Ústav románských jazyků a literatur



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Diariamente, ano após ano, século após século, essa muralha, mal o sol se firma, envia a sua sobra para o terreiro, arrastado uma outra, a da igreja.64
Após a uma cuidadosa leitura torna-se evidente que o autor se refere à instituição em si, Igreja com maiúscula, sendo mais um elemento a «assombrar» simbolicamente a vida dos portugueses. Junto com a sombra da muralha constitui uma metáfora da situação opressora que o regime salazarista impunha a Portugal. A Igreja, enquanto instituição, esteve completamente a favor da situação, não usando a sua força para se impor perante um regime ditatorial que não respeitava os direitos humanos.65

Servindo-se também da religião, os detentores do poder justificam a existência da classe pobre como uma necessidade à sua própria salvação espiritual pela caridade. Esta, portanto, é considerada como a actividade com os «fins lucrativos», uma vez que outra forma de salvação não é possível. As personagens têm noção disso e tentam salvar as suas almas pela doação de vários objectos ou serviços aos pobres. A propósito desta observação, citamos um trecho de Delfim onde o escritor-narrador ironicamente raciocina acerca da caridade:


(Assunto a desenvolver no meu caderno de notas: a caridade como elemento de equilíbrio social; logo, como estabilizador das hierarquias. «Da necessidade da existência dos pobres para se alcançar o Reino dos Céus». Mas não. Não vale a pena gastar tempo com o assunto. Vem nos catecismos, Professor).

Tomás Manuel vai discorrendo acerca de Domingos e eu ligo o que ele me conta à utilidade de certos homens desprotegidos e de certos pássaros de guias cortadas ao serviço do caçador. São criaturas diminuídas – como o pobre, como o mal-nascido – e também se podia escrever sobre elas um outro catecismo.66

Esta espécie de caridade está vinculada também à personagem feminina de Maria das Mercês. É ela que faz o imenso esforço de ensinar o criado Domingos a ler, com a intenção, não só de «matar o tempo» mas também garantir a sua salvação. Para além desta actividade, observamos que a esposa do Engenheiro tricota os casacos para os pobres da região:


De quando em quando, Maria das Mercês tira uma fumaça da longa boquilha(...) e recomeça a manobra dos dedos e da Lã. Maquinalmente, como as beatas quando desfiam um rosário. O tricot, afirma ela, descontrai (...) tricot para aquecer os pobres.67
Vemos aqui um nítido paralelo entre o tricot dos casacos e o acto de rezar, ambos com o fim de encontrar a eterna paz no céu. Maria das Mercês sabe que jamais será possível salvar o seu casamento com o Engenheiro, portanto procura, ao menos, salvar a si própria, fazendo caridade para com os pobres.

Neste ponto da análise consideramos interessante uma descrição semelhante feita pela poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andersen no conto Retrato da Mónica, inserido na colectânea Contos exemplares. A escritora apresenta-nos também uma mulher portuguesa com a tendência para a caridade aos pobres, tricotando casacos às crianças carentes:


É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também.68
Apesar de o perfil da personagem do conto de Sophia de Mello ser diferente da Maria das Mercês, sobretudo por a Mónica representar uma mulher bem sucedida e realizada na vida, o interesse pessoal pela caridade faz com que ambas as personagens sejam retratadas pela mesma visão. Além disso, a própria necessidade de caridade relata-nos a situação económica de Portugal. Existe uma sugestão facilitada por ambos os escritores acerca dos laços que haviam entre os que, por um lado, exploravam a camada social mais carenciada, e, por outro lado, aqueles que tentavam amenizar as consequências das políticas feitas pelos seus amigos ou até familiares no poder.

O outro influente e poderoso elemento na luta ideológica entre as classes social é o Estado, que constitui uma forma de ideologia política. Fingindo ser um auxiliar, bem como o beneficiador do povo, defende exclusivamente os interesses da camada elitária. Não é uma garantia dos interesses gerais, iludindo os indivíduos acerca do papel que estes deveriam representar na história.

Em relação à ideologia política observamos em O Anjo Ancorado uma passagem em que o narrador se refere aos escassos momentos quando Portugal passa pela alegria de poder sentir a liberdade, depois de vários anos de fascismo. Sabemos que estes momentos foram fugazes; ao narrar este facto, o escritor revela-nos algumas das terríveis medidas tomadas pelo Estado português durante a ditadura, o que justifica o delírio da sociedade daquele período histórico:
Da noite para o dia, a capital abrira-se, indecisa. Foi um minuto, diz-se, o minuto da verdade. Mas acontecia que sobre esse gume da história pesavam nada menos de dezassete anos de tempo morto, de vida secreta abafada com mão dura e fria. E as gerações que tinham suportado a infância obrigatória da farda e do tambor; os estudantes que passaram pelos mestres ao longo do curso, de braço estendido e em silêncio, como era de regra saudar; os funcionários e os operários desconfiados de tudo e de todos – a esmagadora cidade, enfim, veio para a rua, louca de contentamento, e não se reconheceu.69
Quanto à ideologia política convém referenciar também a descrição do país relatada pelo narrador do romance Balada da Praia dos Cães de 1982. A publicação desta obra já é datada num Portugal livre e democrático, alguns anos depois da queda do Estado Novo. O relato é feito de uma maneira explícita, não limitando o autor a qualquer tipo de «camuflagem», tal e qual aconteceu na concepção de Delfim. O trecho que se segue consideramos um dos melhores retratos fornecidos pelo narrador cardoseano:
Lisboa, esse vulto constelado de luzes frias (...) é um animal sedentário que se estende a todo o país. É cinzento e finge paz. (...) Mesmo abatido pela chuva, atenção porque circulam dentro dele mil filamentos vorazes, teias de brigadas de trânsito, esquadras da polícia, tocas de legionários, postos da GNR, e em cada estação dessas, caserna ou guichet, está a imagem oficial de Salazar e bem à vista também há filas de retratos de políticos que andam a monte. O perímetro da capital está todo minado por estes terminais, Lisboa é uma cidade contornada por um sibilar de antenas e por uma auréola de fotografias de malditos com o Mestre da Pátria a presidir.70
Após a leitura destas linhas adoptamos uma visão bastante clara de um Portugal cinzento e oprimido, delegado ao comando do aparelho estatal presidido pelo ditador Salazar, que zela de todos os lugares possíveis pela eficaz execução das suas políticas. O país na imagem de Lisboa é-nos apresentado como se fosse uma prisão perpétua sem saída, onde todos os órgãos da soberania do Estado trabalham a favor da manutenção da ditadura.

O conceito semelhante está presente também no conto Amanhã, se Deus Quiser, inserido na colectânea Jogos de Azar, onde as personagens estão a ser confrontados com a burocracia – uma das maneiras de soberania do poder de Estado – imposta diante da sociedade dominada:


«Outro concurso»?, perguntou a minha mãe. Sentou-se na cadeira. «Mais papel selado, louvado seja Deus. Só o dinheiro que o Estado come nos concursos dava para sustentar meia dúzia de famílias.71
Para poder estabelecer-se uma determinada ideologia política O Estado necessita a cooperação de vários aparelhos que sejam capazes de implementar quer via pacífica quer pelo uso da força a forma desejada do funcionamento do país. Um destes elementos a exercer as tendências políticas, sem dúvida, representam as forças armadas, cujo objectivo primordial deveria ser a protecção da sua comunidade. No entanto, na universo das obras de Cardoso Pires as forças armadas estão completamente submetidas ao regime ditatorial português e a tal protecção da sociedade aparece apenas como uma farsa.

No conto Carta a Garcia da mesma colectânea, uma escolta dos soldados insubmissos levam presos os desertores da armada. Um dos prisioneiros – Dois-sessenta-e-três – raciocina acerca da utilidade da acção e revela ao leitor o verdadeiro sentido da missão na qual eles se concentram:



...A carta a Garcia é uma coisa para mim, outra coisa para o capitão, outra coisa para estes otários que vão aqui a tomar conta da gente. Mas todos nós levamos uma Carta a Garcia.


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