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Libertação e conscientização dos oprimidos



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5.5 Libertação e conscientização dos oprimidos

Após a leitura de várias obras de Cardoso Pires, pode verificar-se que algumas das personagens alienadas apercebem-se da opressão de que sofrem e adoptam uma postura consciente da necessidade de alterar a situação em que se encontram. Na maioria das vezes, o caminho para a liberdade está condicionado pela relutância da classe dominante em delegar o poder nas mãos da camada subalterna. Esta vê-se obrigada unir as forças dos seus membros para ser capaz de vencer o potente adversário. Não obstante, a união de forças dos mais fracos nem sempre garante a vitória.

Em Hóspede de Job, os camponeses adoptam a consciência de que é indispensável uma revolta para inverter a situação precária, no entanto direito de manifestar-se é impossibilitado pelos agentes da polícia que levou presa o líder do grupo. Embora os populares tivessem revelado uma vontade de revoltar-se, mostrando, desta forma, um determinado nível de conscientização, as suas atitudes tinham sido reprimidos:
Na véspera, as mulheres tinham marchado sobre a Vila e, todas em coro, apresentaram-se na Câmara. Pediam pão para casa, trabalho para os maridos.

«Temos política», disseram os escriturários à boca pequena. E o sargento Leando, do GNR, caçou a mais nova dos Sotas e trancou-se com ela no posto:«Ora conta, mocinha. Que maluqueira deu agora nos de Cimadas?»

Correndo as ruas, e de porta em porta, as camponesas de Cimadas chamavam as da vila, que eram mulheres como elas, com filhos e necessidades. (...) Com palavras de toda a espécie e principalmente com os seus soldados, Leandro conseguiu afastar as mulheres para a estrada de Cimadas.111
Neste conflito de classes adversárias, a actuação de Floripes, bem como das outras mulheres está possibilidada pelo elevado nível de conscientização, tentando garantir as condições dignas para os habitantes de Cimadas. Nota-se, porém, que esta atitude ainda não visa qualquer alteração da estrutura da sociedade, não apresentando marcas do engajamento político. Trata-se apenas do direito à adquisição de alimentos.

Um outro episódio oferece-nos a possibilidade de observar o estado de consciência dos camponeses oprimidos, quando jogam cartas na taberna e espreitam os abusos por parte das forças militares. Ao mesmo tempo tecem conversas acerca do futuro da aldeia:


O velho considera tudo isto enquanto os jogadores que estão com ele continuam de cartas na mão, empenhados em tudo menos no jogo. Preocupam-se com os cavaleiros de Leandro, com a água que é de todos (...)

Diante do baralho, mas sem mexerem uma carta, os camponeses conferenciam no tom dos conspiradores em segredo. Não falam dos guardas porque já venceram a realidade que eles são. Discute, para longe dessas presenças e desses cavalos, o futuro de Cimadas – isto é, um balde, um largo com vida, aquilo que tem de permanecer.112
Assustados pelas espingardas dos militares, os populares ficam quietos na taberna, discutindo planos em prol da gente oprimida. Ao menos vigilam e contestam a situação desagradável, sendo conscientes da esperança de melhoria.

No que diz respeito ao processo de conscientização das personagens na ficção cardoseana, consideramos o romance Delfim como a obra mais importante no sentido de constituir um verdadeiro elemento profetizador da revolução, não apenas social mas também política. Neste livro, um conjunto de representantes da Gafeira, chamado os Noventa e Oito, decidem, após a fuga do Engenheiro, apoderar-se da pérola da aldeia – a lagoa –, pois julgam-se donos legítimos da mesma. Ao longo de vários séculos, os herdeiros Palma-Bravo reclamavam a posse daquela zona, dominando a lagoa e impedindo toda a gente, sob o ameaça de castigo, a pescar num local que, à partida, deveria ser de todos por direito natural. Desta maneira, a classe dominante, apresentada pelo clã da família do Engenheiro, tinha o seu poder garantido. É preciso, porém, afirmar que a mudança da posse de lagoa acontece somente depois do desaparecimento de Palma-Bravo, portanto, estamos perante uma pura coincidência devido à qual o grupo dos Noventa e Oito – consciente de uma possível mudança social – foi capaz de tomar posse da, até então, propriedade exclusiva do Delfim. Caso não houvesse este acaso, a Gafeira junto com a lagoa, continuava a ser dominada pelos Palma-Bravo, permanecendo a situação dos gafeirenses inalterada, tal como se pode observar no seguinte trecho:


«Quem é que alguma vez sonharia poder ficar com a lagoa?», perguntava para longe, para o largo.«Verdade que não tivemos o senhor Engenheiro a fazer-nos frente, mas quem sonharia? E só para espingardas de fora já passei vinte e quanto licenças.»

Em tom de vossa excelência, descreveu-me as muitas dificuldades que vencera, ele e os noventa e oito, para se reunirem em cooperativa à face da lei. Os olhos luziam-lhe por entre a complicação dos requerimentos...113
Veja-se o entusiasmo com que o Regedor da aldeia processa as autorizações para a caça na lagoa livre, que representa um símbolo de um tempo novo, de uma mudança das estruturas social. Regedor, na frente dos representantes do povo, afirma com o orgulho:
«A pendência foi resolvida na máxima legalidade», gabava-se ele a todo o momento. «Nada de política, nada que não fosse rigorosamente dentro da lei.»114
Em relação aos acontecimentos neste romance pode afirmar-se que já existe um pequeno marco de uma classe revolucionária, consciente da necessidade de mudança das políticas sociais, revelando um certo progresso neste sentido. No entanto, há-de levar-se em consideração que este progresso positivo da sociedade foi possibilitado pelo desaparecimento da classe dominante, devido a sua própria decadência. A mais importante mensagem do romance está ligada a uma perspectiva futura, a um vislumbramento de um tempo novo que, certamente, está por vir a Gafeira. E, não esqueçamos, Gafeira é Portugal.




















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