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A alienação humana na óptica cardoseana



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5.4 A alienação humana na óptica cardoseana

Toda a alienação do ser humano não é, por conseguinte, senão a alienação da consciência de si.” * Karl Marx


Com o conceito de alienação aparece Karl Marx ainda em meados do século XIX, ao ter levantado a crítica relativamente às políticas burguesas de então. Posteriormente, este conceito passa a ser bastante conhecido, tornando-se centro dos interesses no que diz respeito aos estudos científicos no campo da sociologia. Segundo a concepção marxista, a tal alienação provém da distribuição das actividades humanas, sobretudo do trabalho, sendo este o motivo crucial do conflito na luta de classes, já que na sociedade capitalista o progresso da classe alta depende da exploração da classe subalterna.93

Para esclarecer o essencial deste conceito, citamos o pensamento do historiador brasileiro Leôncio Basbaum que, acerca da alienação humana, afirma: “A alienação é, antes de tudo, uma forma de relação entre os homens e determinados objetos ou coisas que lhes são exteriores. Essa forma de relação não é natural. Ela surge em um determinado momento, no processo do desenvolvimento histórico das sociedades humanas. Embora esse desenvolvimento seja criação e exteriorização dele próprio, o homem é profundamente afetado pelo processo: aliena-se.94

De extrema importância, para entender a visão cardoseana em relação à alienação, consideramos a parte em que Basbaum raciocina acerca da influência do trabalho para com o desenvolvimento do homem:
...homem tornou-se escravo de seus deveres sociais. Engajou-se no trabalho, isto é, pela sua actividade humana, na luta pela sobrevivência, passando de sujeito a objecto, de homem livre a «coisa» do outro, para o qual trabalha e de quem depende. Nesse processe, anulou-se como pessoa.95
O trecho acima referido engloba os aspectos principais observados nas obras de Cardoso Pires. Na verdade, o escritor baseia a sua ficção, sobretudo até ao 25 de Abril, na visão marxista das relações sociais. As narrativas em análise refletem vários marcos da actividade humana. Relativamente a isto, Maria Lúcia Lepecki diz:
Dentro dos antagónicos espaços das classes sociais, desenham-se as personagens, em cuja actuação se reflectem as leis dos movimentos opostos das classes enquanto tais e as leis dos contraditórios movimentos que, numa sociedade classista, existem sempre nos representantes da burguesia e, com frequência, nos do proletariado, por força da própria violência (latente ou explícita) que exerce, sobre o dominado, o conteúdo ideológico, erigido em valor natural da classe dominante. Movimento de classes e movimentação de pessoas dentro de cada classe fundem-se para que os textos espelhem distintos graus de consciência e de alienação.96

A consciência disso encontramos no conto Carta a Garcia, onde os soldados acompanham os presos até a prisão. Limitados a obedecer às ordens dos próprios superiores, ignoram a verdadeira função do trabalho que executam, mantendo-se ao serviço da classe dominante. Influenciados pelo sistema, representam apenas figuras nas mãos dos poderosos. Repare-se na intenção do escritor que fez omitir os seus próprios nomes. São indivíduos anónimos, cuja vida transmite o carácter desumano da sociedade de que estes fazem parte. A subconsciência deles obriga-os a cumprirem as leis, desconhecendo que estas foram estabelecidas conforme o interesse da classe dominante. Tendo em conta que a lei é uma ferramenta ideológica dos poderosos, verificamos que a alienação dá-se, portanto, em parceria com a ideologia em vigor. No universo ficcional de José Cardoso Pires, cujas personagens representam, efectivamente, os seres alienados, as ideologias executam-se com mais relevo e, desta forma, dificultam a conscientização dos grupos explorados.

Este marco encontramos no conto Estrada 43, da colectânea Jogos de Azar, em que os operários realizam uma actividade alienante. Apesar de estarem a produzir os elementos indispensáveis, não são capazes de conhecer o verdadeiro valor da sua mão de obra quanto à extracção dos recursos naturais. Sob o regime autoritário dos seus patrões, os operários trabalham nas condições precárias:
Em vão os homens dardejam olhares desvairados à procura de uma paragem de alento. Em vão. Atropelando-se naquele inferno, correm atrás do alcatrão fundido, não vá ele endurecer, atolados nessa massa que se derrama como um rio de lava em fogo.97

Da mesma maneira também nos romances Hóspede do Job e Delfim nos deparamos com as personagens nas situações deploráveis. São os operários e os camponeses espoliados pela dominância irreversível da classe alta, objectos manipuladores nas mãos do poder. Concretamente, há uma passagem de Hóspede de Job em que o narrador transmite o estado dos operários humilhados, tratando-os por «rebanhos», com o nítido objectivo de denunciar a precariedade do trabalho deles:


Por isso regressaram às suas terras, atravessando as vilas em rebanhos de silêncio. Tinham chegado a cantar (os ranchos de algarvios, sobretudo esses), viajando de concertina e flor no chapéu e esperançados em dias de pão e de risonha camaradagem, e afinal voltavam de orelha murcha, renegados.98
Em O Delfim o narrador fornece-nos a visão de uma sociedade nas mãos de escassas pessoas que detêm o poder sobre o país (Portugal) inteiro. Este relato adopta uma clara ironia, com o objectivo de criticar o transmitido aos telespectadores através da televisão:
Arrumado a um canto, o televisor vai desenrolando imagens sem som, figuras que se movem como dentro de um aquário – padres em procissão avançando para nós de boca aberta, militares a darem ordens, políticos ao microfone...padres, militares, políticos.99
A consequência directa desta imagem mostrada pelo canal televisivo é a existência dos «bichos silenciosos»100, ou seja, da sociedade oprimida, incapaz de reclamar os seus direitos perante as autoridades do país. Neste contexto, o bicho silencioso é a tal lagartixa como a imagem simbólica de um português oprimido «que habita ruínas da História; que cumpre com uma existência entre pedras e sol, e se resigna».101

José Cardoso Pires preocupava-se também com a análise da alienação presente na classe burguesa. Em Anjo Ancorado, Guida ignora a realidade histórica de que faz parte, ficando totalmente alheia a tudo o que está à sua volta. Permanece isolada no mundo próprio dela e não se preocupa com os problemas existenciais dos moradores de São Romão. Guida é um anjo ancorado a sobreviver na terra do homem. Ela e o seu companheiro João pertencem à classe burguesa. Enquanto João levanta as dúvidas acerca do papel que desempenha a burguesia na história, Guida, influenciada pela sua «desocupação», age sem consciência, revelando os traços típicos da classe burguesa:


Guida tinha o gosto de se ouvir a sós. (...) (Não nos espantemos, de resto. Que isto se desse com Guida, não tinha nada de especial. Especial porquê? O falar alto, só para si, é um excitante intelectual, um devaneio dos solidários, sonho ou vingança. Tecem diálogos ao espelho as burguesinhas das vilas, fala o cego para o surdo sobre o mundo que os rodeia. Canta o galo capado, poucos o entendem. E poetas há, nas Caixas de Previdência, que vagueiam alta noite pelas ruas da Baixa, esmiuçando conversas de sua imaginação.


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