Ústav románských jazyků a literatur


Características da obra de José Cardoso Pires no contexto sócio-cultural



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2.2 Características da obra de José Cardoso Pires no contexto sócio-cultural


Para entender o percurso literário de Cardoso Pires será necessário salientar alguns dos traços elementares das escolas literárias em Portugal na primeira metade do século XX, bem como contexto sócio-cultural de um país mergulhado numa ditadura militar – Estado Novo.

Após as duas primeiras turbulentas décadas do século XX, em que a sociedade portuguesa permanentemente oscilava entre as tendências monárquicas e republicanas, e depois da forçosa necessidade de instalação de um regime que pudesse estabilizar a situação política e iniciar as reformas para tirar o país do enorme atraso quer económico quer cultural em relação aos demais países europeus, Portugal involuntariamente optou pelo regime ditatorial, representado pela figura emblemática do Presidente do Conselho de Ministros António de Oliveira Salazar que, tendo conseguido estabilizar a situação económica do país, perante a impressionada sociedade à beira da falência fez de si um salvador da nação portuguesa. Este seu desafio pessoal foi possibilitado não só devido ao facto de Portugal ter sido um país mais subdesenvolvido da Europa, mas também devido às tendências nacionalistas e fascistas que se foram alastrando por quase todo o território do velho continente. Iniciada a Segunda Guerra Mundial, Salazar, na qualidade de um carismático chefe do governo, foi capaz equilibrar as pressões vindas das opostas vertentes do conflito, não permitindo que Portugal entrasse na guerra. Desde então a nação lusa teve de se habituar a viver num país sem aliados, condenado a uma solitária caminhada de quase cinquenta anos sob o lema «orgulhosamente sós»1, durante os quais o fosso económico e cultural aumentou ainda mais. Estabelecido o regime opressor, rapidamente se instalou um verdadeiro clima abafado que pouco a pouco foi deixando marcas na sociedade portuguesa.

É evidente que o reflexo desta situação fez-se sentir na arte, sobretudo no campo da ficção literária. A instauração da ditadura militar em Portugal coincidiu com o aparecimento da segunda geração modernista reunida à volta da revista Presença, que pouco ou nada se preocupava com as carências dos portugueses e os escritores desta época salientavam mais a relação do indivíduo com o mundo metafísico, com a natureza ou retratavam o lado subjectivo e psicológico do homem. No entanto, é necessário frisar que já alguns dos Presentistas optaram pelas marcas de uma literatura social, como é o caso de algumas obras de Branquinho da Fonseca2 que anteciparam o aparecimento do neorrealismo na literatura portuguesa, cujo objectivo principal era tratar dos problemas sociais dos portugueses. O início a esta escola literária deu a obra Gaibéus3 de Alves Redol, o escritor considerado como o mais revolucionário dos neorrealistas.

Quando José Cardoso Pires inicia a sua carreira literária, o movimento neorrealista encontra-se já em pleno florescimento como uma expressão artística com um dos seus objectivo principal posicionar-se contra o Realismo da estirpe burguesa do século anterior, para além da oposição artística relativamente à geração Presença. A corrente Neorrealista tenta observar a evolução da sociedade. Vê o homem não mais determinado pelos factores que o condicionavam, mas com as possibilidades de alterar o espaço onde vive, uma perspectiva totalmente alheia à óptica do naturalismo, criticada por Alexandre Pinheiro Torres:
Como considerar a Sociedade constituída por fenómenos

sociais desligados uns dos outros, e sobretudo imutáveis

sem possibilidades de ulterior evolução? A recusa da dialéctica da sociedade é uma omissão grave do Naturalismo4
Sob a perspectiva naturalista, as relações sociais são estáticas, enquanto que os neorrealistas consideram-nas dinâmicas, pois entendem que o homem é suficientemente dotado de capacidade para poder transformar o contexto no qual está inserido. O determinismo tão trabalhado pela corrente realista-naturalista, constituía para os neorrealistas um verdadeiro obstáculo:
O neorrealismo pressupõe um conhecimento dialéctico da realidade exterior, ou seja dos factores de uma mudança real de carácter qualitativo, a qual só se consegue pela união de esforços, ou melhor, pelo somatório de impulsos individuais canalizados em uníssono para que essa mudança em bloco seja conseguida.5
Esta enorme garra literária de mudar o ambiente social de acordo com a ideologia esquerdista foi um marco principal do movimento. Achamos pertinente frisar que muitos escritores da primeira fase do movimento confundiram arte literária com a propaganda política, criando a sensação de que a obra neorrealista seria exclusivamente panfletária, uma baixa arte de carácter documental. Na verdade, surgiu uma polémica à volta da estética dos textos, pois muitos equivocadamente julgavam que os maiores inspiradores do movimento – Karl Marx e Friedrich Engels – desprezavam o esteticismo textual a fim de subordinar o discurso, seja oral ou escrito, aos objectivos políticos que se propunham alcançar.

É necessário, porém, afirmar que os teóricos do socialismo nunca tentaram fornecer fórmulas sociais e económicas através dos quais se pudesse avaliar a qualidade das obras de arte.6

O neorrealismo foi fortemente criticado por representar uma corrente ligada somente aos problemas sociais, o facto que se deve principalmente à actuação dos autores da fase inicial do movimento, pois estavam convencidos de que o neorrealismo poderia ser uma eficaz ferramenta no combate ao fascismo cujas consequências começaram a sentir-se por toda a Europa. Os neorrealistas ingenuamente pensaram que seus textos incitariam as massas, iriam conscientizá-las da exploração frequente a que foram submetidas, no entanto a sociedade oprimida não era capaz de receber a mensagem dos neorrealistas. Pois para poder recebê-la, era necessária que fosse alfabetizada. A conclusão semelhante faz também o Libertino Cruz na sua análise crítica:

Se por um lado, o analfabetismo não deixara de ser uma moeda corrente em Portugal, por outro lado escasseavam ou quase não existiam, entre as camadas populares, as moedas necessárias para a aquisição de livros. Toda a boa vontade dos escritores era assim letra morta e inócua.7

A crítica ao movimento neorrealista persistia mesmo depois de ter ultrapassado a sua

fase inicial, até porque o legado das marcas de primeiras obras publicadas foi demasiado forte.

Perante isso, os conhecedores da arte neorrealista participaram da polémica que se tinha criado à volta do movimento e lançaram-se publicamente em sua defesa. Tais intenções podemos observar nas palavras de Mário Dionísio:

Os valores estéticos são os valores. São elementos sem os quais não existe arte. Simplesmente, pensa-se agora que os valores estéticos não existem em si próprios, que há qualquer coisa de mais vivo e mais profundo para que o artista deve viver. Passar sem eles, no entanto, de modo algum. Os problemas técnicos da literatura e da arte preocupam grandemente os novos escritores, eles são afinal, a sua ferramenta, tanto mais útil quanto mais afinada...8


Efectivamente, a tarefa dos neorrelistas era bastante complexa, pois os problemas sociais deveriam ser tratados de maneira hábil, que ludibriasse a censura e ao mesmo tempo produzisse algum efeito positivo, ainda que a longo prazo.

Entre os grandes escritores do movimento neorrealista destaca-se também José Cardoso Pires. Embora se desviasse posteriormente desta corrente, os temas primordiais dos neorrealistas sempre fizeram parte da sua obra literária, pois «pretendia (como eles), expor, desmascarar e denunciar o absurdo de um sistema, a diferença de classes, a reacção dum regime, a injustiça e a disparidade dos aglomerados sociais, assim como as relações entre indivíduos do mesmo grupo ou de meios diferentes».9 Na sua obra podemos observar vários conflitos quer sócio-económicos quer culturais motivados pelos mecanismos de poder. Encontramo-nos com os personagens cujo papel é formado pelas tentativas por vezes ambíguas, de um lado pela manutenção do poder, de outro lado pela clara oposição, buscando a contestação e a possível ruptura das estruturas estabelecidas. Cardoso Pires, ao criar histórias exemplares, amplia o universo tematizado, ultrapassando as fronteiras do real. Podemos afirmar que os aspectos sócio-económicos e culturais abordados nos seus livros fazem referência não só ao contexto histórico de Portugal, mas a sua ficção, embora parta exclusivamente de uma análise da sociedade portuguesa, poder-se-ia aplicar a qualquer outra sociedade onde se revelassem a exploração e a miséria humana.

José Cardoso Pires coloca o seu leitor perante as histórias das pessoas, cuja alienação forma um factor dominante, ou seja, mesmo tendo consciência de que as transformações sociais acontecem por meio de vários processos evolutivos, que por vezes levam imenso tempo – ao contrário de muitos neorrealistas, que acreditavam numa revolução de um dia para o outro – indica-nos o possível caminho para a tão desejada liberdade através da conscientização das personagens das suas obras. Este traço consideramos fundamental, tendo em conta o espaço sócio-económico de Portugal, que naquela altura oferecia escassas oportunidades de autorrealização, a realidade que se dá ao lermos alguns dos seus romances escritos antes do 25 de Abril. Podemos até afirmar que Cardoso Pires transmite uma certa esperança no futuro ao dar a algumas personagens a possibilidade de contestar o próprio poder, ou, pelo menos, de reconhecer ser explorado. O seu optimismo é, porém, contido de uma reflexão consciente sobre os acontecimentos lamentáveis com que vivia a sociedade portuguesa.

Interessava-lhe, sobretudo, arregaçar as mangas e defender a classe oprimida com o fim de devolver aos portugueses a determinação de lutar pelos seus direitos frente à uma máquina autoritária. Seguindo este traço neorrealista, teve de adoptar uma linguagem extremamente sutil e contundente, pois para poder transmitir ao país a tal esperança para o futuro foi necessário vencer o outro valente adversário – a censura. Justamente por isso Cardoso Pires serviu-se de uma linguagem simbolicamente trabalhada para o fim que se propunha alcançar : o progresso da sociedade por meio da destruição de mitos e mediante a conscientização do homem.




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