismo. Qualifica-o como “de morte” por constatar que o sentido desse impulso é o de sua própria extinção. Hoje, com estudos do conceito e seus desdobramentos já bem avançados, cabe reforçar que a pulsão não se circunscreve ao psiquismo, mas concerne ao que quer que haja, ao Haver (conceito este que designa o campo do possível e inclui o que vier a haver neste ou em qualquer outro universo) (ALONSO, 2010). Esta ampliação da pulsão de morte para o conceito único e genérico de Pulsão (assim como claramente indicou Freud e re-conceituou Lacan) norteou uma grande reformatação da psicanálise nos anos 1980 que enfatizava sua aplicação a todos os acontecimentos (mentais, cosmológicos, políticos, sociais...), retirando-a, portanto, dos limites da ideia de um inconsciente apenas “pessoal” antes mencionada – como, aliás, sempre foi a perspectiva de Freud. Esta reformatação foi então denominada Nova Psicanálise13 e posteriormente, nos anos 1990, renomeada NovaMente.

A nova psicanálise concebe que, em seu desdobrar-se (e não há como impedir sua constância de desdobramentos), o movimento pulsional bate de frente com uma radical impossibilidade de se extinguir, de não mais haver. Desta impossibilidade absoluta ela extrai uma Lei genérica: Haver desejo de não-Haver (AÃ). Neste enunciado, temos ao mesmo tempo a requisição de não haver e a impossibilidade de sua consecução, pois o “não-Haver”, como o nome diz, não há de fato, só há como nome. Além disso, resulta dessa impossibilidade de passagem à extinção uma operação que a nova psicanálise chama de revirão14. Ou seja, como o movimento pulsional chega a um ponto extremo e inultrapassável (Ã), isto o faz revirar sobre si mesmo. Neste reviramento, indiferenciam-se15 as polaridades das formações que nele estão em jogo e elas se veem levadas a “retornar” – entre aspas, pois nunca saíram – ao Haver (A). O que há, então, são Formações do Haver desempenhando-se numa agonística sem saída possível do Haver. Ou seja: a aparência de nihilismo é, na verdade, uma condenação à existência.

Dado isso, a nova psicanálise vem propor uma teoria do conhecimento: a Gnômica (MAGNO [1991, v.I], p. 96; e [2000/2001], p. 59-95). É um campo de estudo e pesquisa sobre as condições e desempenhos da produção do conhecimento de qualquer ordem, não apenas aquele oriundo da produção científica como enfatizam as epistemologias. A gnômica visa mapear todas as ocorrências do conhecimento (suas relações, transformações, adequações e encaixes). Ocorrências estas que, como veremos, serão operadas segundo uma teoria polar centrada no conceito geral de formação. O que nos interessa diretamente é que o modo de operação da gnômica, denominado Transformática, é proposto como teoria psicanalítica da comunicação. Seu objetivo é: descrever, acompanhar e intervir nos processos de coleta e arquivamento das vinculações, transposições e jogos das formações (MAGNO [1996], p. 391-428; e [1998]).



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