Ústav románských jazyků a literatur



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«Boa vida, mas infeliz», lamentaria, para resumir, a estalajadeira.86
A visão que dá conta da exclusão da personagem feminina do mundo masculino configurado por uma sociedade machista, é-nos proporcionada pelo depoimento do Velho, um habitante da Gafeira:
A dona Mercês, Infanta ou como lhe queiram chamar, não tem cabimento na casa. Só homens. Homens e cães.87

A rejeição pelo marido remete-a para o campo da imensa solidão. Ao contrário do Engenheiro, Maria das Mercês apresenta a capacidade de estar só. A sua solidão faz com que comece a conhecer o próprio corpo, já que a sua relação matrimonial não revela quaisquer sinais do relacionamento íntimo. Segundo a interpretação de Eduardo Prado Coelho, no prefácio ao romance, o leitor percebe que Maria das Mercês “não se vê reconhecida no seu estatuto de parceiro de prazer: está só enquanto o marido vagabundeia por bares e prostitutas, e o seu desejo manifesta-se em movimentos clandestinos (passeio a cavala, masturbação).”88 Nota-se então que, devido a tal solidão a que tinha sido constantemente delegada pelas atitudes do marido, cometeu o adultério com o criado da casa Domingos. As atitudes do Engenheiro, que impossibilitavam a Maria das Mercês a ser reconhecida como mulher, foram apoiados pela sua ideologia marialva, baseada na filosofia machista segundo a qual o direito natural ao prazer sexual está reservado exclusivamente ao homem. A personagem masculina explica ao narrador por que razão não se deve praticar o sexo com a esposa legítima, esclarecendo, desta maneira, a rejeição de Maria das Mercês:


Tu sabes a razão por que nenhum homem deve fornicar a mulher legítima? Tu sabes (...) porque a mulher legítima é o parente mais próximo que o homem tem, e entre parentes próximos as ligações estão proibidas.89
Aliás, o seu machismo «indomável» ressalta cada vez que o Engenheiro se refere às mulheres em geral, encaradas sempre com o olhar de desrespeito e indiferença. Este traço é ainda reforçado pelo uso de vários ditados populares que, neste romance, foram inventados pelo próprio Cardoso Pires.90 Apoiado na sua convicção desvairada, Palma Bravo diz acerca das mulheres o seguinte: “Para a cabra e para a mulher, corda curta é que se quer”.91 A emancipação feminina está aqui posta em causa, sendo à mulher completamente rejeitada qualquer possibilidade de autorrealização. Veja-se também o retrato em que a visão marialva sob o prisma da subalternidade, condena o comportamento de uma mulher-poetisa:
A Maria da Paz Soares. Uma que escreve. Todos os anos publica um livro de poemas e todos os anos muda de amante que é para manter os cornos do marido em forma. É público, não há quem não saiba (...) Não há ninguém que não conheça essa cabra (...) Poesia de cama (...) Poesia para essas literatas das faculdades. Por isso é que se eu tivesse uma filha havia de ser feita para casar. Não acreditas? Olá. E ai dela que pusesse os cornos ao marido, que era o mesmo que mos pôr a mim. Positivamente.92
Verificamos, desta forma, a relutância do marialva representado pela figura do Engenheiro em aceitar a mulher como um parceiro equivalente. Está claro que a emancipação feminina debate-se com a tendência das negações libertinas, sendo o bem-estar da mulher condicionado pela escassa margem do desenvolvimento da sua personalidade. Tal e qual acontece com os outros elementos à volta do universo masculino, a personagem feminina está também à inteira disposição ao homem, ou seja, ad usum delfini.


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