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SENTIMENTOS E EXPECTATIVAS EM PRIMÍPARAS ENTRE O SEXTO E NONO MÊS GESTACIONAL

FEELINGS AND EXPECTATIONS IN PRIMIPAROUS BETWEEN SIXTH AND NINTH MONTH GESTATIONAL

REIDIA, J.

SCHMIDT, E. B.

RESUMO: O presente trabalho trata de uma pesquisa qualitativa de cunho descritivo que tem como objetivo investigar os sentimentos e expectativas de gestantes primíparas entre o sexto e nono mês gestacional. Participaram da pesquisa 7 gestantes na faixa etária de 21 a 35 anos, que estavam no último trimestre da gestação. Foi utilizada para coleta de dados uma entrevista semi-estruturada, submetida à análise de conteúdo de Bardin. Os principais resultados mostram que as reações diante da notícia da gravidez variam de acordo com a história e os planos do casal. Frente à primeira gestação as mulheres vivenciam diversos sentimentos e expectativas, sentindo-se muitas vezes ansiosas em relação ao parto e aos futuros cuidados com o bebê. As mesmas demonstraram sentimentos de amor e apego com o bebê.

PALAVRAS-CHAVE: expectativas; sentimentos; gestação; primíparas.

ABSTRACT: The present work is a qualitative study of a descriptive aims to investigate the feelings and expectations primigravidae between the sixth and ninth months of pregnancy. The participants were seven women aged between 21 and 35 years, who were the last trimester of pregnancy. Was used for data collection a semi-structured interview, subjected to content analysis of Bardin. The main results show that the reactions to the news of pregnancy vary according to the story and the couple's plans. Faced with the first pregnancy women experience many different feelings and expectations, often feeling anxious about the future delivery and baby care. Showed the same feelings of love and attachment with the baby.

Key words: expectations; feelings; gestation; pregnancy; primiparous.

Introdução

A gravidez é um momento de extrema importância na vida do casal, ambos passam por adaptações emocionais, a mulher sente seu corpo se modificando devido aos efeitos hormonais e o homem adapta-se, ou tenta adaptar-se às mudanças vivenciadas pela mulher (COSTA et al., 2005).

Entre as alterações que ocorrem durante a gestação, destacam-se as emocionais, as quais são caracterizadas principalmente por oscilações de sentimentos nos diferentes trimestres da gravidez (FREITAS et al., 2003). É uma fase marcada por um estado de tensão, devido à expectativa das mudanças que estão acontecendo (CAMACHO; VARGENS; PROGIANTI, 2010). Quando a gravidez é confirmada, pode vir uma euforia profunda e sensação de grande poder e importância, mas junto com essas sensações podem vir a apreensão, a dúvida e o medo (MALDONADO, 2000).

É durante a gravidez que se inicia a formação do vínculo pais-filho e a reestruturação da rede de intercomunicação da família. Outra característica presente neste período é a formação de um novo papel na vida das grávidas primíparas: o papel de ser mãe e em função disso passam a ver e ser vistas de modo diferenciado (MALDONADO, 2000).

Durante o período gestacional podem aparecer diferenças no que se refere ao apego da mulher com seu bebê intra-útero, principalmente em mulheres que estão vivenciando a primeira gestação. De acordo com estudos realizados, o nível de apego materno fetal de primíparas é mais alto se comparado ao de mulheres que já tiveram outros filhos. Tal dado indica que as diferenças entre primíparas e multíparas estão relacionadas a uma maior expectativa das primeiras em relação ao nascimento do bebê (SCHMIDT e ARGIMON, 2009).

Em outro estudo realizado sobre diferenças nas expectativas e sentimentos acerca do bebê entre gestantes primíparas e secundíparas, constatou-se que enquanto as primíparas tendiam a basear suas expectativas e sentimentos na idéia de um bebê ideal, nas secundíparas, estas foram mediadas pela existência do primogênito (COLDEBELLA, 2006).

O período gestacional escolhido como inclusão das participantes da pesquisa (entre o sexto e nono mês de gestação), justifica-se por ser considerado um período mais estável. Durante esta fase da gravidez já estão presentes os movimentos fetais e o feto passa a ser sentido como uma realidade mais concreta e com características próprias. A interpretação que a mãe faz dos movimentos do feto vem a constituir mais uma etapa da formação da relação materno-filial (MALDONADO, 2000).

Tendo em vista, que este período é tão importante na vida da mulher, este trabalho visa trazer mais conhecimento e informação acerca desse momento repleto de transformações. Nesse contexto, tem-se a seguinte questão como pergunta norteadora da pesquisa: Quais são os sentimentos e expectativas de gestantes grávidas primíparas?

Método

Trata-se de uma pesquisa com abordagem qualitativa de cunho descritivo, caracterizando-se como um estudo exploratório.



Participantes

A pesquisa contou com a participação de sete primíparas atendidas nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) da cidade de Erechim. Para a participação da pesquisa foram selecionadas gestantes de 21 a 35 anos, do sexto ao nono mês de gestação do primeiro filho. A amostra foi feita através de uma busca de participantes que se encaixassem nos critérios de inclusão.

Instrumentos

Para a coleta dos dados foi utilizada uma entrevista semi-estruturada. De acordo com Macedo e Carrasco (2005), a entrevista consiste em uma técnica de conversação, que tem o objetivo de possibilitar ao psicólogo buscar informações ou dados acerca de seu cliente, paciente, aluno, candidato, etc.

Procedimento de coleta de dados

Primeiramente, para efetivar o estudo, a pesquisadora protocolou o projeto de pesquisa na Prefeitura Municipal de Erechim, solicitando um pedido de autorização para realizar o estudo. Após foi feito um contato com o Secretário Municipal de Saúde, apresentando o projeto e solicitando autorização para a coleta de dados nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Após receber o consentimento foi realizado um contato com as chefes responsáveis pelas UBS, explicando os objetivos do estudo. Nesta ocasião a pesquisadora entregou à chefia da UBS uma carta-ofício esclarecendo formalmente os propósitos da pesquisa, solicitando a autorização para a realização da pesquisa no referido local. Após o aceite pela responsável da UBS, a pesquisadora entrevistou gestantes que preenchiam os critérios de inclusão para a participação do estudo. O contato foi feito pessoalmente, informando-as sobre a pesquisa e marcando um horário para realizar a entrevista.

As gestantes escolhidas foram informadas sobre os objetivos da pesquisa, bem como sobre o sigilo e anonimato. Para aquelas que aceitaram participar foi entregue um termo de consentimento livre e esclarecido, sendo que uma cópia ficou com a participante e outra com a pesquisadora. Após foi realizada uma entrevista semi-estruturada, a qual, com o consentimento das participantes, foi gravada.

Procedimentos de análise dos dados

As entrevistas realizadas com as participantes foram transcritas e foi utilizada a técnica de análise de conteúdo de Bardin para analisar o material obtido. A análise de conteúdo de Bardin (1977), é composta de três fases distintas: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados.

Procedimentos éticos

Com relação aos aspectos éticos, foi seguida a Resolução 196/96, do Conselho Nacional de Saúde, o qual requisita que antes de realizar a pesquisa, seja entregue às participantes um termo de consentimento livre e esclarecido. No Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, a participante foi informada que se trata de uma pesquisa de um Trabalho de Conclusão de Curso, desenvolvido na URI Campus de Erechim, que tinha como objetivo investigar os sentimentos e expectativas de mulheres grávidas do primeiro filho. Do mesmo modo as grávidas foram informadas que sua participação seria voluntária e também sobre a preservação do sigilo dos dados obtidos. A entrada em campo foi feita após obter aprovação do projeto pelo Comitê de Ética da URI Campus de Erechim.

Resultados e Discussão

A partir da análise de conteúdo de Bardin foram estruturadas as seguintes categorias temáticas: Características sociodemográficas; Planejamento e aceitação da gravidez; Reações frente à ecografia; Mudanças físicas e emocionais; Expectativas e sentimentos em relação ao bebê; Expectativas em relação ao parto; Sonhos com o bebê; Expectativas em relação a mudanças após o nascimento do bebê e Sentimentos de gestantes que tiveram abortos anteriores. A seguir são apresentadas e discutidas as categorias, as quais são exemplificadas com as falas das gestantes.

Características sócio-demográficas

Participaram da pesquisa gestantes com idades entre 21 a 35 anos, do sexto ao nono mês gestacional, sendo que a maioria reside em Erechim, e uma participante mora em outra cidade. A maioria das participantes tem uma relação estável com seus companheiros, apenas uma das participantes referiu ser solteira. Todas fizeram acompanhamento pré- natal desde o momento em que descobriram que estavam grávidas. Para um maior entendimento do histórico das participantes segue a tabela caracterizando a amostra:

Tabela 1- Dados das participantes da pesquisa



Sujeito

Idade

Estado civil

Gravidez Planejada

Mês gestacional

Abortos anteriores

G1

29

Casada

Sim

Oitavo mês

4 abortos anteriores

G2

29

Casada

Sim

Sétimo mês

Não

G3

35

Casada

Sim

Oitavo mês

Não

G4

32

Casada

Sim

Sexto mês

Não

G5

23

Casada

Não

Oitavo mês

Não

G6

21

Solteira

Não

Nono mês

Não

G7

21

Casada

Não

Nono mês

Não

Planejamento e aceitação da gravidez

Um filho é resultante do desejo de um homem e do desejo de uma mulher, sendo assim, do encontro desses dois desejos surgirá o projeto de gravidez. É importante ressaltar que este projeto, o qual pode ser consciente ou inconsciente, faz parte da pré-história do filho (SZEJER e STEWART, 1997). Das sete participantes entrevistadas, quatro já tinham um planejamento de engravidar, as mesmas relataram que já tinham feito tentativas para engravidar anteriormente. Percebe-se que para estas que já tinham um planejamento a gravidez foi aceita e recebida como uma boa notícia: “G4: Bom, pra mim era uma gravidez que eu desejei muito, então eu estou bem feliz desde o primeiro dia.”

Em comparação, para as outras três gestantes que não tinham planos de engravidar, a notícia da gestação demorou para ser aceita pelas mesmas: “G7: Agora estou mais tranqüila, no início eu não aceitei. No início como eu já tinha todo o planejamento do casamento, tava entrando num estabelecimento novo de trabalho, tudo diferente, minha vida então eu tive que voltar do zero...”

Segundo Spallici, Costa e Melleiro (2002), nos primeiros meses a gestante pode ter muitas dúvidas e sentimentos confusos em relação a querer ou não ter um filho, porém, aos poucos vai reorganizando-se e incluindo o bebê em seus planos. Por outro lado o sentimento de ambivalência pode surgir quando o bebê vem num momento inesperado.

Percebe-se que embora estas três gestantes não tenham aceitado a gravidez no início, posteriormente com o passar do tempo as mesmas passaram a ter uma aceitação maior, bem como a criar um vínculo com o feto: “G7: ...Eu já comecei a ficar muito apegada a ela.”

Ao informar a notícia da gravidez ao parceiro, familiares e amigos, as repercussões podem ser variadas, conforme o contexto em que ocorre essa gravidez: se é “mais um”, além da conta e por isso pouco festejado; se é um filho esperado há muito tempo; se é uma gravidez que ocorre fora de vínculo socialmente aceito; se é uma gestação precedida de muitos episódios de abortamento de primeiro trimestre, o que gera ansiedade de sofrer novamente uma perda (MALDONADO, 2000).

A história do casal e o tipo de relação que une o casal estão diretamente relacionados ao modo como o homem reage à essa notícia. Sendo assim, ele poderá receber a notícia como uma boa surpresa, como algo que já era esperado, ou como uma brincadeira de mau gosto. Esta notícia poderá ter efeitos como: reconciliações, cumplicidade, felicidade compartilhada, ou separações, conflitos, afastamentos (SZEJER e STEWART, 1997). Percebe-se que os companheiros que já tinham uma união estável com a gestante receberam bem a notícia, demonstrando alegria com o fato ocorrido: “G7: Ele ficou muito contente, até no dia que o Dr. falou que era uma menina, maior felicidade ainda né, que ele queria uma menina, então ele ficou muito feliz.”

A única gestante que encontrou maiores dificuldades com a reação do companheiro sobre a notícia foi uma gestante que é solteira, e estava em dúvida a respeito de quem era o pai do bebê, neste caso, o parceiro expressou sentimentos de desconfiança e rejeição com relação à paternidade: “G6: Ah ele ficou meio assim, ele achou “será? Será que pode?” Mas não é será que pode! Grávida eu to, né, mas daí to com desconfiança de dois né, daí não podia dizer pra ele “ó, o filho é teu!” Ai ele ficou meio assim, meio desconfiado né. Até primeiro ele disse que “esse filho não deve ser meu”.

Percebe-se que as participantes que receberam um apoio do companheiro adaptaram-se melhor à gestação, em comparação com as gestantes que não tiveram um apoio do mesmo neste período, encontrando mais dificuldades de aceitar a gestação. Na perspectiva de Brazelton e Cramer (2002), a reação do companheiro com a notícia tem forte influência no que se refere ao processo de gestação, do parto e do apego. Desta forma, o apoio emocional do parceiro mostra-se importante e vem a contribuir de modo significativo para uma melhor adaptação da mulher neste período gestacional.
Reações frente à ecografia

Conforme Fonseca et al. (2000), o desenvolvimento da técnica da ultrasonografia contribuiu de forma significativa no acompanhamento pré-natal de gestantes, possibilitando novas descobertas e avanços na medicina fetal, principalmente nos diagnósticos de doenças genéticas. Tornou-se um exame de rotina de grande importância, através do qual se pode ter conhecimento das situações reais do futuro bebê.

Sendo assim, a ultrasonografia permitiu que médicos tivessem um contato mais real e com mais acuidade, podendo realizar diagnósticos com mais segurança, garantindo melhores condições de saúde para o futuro bebê (PICCININI e GOMES, 2005).

Na perspectiva de Caron, Fonseca e Kompinsky (2000) as experiências a partir da ultrassonografia, possibilitaram uma aproximação com o bebê desde o início de sua vida, observando todo o processo do desenvolvimento, fato que mostra-se importante para o desenvolvimento da vida emocional da criança. É importante enfatizar que cada mãe reage a sua maneira, sendo que estas reações podem variar desde aceitação com sentimentos de alegria ou ódio com reações traumáticas, o que gera sentimentos de impotência e desamparo.

A maioria das gestantes refere que fizeram este exame, pois já vinham desconfiando que estivessem grávidas devido aos sintomas apresentados: “G5: ...primeiro eu desconfiei, porque tipo, eu fui lavar uma roupa do meu marido e daí ele trabalha com óleo sabe, e me deu ânsia aquele cheiro e daí também comecei a sentir vontade de comer as coisas, cachorro quente senti vontade. Daí eu fui e tal, comprei as coisas, fiz, daí comi aquele cachorro quente assim uma delícia, depois vomitei tudo, daí no outro dia eu disse “vou fazer um exame né”, aí fui lá, fiz o exame, esperei duas horas e deu positivo. Na hora fiquei um pouco assustada né.”

No que se refere aos sentimentos despertados nas gestantes durante a ultrassonografia, percebe-se que aquelas que não tinham planos de engravidar não tiveram uma boa reação emocional durante o exame, sentindo-se assustadas com a notícia. Para Piccinini e Gomes (2005), as reações emocionais da ultrassonografia nas mães, dependem muito da sua história de vida, de suas necessidades e dos conflitos psíquicos existentes no momento atual.

Em comparação, aquelas que tinham planos de engravidar receberam a notícia com alegria: “G4: Olha, a primeira ecografia que eu fiz foi a mais emocionante, porque até então eu não sabia que eu estava grávida, porque como eu sempre tive problemas hormonais e de ovário eu fui fazer uma consulta de rotina e o médico pediu uma eco, e quando eu cheguei lá, o médico falou “nossa, tu já tem um bebê na tua barriga”, nossa!”

A partir das colocações das gestantes observa-se que o sentimento de alegria nesses casos surgiu devido à grande espera e expectativa que as mesmas tinham em engravidar, bem como por esse bebê já estar nos planos delas e do companheiro.

Mudanças físicas e emocionais

Durante a gestação, assim como na adolescência e o climatério o corpo passa por mudanças, denunciando uma nova condição, conforme Raphael-Leff (1997), à medida que evolui a gravidez, as mudanças ocorridas no corpo servem para impor visualmente essa realidade.

No que se refere às mudanças físicas ocorridas neste período, a maioria das participantes relata ter observado um aumento de peso: “G7: Comecei a engordar.”

De acordo com Maldonado (2000), é comum que durante a gravidez a gestante ganhe peso. Em comparação, uma das participantes relatou que emagreceu durante a gestação: G4: “Eu ainda não engordei, achei que eu ia engordar mais, até no início eu emagreci, fiquei surpresa, mas a médica falou que era normal...”

Segundo Gonzalez (2005), no início da gestação é possível que ocorra uma perda de peso, mas após, a tendência é engordar. Outras mudanças que puderam ser observadas pelas mesmas foram: cólicas e dor no seio: “G2: Mudança física, no começo tinha bastante cólica, dor no seio e tal, mas de resto tudo normal, nada de estranho assim.”

De acordo com Coslovsky e Leme (2005), durante a gestação devido à elevação dos níveis de estrógeno e progesterona é normal que ocorra um aumento no tamanho da mama, as quais tendem a tornar-se inchadas e doloridas.

O aumento no tamanho da mama, e aumento no tamanho da cintura também foi outra característica observada pelas participantes: “G6: No começo eu senti que o meu seio começou a crescer né, e na cintura começou alargar.”

Szejer e Stewart (1997), referem que a partir do segundo trimestre gestacional o corpo passa por algumas modificações: os seios ficam maiores, surge uma silhueta e o ventre passa a tomar volume.

Outra mudança observada por uma participante foi em relação ao cansaço físico, a mesma relatou sentir-se cansada durante a gestação: “G3: Bastante cansaço.”

É comum que a mulher sinta-se cansada durante este período. Cada mulher tende a reagir de um modo frente a gravidez. Umas ficam deitadas, passando a renunciar às atividades. Outras com tendências a negação da gravidez mostram-se hiperativas. Algumas continuam a levar uma vida normal, trabalhando. E há também aquelas que se sentem cansadas (SZEJER e STEWART, 1997).

No que se refere ao modo como foram vistas estas mudanças para as gestantes, todas aceitaram naturalmente e vêem esse fato como algo que faz parte da gravidez: “G1: Normal, até achei que ia ser bem maior sabe, ficar bem maior assim, mas não, foi bem tranqüilo...”.

G3: Normal, pra mim não atrapalha em nada.”

Quanto às mudanças emocionais, a maioria das participantes perceberam-se como mais emotivas e sensíveis, também relatam terem sentido mudanças no humor: “G4: Eu confesso que eu estou sendo bem temperamental assim, tem dias que eu estou super feliz, sabe, eu acordo de bem, eu to feliz, tem dias assim que eu tenho vontade de chorar.”

Caplan (1960), citado por Maldonado (2000), sugere que as oscilações de humor, tão presentes desde o início da gravidez, estão relacionadas às alterações do metabolismo. Por outro lado, há indícios de que as mudanças de humor durante este período devem-se em grande parte a um esforço de adaptação a uma nova etapa da vida, que envolve novas tarefas, responsabilidades, aprendizagens e descobertas.

Também tiveram gestantes que referiram se sentirem mais sensíveis: “G6: Se me fizer alguma coisa eu choro, ainda mais nesse último mês, meu deus do céu. Sei lá, fala qualquer coisinha que me ofende eu choro.”

Outras relatam sentirem-se mais nervosas: “G3: Assim...no caso bem mais respondona, briguenta, nervosa...”

Para Maldonado (2000), o aumento da sensibilidade está relacionado às oscilações de humor, é comum que a mulher durante este período torne-se mais irritada e vulnerável a certos estímulos externos que anteriormente não a afetavam tanto.

Outras mudanças emocionais que puderam ser observadas pelas gestantes foram em relação a sentirem-se mais calmas: “G7: Fiquei uma pessoa mais calma, eu era uma pessoa bem mais nervosa.”

Uma gestante relatou sentir-se mais responsável pelo fato de ser mãe: “G3: Bem mais responsável, bem mais...a gente pensa mais neles do que na gente. Tudo que a gente vai fazer pra eles...”

Segundo Klaus, Kennel e Klaus (2000), é importante que a gestante se adapte ao novo estilo de vida, passando a pensar não somente no seu bem estar, mas também nas responsabilidades que terá em relação aos cuidados e ao bem estar do bebê. Sendo assim, a gestante referida acima mostra um comprometimento e responsabilidade para com seu filho.

Embora durante a gravidez surjam muitas mudanças emocionais, uma participante referiu não ter tido mudanças no decorrer da gestação: “G2: No humor não, mesma coisa.”

Expectativas e sentimentos em relação ao bebê

De acordo com Szejer e Stewart (1997), os primeiros movimentos fetais ocorrem a partir do segundo trimestre gestacional. Na pesquisa a maioria das gestantes trouxeram o fato de ter começado a sentir os primeiros movimentos do bebê aos 4 meses de gestação. Apenas uma gestante refere ter sentido os primeiros movimentos no terceiro mês gestacional.

Com relação aos sentimentos expressos pelas mesmas, o que predominou foram sentimentos de alegria e emoção: “G4: Chorei de felicidade, de emoção, de tudo ao mesmo tempo, de senti que ela mexe, que realmente tá ali, que tá bem, que eu to sentindo. Foi ótimo!”

Até mesmo as gestantes que inicialmente rejeitaram a gravidez perceberam os movimentos fetais como algo bom, expressando também sentimentos de alegria e emoção. Tal fato vem a confirmar os resultados dos estudos realizados por Bonnaud e Revault D´Allones (1963), citados por Maldonado (2000), os quais mostraram que a percepção dos primeiros movimentos fetais tendem a favorecer a aceitação da gravidez na maioria dos casos, conforme pode ser ilustrado abaixo nas falas das participantes: “G7: Nossa, foi maravilhoso! Ainda mais que ela se mexia bastante.”

Outros sentimentos que apareceram nos relatos foram de desespero por achar que estava perdendo o bebê: “G3: Acho que tava no quarto mês. Me assustei, daí fui lá no laboratório né, daí minha pressão foi lá embaixo, e eu chorava, chorava num desespero, num desespero e a única coisa que eu pensava é que eu ia perder meu nenê.”

Outra participante referiu sentir-se assustada frente a aquela nova sensação de sentir o bebê se mexer: “G4: Confesso que ali no quarto mês e meio, não faz muito que ela começou a mexer. Então assim, a primeira mexidinha que eu senti assim eu lembro que eu tava sentada aqui no sofá, eu levei um susto, assim, dei um pulo. Meu Deus, mexeu pela primeira vez, foi assim, muito emocionante.”

Também pode ser observado um sentimento maior de ser mãe e de presença do feto como algo concreto: “G6: Eu me senti, meu deus, eu já me senti tipo mãe, senti o filho mexendo na tua barriga coisa assim né, tu sente ele, ah isso é muito bom.”

Para Maldonado (2000) é a partir dos primeiros movimentos fetais que a mulher passa a sentir o feto como uma realidade concreta dentro de si, como um ser separado dela e com características próprias.

As relações iniciais são determinantes para o desenvolvimento da personalidade da criança. Durante a gestação os pais já passam a imaginar como será o filho, dos aspectos físicos aos psicológicos. Já passam a inserí-lo de alguma maneira em suas vidas (SPALLICCI; COSTA; MELLEIRO, 2002). As expectativas se formam sobre o bebê imaginário que cada mãe constrói. Tais expectativas envolvem o sexo do bebê, o nome, a forma como ele se movimenta no útero, e as características psicológicas que lhe são atribuídas (SZEJER e STEWART, 1997).

Sobre as expectativas em relação à gravidez, a maioria das gestantes refere que espera que corra tudo bem durante esse período e que elas possam ter uma boa recuperação: “G1: Que corra tudo bem, né, que não precise fazer cesárea, que faça parto normal, pra ter uma recuperação boa, ir pra casa logo.”

Outro aspecto investigado nas gestantes foi sobre as expectativas e sentimentos sobre o bebê. As expectativas que as mães têm sobre seus bebês originam-se de seu próprio mundo interno, de suas relações passadas e suas necessidades conscientes e inconscientes relacionadas àquele bebê (RAPHAEL-LEFF,1997). A maioria das participantes refere ter sentimentos de amor pelo bebê: “G4: Olha, ao bebê, eu creio já, desde já, já está acontecendo, que essa criança está sendo muito amada e vai ser muito amada, né. Porque ela foi muito desejada, está sendo muito desejada.”

Outros sentimentos que apareceram nas falas das gestantes foram de apego: “G7: Eu já sou muito apegada a ela. Eu acho que depois, nos primeiros dias eu não vou querer soltar ela (ri). Vou querer ficar o tempo inteiro junto.”

A vontade da gestante de cuidar do bebê também foi outra característica que pode ser citada nesta categoria: “G3: Um sentimento assim que eu não consigo deixar ela longe. Eu vejo agora que o meu marido “ah eu vou cuidar dela, vou levar ela comigo, vou levar ela passear”. Não! Eu vou cuidar dela, tudo! com aquele amor, aquele carinho de mãe que a gente não sentia antes, até pela mãe da gente, hoje a gente vê que é diferente.”

Sobre as expectativas, a maioria das participantes relata que desejam que o bebê seja saudável: “G2: ...que o bebê venha perfeito, que venha com saúde.”

Uma das participantes refere ter a expectativa de que o bebê traga felicidade, harmonia, seja tranqüila, e que venha para melhorar a vida da família e do casal: “G4: Assim, as expectativas são as melhores, né, que ela venha, que ela traga felicidade, que ela traga harmonia, que ela seja tranqüila, que ela seja bem de saúde, né, e que venha pra melhorar a minha vida e a vida da minha família, do meu marido, da minha mãe.”

Percebe-se que a participante mencionada no exemplo acima (G4), que estava no sexto mês gestacional tinha expectativas de um bebê ideal, sobrecarregando-o de funções que talvez não venham a ser cumpridas, como por exemplo, esperar que o bebê venha para melhorar a vida do casal e da família trazendo felicidade e harmonia. Em comparação, as outras gestantes que já estavam nos últimos meses de gravidez, tinham uma tendência maior a imaginar um bebê real. Isso vem a confirmar os apontamentos de Caron, Fonseca e Kompinsky (2000), que afirmam que expectativas tornam-se mais freqüentes e intensas no segundo trimestre da gestação, momento no qual o feto através dos movimentos anuncia sua existência. Após o sétimo mês, a intensidade dessas expectativas tendem a diminuir, preparando o lugar do bebê real.
Expectativas e sentimentos em relação ao parto

Segundo Maldonado (2000), com a proximidade do parto a tendência é que ocorra um aumento da ansiedade por parte da gestante. A maioria das gestantes da pesquisa referem ter a expectativa de que tudo dê certo na hora do parto: “G2: Espero que corra tudo bem, que o nenê nasça bem e tal, que eu também fique bem depois né.”

Também mostrou-se presente a expectativa de que seja um parto tranqüilo e com pouca dor: “G3: Eu imagino um parto tranqüilo, com pouca dor.”

Com relação aos sentimentos em relação ao parto, puderam ser observados sentimentos de medo, dentre os quais: medo que algo aconteça com a gestante na hora do parto: “G5: É porque eu tenho um pouco de falta de ar, daí eu tenho medo de acontecer alguma coisa comigo assim, tipo, na hora, isso que eu penso.”

Uma das participantes referiu ter preocupações de não ter força suficiente para o bebê nascer: “G7: A minha preocupação é pelo tamanho da nenê, que chegue na hora e eu não consiga ter força o suficiente pelo tamanho da nenê.”

Para Maldonado (2000), com a aproximação do parto surgem temores e fantasias durante esse período, os quais podem ter um caráter de autopunição: o medo de morrer no parto, de ficar com a vagina alargada para sempre, de ficar com os órgãos genitais dilacerados pelo parto, de não ter leite suficiente, de ficar “presa” e ter que alterar sua rotina de vida. Nos exemplos das participantes citados acima puderam ser vistos o medo de que algo aconteça com a gestante na hora do parto, e também o medo de não ter força suficiente durante o parto.

Os medos das dores no momento do parto foi algo que também pôde ser evidenciado pelas participantes durante as entrevistas: “G6: Eu espero que corra tudo bem né, tipo, não ficar sofrendo lá deitada, sofrendo as dores, eu queria tipo assim que deu aquela dor, estourou a bolsa, nasce e acabou sabe. Pra não sofrer muito.”

Segundo Szejer e Stewart (1997), com relação às fobias do parto, podem ser citados o medo da dor, da peridural, de que o bebê não esteja bem, de que o médico não seja encontrado na hora do parto e também medo da separação, de não poder dar à luz, enfim, o medo de não superar esses obstáculos. Existem também as fobias de anormalidade em relação ao bebê. Como pôde ser observado na fala da gestante acima, existe uma preocupação no que se refere às dores do parto, fato que gera uma ansiedade em relação a essa experiência.

Somente uma gestante referiu que prefere não pensar a respeito de como será o parto, nem buscar informações sobre o assunto: “G1: Na verdade eu não to pensando muito nisso, e nem quero pensar, entendeu? Não quero projetar nada, quero chegar lá e...nem to pedindo muito pras pessoas assim como que é, como que não é, sabe?”

Sonhos com o bebê

Durante a gravidez é comum sonhar com o parto, com o bebê e com as alterações do esquema corporal, as expectativas em relação a si própria como mãe e em relação ao bebê (MALDONADO, 2000). Por meio desta categoria temática foi possível investigar como as gestantes estão se sentindo neste momento, suas expectativas e preocupações. Entre as participantes, pôde-se perceber que aquelas em que o parto está mais próximo têm mais sonhos com o bebê. A maioria dos conteúdos dos sonhos estava relacionados aos cuidados do bebê: “G2: ...até uma noite eu acordei, parecia que o bebê tava chorando e eu levantei da cama pra pegar o bebê (ri). Foi uma sensação muito estranha, parecia que tava lá em casa. E depois na outra vez eu sonhei também que tava dando banho no nenê, sabe, foi bem legal.”

Nestes sonhos relacionados aos cuidados, a maioria das mães mostraram saber lidar com o bebê nos sonhos, com exceção de uma gestante que trouxe no sonho questões relacionadas a uma preocupação de se dará conta de cuidar deste bebê: “G5: Ai, na verdade eu sonhei eu tinha 3 nenê, ai um em cada peito e o outro eu botei no lixo porque eu não tinha outro peito, vou por o nenê na lata (ri).”

Isso indica uma insegurança e preocupação da gestante em relação aos cuidados do bebê por ser seu primeiro filho.

Outro sonho que uma das participantes trouxe parece estar relacionado ao medo de perder o bebê: “G1: Todos os dias quase, nesses últimos meses quase todos os dias. Ou que me roubaram ou que eu não achava, ou que era muito pequenininha, só sonhos assim de preocupações, sabe?”

A própria gestante reconheceu que seus sonhos são relacionados sempre a preocupações que ela tem. Talvez estas preocupações ocorram devido a um medo consciente desta participante de perder novamente o filho, como ocorreu em outras gestações anteriores que a mesma teve.

Os temores da maternidade podem muitas vezes se manifestar através dos sonhos e fantasias conscientes antes e após o parto (MALDONADO, 2000). A gestante pode sonhar que o bebê nascerá com um defeito físico ou mental, com o sexo do bebê, com a fisionomia, a cor dos olhos, pode sonhar que o bebê foi roubado ou trocado no berçário ou que ele chegou antes da hora e ela não estava preparada para recebê-lo.

Apenas uma gestante, relatou não ter tido nenhum sonho com o bebê, a mesma estava no sexto mês gestacional: “G4: Não. Sonhar de sonhar, assim de dizer sonhei com o meu filho, não. Eu fico imaginando.”

O fato da gestante acima que estava no sexto mês gestacional não ter tido nenhum sonho com o bebê, vem ao encontro das afirmações propostas por Coslovsky e Leme (2005) de que os sonhos referindo-se ao filho e ao parto costumam ocorrer a partir do terceiro trimestre.


Expectativas em relação a mudanças após o nascimento do bebê

De acordo com Minuchin (1982), com a chegada de uma criança na família, é necessário que sejam efetuadas mudanças, para passar de um sistema de dois para um sistema de três, sendo assim, o funcionamento da unidade conjugal deve se modificar para satisfazer os requisitos da paternidade. Após o nascimento de uma criança surge um novo conjunto de subsistemas na organização familiar, atribuindo às crianças e aos pais novas funções.

No que se refere a como as gestantes imaginam que será após a chegada do bebê, todas participantes trouxeram questões relacionadas aos cuidados do bebê.

Conforme Szejer e Stewart (1997), a gestação pode ser percebida como um momento de preparação psicológica para a maternidade. Essa sensação pode ser percebida na fala da seguinte gestante: “G1: Eu nunca levantava de noite, então agora eu já levanto quatro, cinco vezes de madrugada ou pra ir no banheiro, ou pra comer, então quer dizer que Deus tá me preparando pra que quando ela nasça eu tenha que levantar essas horas pra dar alimento pra ela.”

Stainton (1985), citado por Piccinini et al. (2008), afirma que a relação entre pais e filhos começa na vida intra-uterina, configurando, a partir desse momento, os papéis paterno e materno.

Observou-se que durante o período gestacional as gestantes vão se preparando para a chegada deste bebê, e também imaginam como será após a chegada, mostrando assim uma consciência a respeito dos cuidados necessários: “G3: Muito emocionada, ver bem como é que ela é, sentir ela, será que ela puxa pro pai, puxa pra mãe. Pra mamar, a primeira alimentação, o primeiro banho, então a gente imagina e sente tudo isso.”

Quanto às mudanças após a vinda do bebê, as gestantes referem que terão que mudar alguns costumes que tinham anteriormente, como sair e fumar, mencionam que terão que abandonar estes costumes para proporcionar um melhor cuidado com o bebê: “G4: Tenho que pensar que não posso sair a hora que eu quero, não posso ir pra onde eu quero, que eu tenho que saber que eu tenho que levar o bebê, tenho que me preocupar a hora que ele sair, a hora que ele chegar.”

G1: Ah, vai mudar claro algumas coisas a gente vai ter que se privar né, alguns locais pra sair, alguns hábitos que a gente tem em casa, o meu marido é fumante, então é uma coisa que não vai poder ter dentro de casa.”

Outras respostas que apareceram foram quanto a ter que deixar de trabalhar por um período para ficar cuidando do bebê: “G2: Nossa, vai mudar tudo, a vida do meu marido, a minha. Até com o trabalho depois acho que não vou mais trabalhar na auto-escola até a nenê ter uma certa idade né, ficar cuidando do nenê.”

Boukobza (2002) refere que no âmbito profissional algumas atividades precisam ficar suspensas durante a gestação e após o nascimento do bebê. Para Smith (1999), citado por Piccinini et al. (2008), tal fato é esperado, pois a mulher tende a voltar mais para si e para o bebê, desta forma os demais aspectos da vida passam a receber uma menor carga de atenção e investimento.

Uma das gestantes mencionou que o que mudará com a vinda do bebê é que a partir deste momento ela terá menos liberdade e mais responsabilidade: “G6: Olha, acho que vai mudar muita coisa. Uma que vou ter mais responsabilidade, não é que venha ao caso que eu não tenha responsabilidade agora, né, mas depois minha responsabilidade é com ele praticamente né. Não vai ter essa liberdade que eu tenho agora, vai ser mais rígido o negócio.”

Para Klaus & Kennel (1992), a gestação impõem diversas mudanças na vida da mulher e em certa medida ocorre uma redução na liberdade. Com a gravidez a gestante passa a assumir uma maior responsabilidade por carregar um ser totalmente dependente dela. Rosenberg (2004) relata que as mães do primeiro filho sentem-se confusas e inseguras frente as diversas tarefas necessárias para os cuidados do bebê, visto que nada é familiar para elas, mas ao mesmo tempo é visto como algo prazeroso cuidar do bebê.


Sentimentos das gestantes que tiveram abortos anteriores

O aborto espontâneo é considerado uma das experiências mais dolorosas na vida da mulher, podendo gerar sentimentos de tristeza e choque frente a situação vivenciada pela gestante, bem como um sentimento de ansiedade em relação ao futuro. O aborto espontâneo pode ocorrer em qualquer momento da gestação, até o final da 24º semana de gravidez, após esse período, é denominado segundo a medicina como parto de natimorto (MARKHAM, 2004).

Uma participante da pesquisa relatou que já teve quatro gestações anteriores a esta, sendo que em todas as gestações ocorreram abortos. Pode-se perceber que esta participante mostrou um nível de ansiedade elevado: “G1: Nossa, foi horrível, horrível, horrível, horrível. Tanto que essa eu já fiquei afastada (do trabalho) desde o primeiro mês pra que não aconteça a mesma coisa.”

Outro ponto a ser observado foi o medo de perder este bebê, ou seja, o medo que ocorresse um aborto novamente nesta gravidez. Na fala abaixo é possível observar que o sentimento de ansiedade está presente: “G1: Hum...No momento eu to me sentindo bem assim, só bastante ansiosa né. E foi bem difícil, porque minha gestação foi de alto risco, tive que ficar em casa, tive que parar de trabalhar, ficar afastada, né. Mas a expectativa tá grande, muita ansiedade.”

A ansiedade dessa participante pode indicar um medo de que possa ocorrer novamente uma perda do bebê. De acordo com Markham (2004), sentimentos como luto, raiva, culpa, ressentimento e medo são comuns após o surgimento de um aborto espontâneo. O medo é vivenciado pela maioria das mulheres que tiveram aborto. Pode surgir o medo de nunca mais engravidar; medo de não completar a gestação de um bebê, e o medo que o companheiro não queira ficar com ela se for incapaz de ter filhos.

Conclusão

Por meio deste estudo foi possível observar as diversas mudanças, sentimentos e as expectativas que surgem nas gestantes durante esse período. Principalmente por serem gestantes primíparas, fato que torna essa experiência totalmente nova para a mulher.

Observou-se que as gestantes que tinham planos de engravidar receberam a notícia da gravidez de forma positiva, já aquelas que não tinham esse planejamento rejeitaram inicialmente a gravidez, mas com o passar do tempo aceitaram e criaram um vínculo com esse bebê. Percebe-se que a reação da família e do companheiro com a notícia da gravidez varia muito de acordo com o contexto do casal. Sendo assim, o tipo de relação que une esse casal tem uma certa influencia, bem como se o bebê estava nos planos deste casal. Os companheiros que tinham uma relação estável demonstraram alegria ao receberem a notícia.

O apoio da família e do companheiro é importante durante esse período para a mulher, pois isso influencia de forma significativa no apego com o bebê, bem como na aceitação da gravidez. Aquelas que receberam apoio do companheiro adaptaram-se melhor à gestação, em comparação com as gestantes que não tiveram um apoio do mesmo nesse período e que encontraram dificuldades em aceitar a gestação.

Neste período a mulher passa por diversas mudanças em sua vida. No que se refere às mudanças físicas as gestantes notaram aumento ou diminuição de peso, cólica, dor no seio, aumento no tamanho da mama e da cintura, bem como cansaço físico. Puderam ser evidenciadas mudanças emocionais relacionadas ao humor, fato que é comum durante a gravidez. Também surgiu a sensação de tornar-se mais responsável, o que é fundamental neste momento, visto que há um ser dependente dos cuidados maternos.

Os primeiros movimentos fetais despertaram nas gestantes sentimentos de alegria e emoção. Algumas sentiram-se assustadas, outras sentiram-se “mãe” a partir daquele momento. No que se refere às expectativas em relação à gravidez, as mesmas esperam que dê tudo certo durante esse período. Demonstraram sentimentos de amor e de apego pelo bebê, bem como uma vontade de cuidá-los. Mostram boas expectativas com o bebê, desejando que o mesmo seja saudável.

Quanto ao parto, as participantes esperam que tudo evolua bem. Algumas têm uma expectativa positiva, de que seja com pouca dor e tranqüilo, ao passo que outras demonstram medo das dores do parto e medo que algo dê errado com elas ou com o bebê. Ficou evidente o quanto as gestantes aumentavam o nível de ansiedade com a chegada do parto.

Por meio dos resultados, foi possível observar que as gestantes vão se preparando durante a gravidez para a chegada deste bebê, e imaginam como será após a chegada, demonstrando ter consciência a respeito dos cuidados necessários. As participantes mostraram estar conscientes sobre as mudanças que deverão ocorrer em suas vidas para adaptarem-se da melhor forma a esse novo papel e também visando o bem estar da criança.

Durante a gestação é importante que a grávida possa participar de grupos que iniciam um preparo para este período e através desta atividade se informar sobre suas dúvidas. Quanto mais informada estiver essa mãe, sobre o seu estado ou sobre o bebê, mais poderá agir de acordo com suas impressões e seus instintos. Essa autoconfiança é importante, visto que quanto melhor preparada ela estiver, consequentemente aumentará a confiança em si mesma e terá mais segurança para cuidar do filho (SPALLICCI; COSTA; MELLEIRO, 2002).

Os sentimentos e expectativas destas gestantes revelam a necessidade de se trabalhar esta temática em termos de saúde pública, com uma ênfase especial na construção de um positivo vínculo materno fetal, visando dessa forma auxiliar um melhor desenvolvimento emocional do bebê. Do mesmo modo, pode-se destacar a importância do trabalho do psicólogo, na participação de intervenções que propiciem as gestantes um espaço para compartilhar experiências e sentimentos acerca da gestação e do bebê.

Este estudo centrou-se nos sentimentos e expectativas de gestantes primíparas entre o sexto e nono mês gestacional, entretanto este é um fenômeno complexo que envolve diferentes aspectos que poderão ser investigados. Nesse sentido, como futuros trabalhos, sugere-se: investigar o grau de ansiedade de gestantes que tiveram abortos anteriores e os sentimentos e expectativas com relação à gravidez e ao bebê em gestantes solteiras.



REFERÊNCIAS

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BOUKOBZA, C. O desamparo parental perante a chegada do bebê. In L. Bernardino & C. Robenkohl. O bebê e a modernidade: abordagens teórico-clínicas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.
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SPALLICCI, M. D. B.; COSTA, M. T. Z.; MELLEIRO, M. Gravidez e nascimento. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002.

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