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A sociedade hierarquizada – a luta de classes sociais



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5.3 A sociedade hierarquizada – a luta de classes sociais

Nas páginas anteriores deste trabalho já vimos que as personagens de Cardoso Pires sofrem diversos modos de dominação ideológica. Neste capítulo gostaríamos de traçar, a nosso ver, a mais importante das ideologias contidas no mundo ficcional da prosa cardoseana – a luta de classes. Este conceito implica a existência de dois grupos em clara oposição, de dominadores e dominados, que se defrontam incessantemente em conflitos intensos. Os detentores do poder lutam pela sua manutenção, através dos aparelhos ideológicos do Estado, da Religião, assim como de outras formas de ideologia, enquanto que os fracos deslizam no caminho imposto pelos fortes , até o momento em que adoptam a consciência de que o papel que a sua classe desempenha na história da humanidade pode ser alterada apenas mediante a sua própria vontade e determinação. Os indivíduos das obras de Cardoso Pires, ao ser explorados, quase nunca reagem, mantendo-se, desta maneira, nas mãos da classe superior que detém o poder financeiro e, naturalmente, procura impôr as suas próprias políticas de convivência, não só no plano material, mas também moral e jurídico.

No romance Anjo Ancorado observamos a visão de João acerca da ideologia de classes, ajustada conforme o seu entender das relações sociais vigentes na altura em Portugal. Ele, apesar de inicialmente estar inserido numa estirpe tradicionalmente poderosa, configura o provinciano rico que incorpora, como se fosses seus, os valores relacionados com a fidalguia:
Este ar de terra a terra é fácil de perceber-se nalguns infantes da lavoura que gastam a maior parte da vida nas grandes capitais. Nesses, as falas provincianas e o tom com que se dirigem aos criados são coisas cultivadas, uma espécie de marca de estirpe para os diferenciar do resto dos mortais que não têm terras nem passado para lá da cidade (...) «como velhos reis», costumava dizer o homem do carro vermelho (João); e nisso havia uma pontinha de desdém até por ele próprio. «Como os monarcas que desciam à rua para enriquecer o sangue nos ventres populares».60

Em O Hóspede de Job consideramos pertinente citar o seguinte trecho, em que os camponeses aviltados se curvam diante das condições que lhes são impostas pelo grupo dominante:


Na realidade, há muito que os ranchos de fora, acabadas as ceifas, regressaram às suas casas, uns, os gaibéus e os ratinhos, em direcção ao norte, outros, os algarvios, em direcção ao sul. E todos eles insultados, à despedida, pelos olhares que os alentejanos lhes deitavam: «Judas miseráveis, Judas».

Eles compreendiam. Ouviam e baixavam a cabeça. Tinham-se deixado ajustar por jornadas que os trabalhadores da região sempre recusaram e, que remédio, ouviam. Mas perguntavam à sua consciência se seria justo vir de tão longe para voltar à mulher e aos filhos de mãos a abanar. «Seria?», perguntavam.

Por isso regressaram às suas terras, atravessando as vilas em rebanhos de silêncio. Tinham chegado a cantar (os ranchos de algarvios, sobretudo esses), viajando de concertina e flor no chapéu e esperançados em dias de pão e de risonha camaradagem, e afinal voltavam de orelha murcha, renegados.61

No seu conceito geral, a ideologia possibilita a manifestação dos interesses da classe social opressora, de modo a que estes pareçam como interesses comuns, universais, virados para a colectividade. Mediante esta ideologia, cria-se uma quimera no pensamento da classe oprimida, que acaba por aceitar as ideias da elite no poder como vigentes para toda a sociedade. Esta ilusão não permite conhecer a própria realidade, nem sequer vislumbrar a maneira como esta foi produzida. A classe dominadora submete-se, desta forma, às circunstâncias materiais em que se encontra inserida, sem se dar conta dos factores que as geraram. Também por a ideologia ocultar a realidade, a população tende a atribuir, equivocadamente, a diversos motivos, as suas condições materiais, quando, na verdade, representam o resultado da própria convivência das diferentes classes sociais. O exemplo claro deste conceito podemos encontrar ao longo do texto Hóspede de Job, em que a pobreza e as condições precárias dos camponeses alentejanos são tidas, pela maioria deles, como modo mais natural de se chegar a Deus pela via do castigo ou como simplesmente uma ironia do destino que estes precisam de carregar e nunca é considerada como consequência das injustiças sociais.

Os aparelhos ideológicos constituem então uma poderosa arma da denominação na luta de classes sociais. Mesmo os grupos que se reconhecem submissos inconscientemente absorvem as tendências provenientes da classe dominadora, como se estas não fossem um produto dela, da elite no poder.

Os habitantes da Gafeira, em O Delfim, representam um óptimo exemplo desta ideologia. Apesar de viverem nas condições precárias, são incapazes de fazer frente às exigências que o marialva Palma Bravo, o Engenheiro faz relativamente à «sua propriedade exclusiva», a lagoa, ao longo da sua permanência nesta aldeia, e passam todo o tempo a rezar na convicção de que a vida pobre que levam é o destino que eles precisam de cumprir. O narrador-caçador relata-nos a realidade do povoado:


Os uivos esfarrapam a ladainha e, naturalmente, havia de chegar à igreja, que era acanhada e de madeiros pintados, igreja pobre como se depreende. Aí abalariam os camponeses na sua fé ensonada, inquietavam-nos (e não se esqueça que momentos depois, eu iria presenciar o desfile daquela gente à saída da missa – posso vê-la portanto lá dentro: os homens de pé, as mulheres de joelhos. Filhas-de-Maria, de rosário nos dedos; rapazes com transístores e blusões de plástico recebidos de longe, duma mineira de Winnipeg, Canadá; moças de perfil de luto – as viúvas-de-vivos, assim chamadas – sempre a rezarem pelos maridos distantes, pedindo à Providência que as chame para junto deles e, uma vez mais, agradecendo os dólares, as cartas e os presentes enviados.62
Na verdade, a oração é para os gafeirenses distracção e conforto espiritual. Segundo os filósofos alemães Marx e Engels, a Religião – o ópio do povo63, serve à classe dominante como uma das mais eficazes ferramentas da dominação ideológica. Sendo assim, a classe social oprimida considera os males provenientes da fome, da falta de habitação, da educação, do desemprego ou de qualquer outro nível sócio-económico, como desgraças que fazem levar os resignados a ser recompensados na vida eterna, já que os seus pecados foram cometidos cá na terra. Desta maneira, a classe oprimida não se apercebe dos verdadeiros motivos da sua miséria.

Aliás, relativamente à opressão por motivos religiosos, serve-nos como o testemunho da realidade então vigente em Portugal, a própria descrição da Gafeira, encontrando-se esta entre «a espada e a parede»:



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