Ústav románských jazyků a literatur



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Na máquina totalitária sem independência entre os poderes, os braços da repressão trabalham em compromisso contínuo.22
É-nos portanto apresentado o Marialva como um verdadeiro protótipo do português: machista, tradicional, conservador, contrário a toda forma de evolução social, alimenta-se de um nacionalismo que o obriga a ver Portugal mediante as glórias remotas.

Regressemos, porém, à história para podermos encontrar as raízes do marialvismo, bem como a sua relação para com as tendências libertinas. Segundo José Cardoso Pires, a ditadura pombalina promoveu o choque destas duas mentalidades: a marialva e a libertina. Acontece que o reforço do Estado abalou de certa maneira o poder indiscutido e soberano da fidalguia da classe latifundiária, dedicando a margem de manobra histórica ao pensamento revolucionário, defendido pela figura do libertino. No entanto, as mudanças levadas a cabo pelo Marquês de Pombal são sobretudo reformistas, não tanto revolucionárias e, portanto, não tinham capacidade de alterar por completo a estrutura do sistema social português. De maneira que logo depois de Pombal, o marialva regressa do exílio forçado para poder eliminar os últimos traços do libertino.23

A estocada marialva procurava restruturar as hierarquias sociais e o sebastianismo é novamente alimentado na personagem mitificada do rei-arcanjo D. Miguel. Numa tentativa de se legitimizar como o “novo regime” o provincianismo marialva aliou-se ao baronato português, na medida em que a burguesia rural vai assumindo os valores e a ideologia da nobreza, o facto que foi comprovado pela aquisição praticamente em massa dos títulos e comendas.24

A permanência da ideologia provinciana e do privilégio de sangue ou de Casa no pano de fundo da cultura portuguesa faz com que a retomada das tendências libertinas se livre de um certo sabor ao passado que esta pode trazer:


A formação libertina, formação liberal, apenas pode ter hoje actualidade na medida em que a inactualidade da ordem provinciana continua instalada no nosso século, mesmo que submetida a adaptações de recurso. Aqui, nesta ponta da Europa, as actualizações de superfície a que o Portugal Velho se viu forçado pouco ou nada perturbaram as estruturas mentais e sociais dos dirigentes, porque o País não dispunha de um corpo de Pensamento que lhe desse unidade.(...) Ao passo que nas Grandes Europas a tradição cultural há muito tinha ultrapassado a fase da reacção feudal contra a Revolução Francesa (...) em Portugal o irracionalismo esbracejava, e esbraceja, em sacudidelas atordoadas. Na esperança messianista de que alguma salvação os anos lhe hão-de trazer.25
Além disso, conforme podemos observar, a sociedade patriarcal cumpre as exigências da ideologia burguesa e estende o seu autoritarismo a todas as formas de relações humanas. Eis então a supremacia do provincianismo, tão questionado ao longo da obra do José Cardoso Pires:
Os costumes e as instituições adquiriram assim uma aparência «actualizada», um espírito de equilibrado bom senso nas relações das forças nacionais que, no fundo, é ainda uma manifestação do anti-reformismo que está na madre da ideologia provinciana.26
Eunice Cabral, na sua tese de doutoramento, faz referências ao mundo sociológico da personagem em análise e diz que em Cartilha de Marialva:Portugal, em comparação com a Europa, afirma-se pelo negativo, com passo desacertado com a História das sociedades ocidentais e em que o Marialva (que é o antilibertino português) pontifica. De facto, o Marialvismo é um profundo desdém (um não) por todas as coisas de espírito, sendo um provincianismo cultural e ideológico que se expressa pelo culto do bom senso, do respeito aos poderes que Deus pôs sobre a terra.”27

Resumindo, portanto, podemos concluir que a figura simbólica do marialva, caracterizada no ensaio de José Cardoso Pires, recoloca a ordem rural vigente na ideologia do feudalismo com os seus aspectos de patriarcalismo que vem completando o significante “pax ruris” posta em causa pelo escritor, não só em Cartilha do Marialva mas também nas outros obras de ficção, que posteriormente iremos analisar também.

O conceito do marialvismo, o marco determinante da cultura portuguesa, está, naturalmente, presente, além da literatura, também na linguagem popular a par dos discursos oficiais, ou seja, em todas as manifestações discursivas que se podem atribuir a um mundo cultural. No espaço literário português existem vários exemplos da personagem do Marialva, cuja actuação começou a ser discutida nas obras portuguesas, sobretudo com o início do neorrealismo. O destaque vai para o Diogo Relvas do romance Barranco de Cegos da autoria de Alves Redol, que influenciou a obra de Cardoso Pires. Podemos mencionar também as Novas Cartas Portuguesas, o manifesto feminino português em que o Marialvismo foi também amplamente revisto. Na figura do Barão de Branquinho da Fonseca podemos observar também vários aspectos do Marialva provinciano que em nome da sua própria manutenção utiliza o seu status social adquirido antes do nascimento em função da estirpe familiar da qual ele provém.

Se estas obras que acabamos de mencionar assumem uma atitude de crítica relativamente à ideologia marialva, os escritores que José Cardoso Pires cita em Cartilha, deixam-se, ao contrário, absorver por ela, retratando no seu discurso literário as noções então vigentes na sociedade portuguesa, sendo eles apenas duplicadores do senso comum. De acordo com o pensamento de Cardoso Pires, é o que acontece com Eça de Queiróz, Júlio Diniz, Almeida Garrett assim como com a poesia de Teixeira de Pascoaes. Todos eles de uma certa forma defendem e alimentam os mitos relacionados com o irracionalismo patriarcal, com o marialvismo, com as posturas conservadoras tão vigentes na cultura e sociedade portuguesa:


Uma vista rápida pela nossa literatura contemporânea poderia servir de primeira sondagem ao espírito marialva que nela ainda paira. No sebastianismo de Garrett em “Frei Luís de Sousa”? No Pessoa da “Mensagem”? Em Pascoaes? Sem dúvida que sim. Mas há outras incidências irracionalistas a averbar nestes e em muitos mais autores contemporâneos, por vezes até nos de ficha revolucionária mais enaltecida. Por exemplo, em relação a alguns resíduos medievais que se conjugam na configuração das suas heroínas.28

Desta maneira a literatura portuguesa reforçou a manutenção e a propagação das características dominantes nos discursos oficiais, como o messianismo, a maneira de ser português, a própria portuguesidade. A Cartilha vem informar o leitor acerca das obras literárias que reivindicam o marialvismo como conceito, mediante da utilização das “dez palavras-passes”:


Por seu lado, com o abracadabra das 10 Palavras (“o ideal português, na sua expressão filosófica, movimenta-se sobretudo em redor das dez palavras-chave ou situações-limite: mar, nau, descobrimento, viagem, demanda, oriente, amor, império, saudade e Encoberto”), os saudosistas de 1960 constroem o seu sistema decimal dos símbolos, procurando concretizar um jogo em que os mitos se explicam por outros mitos e se argumentam com intuições de sebastianismo (“que é o nosso modo de resistir à adversidade”) ou através do Sonho do Quinto Império (“apenas reivindicado pelos Portugueses, e de que é símbolo a coroação ritual do Imperador do Espírito Santo”) – O que é o Ideal Português, pp. 220 e 236 ed. Tempo, Lisboa 1963.29
Esta mesma tese ainda diz que os actos decisivos da vida nacional portuguesa são a independência, os descobrimentos e a restauração.30
Como pudemos entender, a independência e os descobrimentos encontram-se estritamente ligados ao sentimento de nacionalismo, até porque representam as “garantias” da soberania portuguesa. No pensamento de José Cardoso Pires a ideologia nacionalista e o conceito da portuguesidade formam uma dupla inseparável, pois a portuguesidade se define pelos aspectos culturais e tradicionais que o generoso povo guarda inconscientemente.31 No entanto, este levantamento não acontece pura e simplesmente por coincidência, o marialvismo vem servir-se do descobrimento das tradições portuguesas para o fim do seu exclusivo proveito:
Não tarda que o marialva enriqueça o seu arsenal demagógico (...), reafirma-se a superioridade da chamada sabedoria popular sobre o conhecimento científico, a ingenuidade, a rudeza ou o culto do tosco revalorizam-se, a adoração do primitivo não tarda.32
Através destas observações sociológicas o autor salienta:

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