Ústav románských jazyků a literatur



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«Faço ideia, com tanta droga para emagrecer...»

«Não, filho. O emagrecer não é para aqui chamado. Se não consigo dormir, é por outras razões. Olha, talvez seja por andar para aqui sozinha a moer arrelias, sem ter com quem desabafar. Isso, vira-me as constas. Nem calculas a inveja que me fazes.»76
Portanto, a crise do casamento tradicional aparece como ameaça aos princípios morais e religiosos, escondendo as verdadeiras implicações da ordem económica. Convém também frisar que neste aspecto da persistência dos casamentos falidos entra a moralidade ou a tradição, na forma de ideologia. Ou seja, a moralidade, defendida pela mulher transforma-se numa prática eficaz à sociedade, pois coloca-se lado a lado dos grupos conservadores, a favor dos dominantes.

A tradição, num determinado aspecto, pode representar uma espécie de travão quanto ao desenvolvimento da sociedade. Ela faz com que imensos valores persistam em tempos inadequados. No conto Dom Quixote, as Velhas Viúvas e a Rapariga dos Fósforos, Cardoso Pires focaliza o impacto entre a antiguidade e a actualidade, ao ter observado a resistência de vários tabus e preconceitos em relação a possíveis alterações na sociedade. Esmeralda, a personagem-chave do enredo, está a sentir na própria pele esse conflito. Na sua adolescência, preocupada com o auxílio a prestar à sua família por ter uma avó cega, frequentemente sai com os homens desconhecidos. No entanto, a preservação da virgindade perpassa pela sua consciência e representa o drama da sua existência, delegando-lhe a posição de uma mulher infeliz. Oscila entre o mundo novo e o mundo velho, segue fiel à ideologia dos conservadores, impedindo a violação do seu corpo:


«Que é», repete o homem e ri. Deita-lhe as unhas, puxa-a: «Anda, vamos para o assento de trás.»

E com isto, põe-se a beijá-la, a tentar despi-la em movimentos secos.

«Lá atrás é melhor.»

Esmeralda é que se torce toda, esquiva-se, inteiriça-se, empurrando-o e clamando que não, não e não.77
Na verdade, esta espécie do quadro da mulher infeliz perpassa por toda a obra ficcional de Cardoso Pires. Ele, na sua visão de um cosmopolita, considerava a submissão feminina como um dos aspectos fundamentais da cultura portuguesa, da sociedade machista, do marialvismo. Nos seus romances encontramos casos das mulheres desesperadas, independentemente da classe social da sua origem, cuja incapacidade de autorrealização remete-as à posse exclusiva do homem.

Em Anjo Ancorado, o papel da mulher infeliz representa a personagem de Guida. A narrativa oferece ao leitor uma visão da «mulher torturada», no entanto convém salientar que esta descrição é nos possibilitada pelas afirmações da personagem masculina – João. Ele actua como o intermediário entre Guida e o leitor, não apenas por veicular a narrativa, mas, sobretudo, por constituir um ser dominador no passeio dominical dos dois. Relativamente a esta observação Eunice Cabral afirma: “Para uma configuração autónoma de Guida, efectivamente, o leitor possui apenas os elementos decorrentes da fala dialogal da personagem. De resto, os gestos e as atitudes físicas desta personagem surgem na presença ou em relação a João. (...) O seu agir é sempre condicionado pela presença ou pela ausência de João.”78 João não é consciente desta superioridade, até porque ao longo do texto considera Guida como uma mulher independente, o facto que, pelos vistos não lhe traz felicidade, não sabendo aproveitar o destino que a vida lhe reservou:


Tinha-se posto mais triste do que as pedras duma seara queimada, não lhe apetecendo falar, nem escutar. Só fumava, só dava trabalho ao cachimbo.

«O erro, João, o crime, está em nos terem ensinado a renunciar à vida. Contrariar, dominar o desejo natural. No fundo é ainda o fatalismo cristão, acho eu79

Guida Sampaio, a jovem universitária, apesar de dar título ao romance em questão, permanece na narrativa como uma personagem apagada. Isto deve-se à presença de João, que aqui configura as molduras do marialvismo, guiando não só o seu poderoso automóvel, cujo preço era mais alto que o valor total dos casebres de São Romão, mas guiando também a própria Guida, que não foi capaz de revelar a sua personalidade ( o anjo à espera de revelação). Podia apenas entrar em conversas sem qualquer fundamento: “Guida falava, falava, falava.”80 Na opinião da Eunice Cabral: “a aliança da focalização narrativa João-narrador veicula a constelação mental predominante na sociedade portuguesa desses anos quanto à figuração da mulher. A secundarização de Giuda significa a adopção de valores socioculturais institucionalizados e hegemónicos duma determinada comunidade (neste caso a portuguesa), valores estes que vêm a ser postos em causa mais tarde.81

Uma definição semelhante das características das duas figuras principais do romance fornece também Petar Petrov na sua Tese de Doutoramento: “As posições das personagens diferem e, apesar de uma certa complexidade que acompanha o seu desempenho, o primeiro revela o seu desencanto existencial, acompanhado por laivos de mentalidade marialva, enquanto a segunda passa o tempo a interrogar-se, como se estivesse em processo de conhecimento do mundo que a cerca.”82 Acerca da relação das personagens para com o período histórico de Portugal em que estas se encontram diz: “Duas pessoas «ancoradas» numa época determinada, ano de 1957, período de desilusão e desespero que facilmente se explica pela estagnação social, resultado do contexto político de então.83 Através da configuração das personagens, observamos uma nítida crítica das relações social vigentes naquela altura em Portugal. Cardoso Pires procedeu, mais uma vez, a um levantamento pertinente deste desequilíbrio, no entanto não o fez de uma maneira explícita, até porque, como sabemos, o regime salazarista possuía o instituto de censura que impedia a publicação das obras indesejadas.

O papel da mulher infeliz em O Delfim representa a personagem de Maria das Mercês, a esposa legítima do Engenheiro Palma Bravo. Neste romance estamos perante uma mulher inabitável, incapaz de dar um filho ao casal, um herdeiro que pudesse dar seguimento ao império do clã Palma Bravo. Apesar da sua posição social, é-lhe conferido um lugar de extrema inferioridade, no âmbito do seu casamento com o Infante, cujas características marialvas nesta obra foram detalhadamente trabalhadas por Cardoso Pires. Esta sua posição submissiva é-nos apresentada pela descrição do narrador no dia em que visitou a mansão do Engenheiro:


Tudo disposto como na noite das apresentações: cobres nas paredes, uma espingarda antiga em cima da lareira. Eu, caçador em visita, Maria das Mercês no lugar que lhe é próprio (sentada no chão, entre revistas – Elle, Horoscope, Flama), o marido estendido no maple e com um braço pendurado para a bebida que repousa em cima do tapete.84
Através desta descrição, o leitor, de repente, observa um ar de antiguidade proporcionado pelo narrador, não só ao fazer referências aos objectos pendurados nas paredes da Casa da Lagoa, mas sobretudo, ao fornecer a imagem do casal a passar um dos seus serões. O homem, sentado no sofá com a sua bebida preferida na mão, a sua mulher ocupando o papel inferior, sentada no chão e entretendo-se com o seu passatempo diário, para além dos “dias sem fim a fazer tricot, a odiar os cães (como era voz pública que odiava), fumando, cozendo bolos.”85 Na sua casa, o Infante comanda toda a conversa, delegando o silêncio à mulher e não lhe permitindo qualquer tipo de participação nos encontros com os convidados. Trata-se, praticamente, do mesmo perfil da pessoa desocupada que encontrámos na personagem de Guida, embora esta não estivesse constantemente submetida a uma pressão imposta pelo homem.

O balanço da vida de Maria das Mercês, após o seu falecimento, está nos depoimentos de várias personagens secundárias do romance, como, por exemplo, a afirmação da hospedeira da pensão, onde se instala o narrador:



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