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Aspectos comuns dos três romances



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5.1 Aspectos comuns dos três romances


A primeira impressão em que um leitor repara, ao ler estes livros, é a aparente estaticidade do enredo, uma espécie de nihilismo em termos de aventuras. A uma leitura mais atenta vêm aparecendo, pouco a pouco, elementos que terminam por destruir esta impressão. Finalmente, surge como possível a hipótese de que esta aparente estaticidade da história parece conter uma situação de tensão, de um conflito escondido. O conflito relaciona-se, de alguma maneira, com a mudança no tempo, isto é, parece existir uma expectativa quanto ao futuro próximo, pois este deverá ser diferente do tempo passado.

Nestes três romances o tempo do enredo apresenta-se fragmentado: o tempo passado – descrito através imensos discurso acerca dele e, por outro lado, um tempo «novo», reflectindo o futuro – marcado pelas considerações mistas da desilusão e da esperança, cuja transmissão é possibilitada pelos sonhos e pelos desejos das determinadas personagens.

No eixo temporal - passado, presente, futuro - o presente aparece como um período confuso, marcado pelo conflito por ser um tempo da mudança, que não se realiza, à primeira vista, de uma maneira clara. O presente na narrativa cardoseana é uma espécie do tempo indefinido, desconhecido, incompreensível, o causador de muitas estranhezas, e, sobretudo sempre distante e bem diferente do passado e do futuro. Para justificar esta ideia podemos olhar para os seguintes trechos:


Em poucas horas o mundo antigo ficara séculos para trás, parecia.40

Os anos rodaram e com os anos vieram mais crimes, mais males.41

Sei tudo menos o passado próximo, o ontem e o hoje, que o jornal da tarde me reserva. E é importante.42
Desta maneira, o tempo presente realiza-se apenas como um auxílio intermediário entre o passado e o futuro, que precisam de alguma fixação para poderem ser definidos e também compreendidos. Além desta, digamos inexistência da definição do presente, poderá haver também um nítido desgosto ao falar do presente. Naturalmente, é ele que representa todo o mal que existe inserido no enredo e se bem repararmos, o passado não é recuperado pelas marcas do presente, mas sim é recuperado por meio de lembranças ou pela adopção de discursos antigos. O mesmo acontece com o futuro, que sempre está focalizado, não em função dos acontecimentos reais do presente, mas através dos sonhos e das fantasias, que procuram alcançá-lo mais rapidamente possível.

O próprio presente chega mesmo a ser apreendido como um tempo marcado pela desestruturação. Podemos observá-lo também numa passagem de O Anjo Ancorado, onde se afirma que os portugueses representam uma “sociedade desorientada” com uma “vida em decomposição”.43 Esta circunstância poderá ser o resultado da mudança do tempo e geradora de conflitos. Além disso, as personagens de Cardoso Pires também assumem atitudes que podemos encarar como tentativas de fugir ao presente.

Interessante será observar a divisão do tempo e o seu conflito em cada livro:
No romance O Hóspede de Job a acção do enredo pode resumir-se a uma viagem de ida e volta de duas personagens, migrantes em busca do trabalho. O velho, Aníbal, revive o passado, constantemente repetindo as aventuras históricas aprendidas em cordel. O jovem, Portela, olha por cima da miséria do presente e sonha com uma vida melhor na capital portuguesa, a cidade do seu sonho, aonde realmente nunca chega a partir. O desejo de um e a saudade de outro acabam por ser pendurados no presente real: o estilhaço da granada dos americanos, a mutilação de Portela, a sua dependência do velho Aníbal, o desencanto e a volta ao lugar da partida.

O conflito do enredo podemos associar ao encontro indirecto entre o retirante Portela e o capitão do quartel americano, que foi responsável pela granada. Este acontecimento perturba a situação inicial, condicionando o presente que se torna desagradável. O aparente conflito é depois abafado na já mencionada estaticidade do enredo. Somente fica a tensão causada pelo acidente e pela mutilação de Portela, enquanto a narrativa regressa ao começo com a volta das personagens ao ponto de partida.

No romance O Anjo Ancorado, podemos resumir o enredo inteiro a uma curta viagem, num passeio à tarde com o objectivo de praticar a pesca submarina. Também aqui existe o paralelismo entre o passado e o futuro que se realiza em vários capítulos como as constantes recordações do passado, um tipo de reflexão do período já vivido das personagens em contraste com o sonho alcançável do taberneiro da aldeia de São Romão a esperar o dia em que será instalada a electricidade, que segundo a visão dele, certamente irá trazer desenvolvimento e progresso à vila: “E fique vossemecê com esta, no dia em que houver aqui electricidade não faltarão banhistas por esta costa”.44

Os outros elementos textuais dão a medida da irregularidade que marca o presente: em primeiro lugar, o pensamento angustiado do visitante João, o lisboeta que veio à aldeia fazer a pesca – “Será justo aceitar o melhor duma vida em decomposição?”45; e paralelamente se desenvolvem as histórias das actividades primárias dos habitantes da aldeia – um velho que caça um perdigoto para poder alimentar-se; a jovem Ernestina que luta contra o tempo para poder terminar o trabalho prometido, um rapaz-vaivém quase atropelado pelos dois turistas de Lisboa. Esta é a realidade crua dos habitantes da aldeia, concentrados na sua própria sobrevivência, que contrasta com as preocupações ociosas dos visitantes. Precisamente este contraste é, segundo nós, o elemento de tensão que gera o conflito no enredo, tal e qual acontece no romance O Hóspede do Job. Este conflito é o marco emblemático do tempo presente, e da mesma maneira como no caso do estilaço da granada americana, aqui é convertido no momento em que o menino é atropelado pelo carro dos turistas.


Na obra O Delfim, o foco da narrativa é a memória de um escritor-caçador em visita repetida à aldeia da Gafeira. O objectivo inicial da viagem é um fim de semana dedicado à caça numa lagoa anteriormente controlada por engenheiro Palma Bravo, um marialva com pretensões a nobre fidalgo. É precisamente neste romance, em relação aos dois restantes, que a divisão do eixo temporal – passado, presente, futuro – e o conflito que a marca são mais visíveis, sobretudo pela estrutura da narrativa.

O episódio abaixo, que certamente foge um pouco ao enredo geral do romance, pode servir-nos de exemplo desta caracterização acerca do eixo temporal nas obras de José Cardoso Pires. É relacionado com o paralelismo entre os descobridores portugueses e o astronauta americano, fundamental na delimitação do presente:


Acenar com os padrões dos nossos descobridores como resposta às façanhas de um cosmonauta é o argumento dos olvidados e já enjoa. Estamos fartos de os ouvir nos discursos de academia e nas crónicas oficiais. Aldrin nunca teria tempo para isso. Anda excessivamente atarefado com o futuro para poder dar atenção aos desprezados do século XX...46
Ao raciocinarmos sobre este pequeno trecho, ser-nos-á apresentada uma nítida intenção do autor relacionar os próprios eixos temporais com a sua visão acerca da situação em geral do estado da nação. Parece-nos então clara a correspondência entre os «descobridores» portugueses e o passado, o cosmonauta americano associa-se, naturalmente, ao tempo futuro (relativamente à situação actual dos portugueses, a vitória do astronauta instala-se num tempo futuro); e, finalmente, os portugueses do tempo presente situam-se no desencanto, na desestruturação, no conflito. São, segundo as palavras de Cardoso Pires «desprezados do século vinte».
Com o apoio nos trechos acima mencionados somos capazes de verificar que a estrutura da narrativa com a relativa contenção do enredo possibilita a criação de várias situações de tensão que têm por objectivo suspender a aparente estaticidade da narrativa, de que falámos no início deste capítulo. Sabemos que a obra de Cardoso Pires traz imensos desafios ao leitor, obrigando-o a uma leitura atenta caso este queira deparar-se com a informação contida nos seus textos. Além disso a linguagem dos seus romances é famosa pelo controle, pela economia de recursos estilísticos com a clara omissão dos adjectivos. Realmente, o seu estilo é simples, porém não pobre, é controlado, diríamos quase frio.
A uma aparente estaticidade das narrativas cardoseandas está estreitamente associada também a linguagem estática das personagens, que na realidade causa ao leitor uma sensação de que se repete mais do que se fala propriamente. Ao longo dos textos podemos encontrar passagens em que o enunciado ganha força, não por anunciar uma ideia notável, mas sim por ser repetido várias vezes, o que lhe confere um aparente carácter de uma palavra mágica, uma espécie de abracadabra de que falámos no capítulo de A Cartilha do Marialva.

Para esclarecer o nosso pensamento indicamos os seguintes trechos de cada um dos romances:



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