Ústav románských jazyků a literatur



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Em menos de nada, o marialva atinge o cume desejado: portuguesidade como sinónimo de nacionalismo, de Raça. Raça, com maiúscula.33
Os conhecimentos adoptados através do estudo pormenorizado da literatura e da história podem comprovar-nos que o conceito de raça tinha sido fortemente enraizado na sociedade portuguesa, na qual predominava a figura do poderoso herói das grandes navegações, o colonizador das terras além do mar, privilegiado da sua aparente superioridade racial. Lado a lado está o inolvidável representante da fidalguia e da nobreza, nascido da casta aristocrática, o todo-poderoso defensor da pax ruris, cuja manutenção garantia a sustentabilidade do regime colonialista português, cuja persistência apoiava a ideologia do marialvismo e vice-versa.
O ensaio Cartilha do Marialva questiona todos estes aspectos histórico-culturais e através dos mesmos podemos voltar ao que foi alegado no princípio deste capítulo: o choque entre a figura do marialva e do libertino tem causas mais profundas quanto à análise cultural. Porque o libertino, que não representa, à partida, um símbolo da cultura portuguesa, é-nos apresentado, ou pelo menos aparece, como um elemento cultural importante na medida em que foi criada, pelo senso comum, uma variante da sua figura. O libertino, na linguagem popular, adopta uma conotação negativa da imoralidade e do cinismo, que põe a denominação bem distante do seu conceito primordial: “libertino” dizia-se acerca de um ser inteligente, racional, prudente com uma tendência para a vida bohémia. Mas o condicionalismo português forjou um outro conceito. O crítico brasileiro Luiz Costa Lima, cujas opiniões hão-de considerar-se imparciais, explica esta vitória simbólica do marialvismo conservador:
A conotação portuguesa de libertino reflete a vitória da classe social que, antagónica ao pensamento dos mesmos, os expulsou dos estudos da história e impôs o seu ponto de vista à área semática da palavra.34
Assim, tal como dissemos, mesmo que a personagem do libertino não representasse, como no caso do marialva, uma figura exclusiva da vida cultural dos portugueses de então, ainda assim aparecia como um elemento importante, tornando-se cada vez mais lúcida a noção de que um dia poderá vir a ocupar o lugar predominante do conservador marialva, uma vez desaparecidos os traços ideológicos então vigentes em Portugal.

Ainda Luiz Costa Lima aponta para a observação, feita por José Cardoso Pires, da permanência das marcas conservadoras da ideologia absolutista no sistema político português, justamente no período em que foi publicada a Cartilha. Segundo Costa Lima, estas referências aos acontecimentos em Portugal nos anos sessenta, bem como ao cotidiano em geral, conferem à obra um aspecto legível de panfleto político:


meditar sobre a sua situação, portuguesa, leva o autor a perceber as relações existentes entre a classe que no século XIII se impôs sobre os libertinos e os actuais detentores do poder político-económico português.35
Este tom crítico, que se sente ao ler o ensaio, podemos encarar como um dos atributos da literatura moderna de Portugal e, sabendo que Cardoso Pires era, de facto, um homem que inclinava para a esquerda política, somos capazes de relacionar este carácter de modernidade com o próprio autor:
José Cardoso Pires, que não é um crítico por formação, atingiu uma posição vanguardista que o incorpora à corrente crítica insatisfeita com os rumos ainda usuais e dominantes da investigação história e estilística.36
Esta postura crítica, marco da modernidade na literatura, defende a Cartilha pelo seu carácter panfletário, que lhe podemos, sem dúvida, conferir. Para além deste atributo, o texto reactiva uma remota tradição literária de que terá resultado, noutra ocasião, o clássico da literatura portuguesa - Arte de furtar, a obra atribuída ao Padre António Vieira:
Como a Arte de Furtar, a Cartilha do Marialva é mais do que um protesto político por ser um protesto de profundidade. Cardoso Pires chegou a este passo radicalizando a sua intuição de novelista, e a radicalizou ao compreender que uma interpretação literária ou, em termos mais vastos cultural, tem possibilidade de alcançar dimensões geralmente desconhecidas quando uma obra, um período ou um comportamento humano é estudado em relação à totalidade concreta que o envolveu, o penetrou e, por assim dizer, «sugeriu» a sua feição ou o seu comportamento.37
Através desta interpretação da leitura pode afirmar-se que José Cardoso Pires conseguiu na Cartilha do Marialva um levantamento rigoroso do carácter fundamental da cultura portuguesa. Ao ter radicalizado a sua postura de um novelista, o escritor toma o cargo de um crítico da cultura, uma postura nitidamente inscrita no discurso moderno da literatura portuguesa. Além disso, a análise da presente obra auxiliou-nos a perceber a capacidade reflexiva não só do próprio escritor português, como também do seu ensaio. Semelhantes aspectos, portanto, poderemos certamente observar também na sua restante obra de ficção. Sendo assim, a figura do marialva ser-nos-á apresentada praticamente em todos os romances de Cardoso Pires, com o destaque para a sua obra-prima O Delfim, cujo protagonista principal Tomás de Palma Bravo irá adoptar todos os aspectos frisados na Cartilha. Precisamente no romance referido transformar-se-á a exemplo «abstracto» do protótipo português: machista, tradicional, conservador, contrário a toda forma de evolução social, alimentado de um nacionalismo ilógico numa personagem concreta inserida num Portugal obsoleto e oprimido, mergulhado no ambiente abafado, onde é difícil de respirar, onde o Marialva apoia o regime totalitário, e onde o regime totalitário apoia o marialva.

A Cartilha, portanto, ajudou-nos a explicar o universo ficcional do José Cardoso Pires. Auxiliou o leitor a perceber os traços principais do cotidiano de então em Portugal, assim como o posicionamento do próprio autor quanto à importância do discurso oficial ao longo da história do país. Mas sobretudo reflectiu acerca da “mentalidade portuguesa e é o fiel da balança que separa o mundo da ambiências dos desocupados”.38



5. Uma década da ficção cardoseana: o conteúdo da Cartilha nos romances O Hóspede de Job, O Anjo Ancorado e O Delfim.

As três obras literárias de José Cardoso Pires, que iremos analisar ao longo deste capítulo, foram todas escritas nas diferentes datas – existe entre eles o espaço temporal de alguns anos -, no entanto podemos dizer que pertencem a uma mesma época. Isto é, pertencem a um período político e social problemático e controverso, período compreendido entre as décadas de cinquenta e sessenta, quando plenamente vigorava Estado Novo e já se faziam sentir as relevantes contestações ao regime salazarista. No âmbito literário, como resposta à crescente censura apareciam obras, cujo êxito quanto à passagem pelo exame prévio39 foi garantido pela inteligência com que estas tinham sido concebidas.

Não é, porém, apenas este dado histórico o critério de aproximação das três obras; nem mesmo o facto de terem um só autor é fundamental. A proposta de cada texto pode ser inferida da análise dos seus elementos mais pertinentes. No entanto, embora tematicamente diferentes, os três romances apresentam alguns marcos textuais semelhantes, de maneira que se pode considerar certa proximidade dos três livros.

Comecemos, portanto, com a observação do que existe de comum nos três romances para poder então denominar o relacionamento literário entre as presentes obras.




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