Ústav románských jazyků a literatur



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É natural. Vivemos numa época em que cada qual fala para si mesmo na companhia de muitos outros).102

Com a análise das personagens burguesas, José Cardoso Pires pretendia não apenas esboçar a rivalidade histórica entre estes grupos sociais (proletariado contra burguesia), mas também revelar determinados aspectos relativamente à alienação da burquesia.

Desde o momento em que João conheceu Guida na casa de Parede, começou a examiná-la, raciocinando (através das posturas dela) acerca da vida inútil e vazia à qual a burguesia se entrega:
À rapariga tremiam-lhe os dedos. Tinha-os queimados do tabaco, e eram secos, maltratados, até. Isso queria dizer, insónias, arrelias de alma, vida de pessoa só. Percebendo os dedos, lendo o que neles estava escrito, o homem, ao findar o serão, falou-lhe como se deve falar a uma rapariga assim:

« E se déssemos uma volta? Estamos enfartados de cigarros, talvez nos fizesse bem refrescar103
Guida passa o tempo conversando consigo mesma ou com as brincadeiras de inventar diferentes versos, estéril no seu mundo encerrado, ancorada no tempo infinito, enquanto ao mundo lá fora fazem falta pessoas dinâmicas e conscientes de si mesmas e das suas capacidades para poder fazer frente às necessidades impostas pela época em que o país vive. Contudo, o casal mantém um diálogo totalmente inútil, da mesma maneira como nos indica a conversa dos monges a falarem sobre o sexo dos anjos, publicada no epígrafe do romance:
Assim foi que, estando a cidade sitiada e o valoroso Constantino defendendo-a nos baluartes, dentro dela os monges continuavam em discussão acesa sobre qual seria o sexo dos anjos...

«Notícia do Cerco de Bizâncio»


Guida e João, revelando os traços individualistas, alheios aos problemas económicos dos habitantes da aldeia, os dois desligam-se dos conflitos sociais, não se demonstrando interessados em converter a situação. No entanto, João como um ser consciente, revela uma certa inquietação ao perceber os sinais da miséria do povoado São Romão, pois considera-se, parcialmente, culpado pela realidade crua dos habitantes:
Será justo aceitar o melhor duma vida em decomposição? Que diz você, Guida?”

Ela, também com os olhos na estrada, respondera: “Que remédio. Não é o que todos fazemos?104
A resposta de Guida corresponde ao cruzar dos braços e proceder com a mesma postura passiva, sendo esta para ela uma solução muito mais pertinente e cómoda. Todavia, a inexistência da motivação para as suas actividades assim como o marasmo em que está inserida, remetem-na para o campo de fastio e insatisfação, os sentimentos mútuos observados nos indivíduos pertencentes à classe burguesa.

Segundo a nossa observação, Cardoso Pires procura examinar as atitudes burguesas por dentro (da mesma forma que prosseguiu com o proletariado), não se concentrando somente na definição dos aspectos que determinam a oposição destes dois grupos sociais. Isto possibilita a análise de vários efeitos da alienação humana em diversas camadas da sociedade.

No romance Delfim o escritor critica o comportamento burguês mediante a figuração das personagens Palma-Bravo. O narrador-personagem, escritor do livro, reproduz algumas cenas que vive junto à família tradicional, destacando características peculiares da camada a que pertencem. Uma delas era a perigosidade da intenção de criticar qualquer representante da burguesia:
E o Engenheiro, muita estroinice, muita estroinice, mas portas adentro cuidadinho. Ah, sim. Portas adentro não admitia faltas de respeito, fosse a quem fosse.105
Do ponto de vista da imagem tradicional da burguesa em Delfim aparece-nos o cenário emblemático da representação mediante os objectos e acessórios, que fazem sobreviver o espírito nobre da fidalguia portuguesa. Do seu primeiro encontro com os Palma-Bravo o narrador revela:
Dois cães e um escudeiro, como numa tapeçaria medieval e só depois se apresenta o amo em toda a sua figura: avançando na praça com a esposa pela mão; blazer negro, lenço de seda ao pescoço.106
Neste curto trecho o autor nomeia todos os objectos que conotam aristocraticamente a sua figura: a mulher, o servo, o automóvel e os cães. Quatro elementos que sustentam a imagem poderosa do Delfim porque, através deles, o Infante reafirma a sua própria força e o seu aparente direito à propriedade, tal como afirma Eunice Cabral:
O corpo de Tomás Manuel, o Engenheiro é prolongado nas posses, nas propriedades (quer de objectos quer de pessoas) que existem em função desta pessoa romanesca, fazem sentido e formam um universo próprio. É o caso da criada Aninhas, de Domingos, do Jaguar, dos cães que se constituem como prolongamentos de corpo social desta personagem.107
Afastados de todos, encerrados no seu mundo nobre, representado pela sua mansão da lagoa, o Tomás Manuel e a sua esposa, observam com descanso os problemas graves dos habitantes da Gafeira, até porque se consideram superiores a estes. No entanto, aniquilam-se mutuamente num relacionamento degenerado, proveniente da alienação de que são vítimas.

O Engenheiro julga-se o proprietário exclusivo da lagoa ao revelar a intenção de manter a posse dela: “Se até agora foi a minha família quem governou a lagoa, não hei-de ser eu quem a vai perder108, impedindo os gafeirenses a pescarem na lagoa, a actividade que constitui a única maneira da sua sobrevivência. Veja-se uma relação do homem para com a natureza, sendo esta a posse exclusiva da maioria dominante, quando, na verdade, na extracção das riquezas naturais deveriam participar todas as camadas. Ou seja, se se determinados grupos sociais vêem impossibilitados de explorar o que a natureza lhes preservou, esta passa a dominá-los. Verificamos que a falta de acesso à lagoa tem consequências graves para os habitantes da Gafeira, pois a escassa produção causa fome e desemprego, o que leva os gafeirenses a emigrarem para o estrangeiro em busca das melhores condições de vida:


...blusões de plástico recebidos de longe, duma cidade mineira da Alemanha ou das fábricas de Winnipeg, Canadá; moças de perfil de luto – as viúvas-de-vivos, assim chamadas – sempre a rezarem pelos maridos distantes...109
Observamos, portanto, que a alienação do homem se dá também em relação à natureza, uma vez que este não saiba ou não possa explorar os recursos naturais.

Em Anjo Ancorado os populares do povoado de São Romão encontram-se em alto nível de alienação, estando completamente à mercê da natureza. Infelizmente, não dispõem de nenhuns meios para poder extrair e aproveitar os recursos necessários da sua sobrevivência:


...pode S. Romão namorar cá de cima as marés que nada lucra. Pode conhecer, como conhece, os ventos e assistir à passagem dos cardumes, mas quê?, faltam-lhe barcos e armações de cabo grosso para discutir com águas tão fortes. (...) Nestas condições, a gente dali só se atreve a ir lá abaixo na vazante, quando o mar lhe volta costas. Anda aos sobejos, contenta-se com um ou outro polvozito esquecido nas fisgas das rochas ou com camarões de poças. E com uns caranguejos famintos, negros e rápidos – os pelados, como lhes chamam na costa.110
Note-se então que, enquanto os pescadores locais limitam-se a apanhar apenas aquilo que encontram, não apresentando qualquer domínio do homem sobre a natureza, o visitante João desce ao fundo do mar com a sofisticada ferramenta dedicada exclusivamente à pesca submarina e trava um combate com um mero - fabuloso peixe segundo o narrador, vencendo-o. Companhias de pesca assistem ao acontecido de fora com os barcos possantes. Ao mesmo tempo, Guida testemunha a árdua perseguição do velho a um perdigoto. João, num passeio dominical, desgasta-se fisicamente pelo desporto, enquanto o velho quase que arrisca a sua própria vida para poder garantir o sustento de apenas algumas horas. Eis o contraste das situações lamentáveis de que o leitor é a testemunha com o direito de arbítrio.

Nos trechos acima referidos podemos observar a constante preocupação do autor em reflectir os aspectos desumanos de uma sociedade capitalista do regime ditatorial português. Na relação entre os exploradores e explorados, Cardoso Pires frisa o conceito de alienação humana, cuja realização afecta todas as camadas da sociedade. No entanto, o destaque vai para os detentores do poder que, explícita ou implicitamente no seu universo ficcional, vivem em circunstâncias de extrema alienação. A preocupação com a manutenção do seu status social, bem como com a acumulação dos bens materiais, faz como que estes percam a sua autoconsciência, vivendo à mercê da preservação do seu poder financeiro, a omnipotente força do capital que os comanda.





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