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Entrevista

Acessibilidade Estética” Para Deficientes Visuais



Virgínia Kastrup é doutora em Psicologia pela PUC-SP e professora-associada do Instituto de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Pesquisadora na área da deficiência visual, com vários artigos e livros publicados, concede entrevista para a revista Benjamin Constant sobre suas recentes investigações e projetos desenvolvidos que aproveitam a parceria com o Instituto Benjamin Constant.



Contato: virginia.kastrup@gmail.com
BC – Como você relaciona estética e cegueira?

Kastrup – Em termos de pesquisa, a articulação entre arte e cegueira possui, a meu ver, duas abordagens. A primeira consiste na investigação da representação do cego na literatura, na pintura e outras formas de expressão artística. A pesquisa da Zina Weygand é muito importante nessa área. Ela mostra como, desde a Idade Média, as fábulas e o teatro profano trazem a figura do cego bufão, desajeitado e grosseiro, bem como do cego mendigo, geralmente acompanhado de um guia. Também é muito comum a figura do falso cego, que explora a caridade das pessoas. Tais personagens podem inspirar o riso, o terror, a repugnância ou a compaixão. Muitas vezes, a ausência de visão simboliza o obscurecimento da inteligência e mesmo uma cegueira moral. De modo geral, a cegueira vem associada a uma condição degradante. Outras vezes, o cego é apresentado como uma pessoa dotada de uma vidência especial e de uma capacidade mística. Há incontáveis aplicações metafóricas do termo cegueira no domínio do conhecimento e no domínio moral, significando confusão do juízo, privação da reflexão, do discernimento e da razão. São em sua maioria representações negativas, com ênfase na deficiência. Eu procuro seguir a outra abordagem. Penso que a arte pode abrir caminhos e perspectivas inusitadas para pessoas com deficiência visual, tanto aquelas cegas quanto as com baixa visão. Isso vale tanto para as que já nasceram cegas quanto para as que vieram a perder a visão precoce ou tardiamente. A experiência da perda da visão pode assumir a extensão de uma experiência de perda generalizada, ou seja, o sentimento de que tudo foi perdido: a alegria, o trabalho, mas também a dignidade e a autonomia, enfim, o lugar no mundo. Mais do que perda da identidade, experimenta-se, muitas vezes, a perda do mundo ao seu redor, pois a interrupção de rotinas leva consigo uma rede de relações e, enfim, grande parte das conexões com o mundo. As pessoas sentem-se muitas vezes solitárias e atingem um grau de extrema vulnerabilidade.
BC – Na segunda abordagem, os sujeitos da pesquisa são os produtores e apreciadores da arte, e não personagens. Qual a importância das experiências artísticas em grupos de convivência e em oficinas para o deficiente visual e desses mesmos espaços para a observação do pesquisador?

Kastrup – Nesse contexto, as oficinas de práticas artísticas são muito potentes. Sua função por vezes é apresentada como sendo a de ocupação do tempo e de saída da ociosidade; outras vezes é a capacitação profissional que ganha destaque. Embora essas funções existam, elas não tocam o ponto essencial. Em meu entendimento, o que caracteriza em primeiro lugar a oficina é que ela é um espaço de aprendizagem inventiva. As oficinas são espaços de fazer junto. Trabalha-se em grupo em um processo de criação coletiva. O processo de aprendizagem inventiva se faz por meio do uso da arte, que envolve o trabalho com materiais flexíveis, que se prestam à transformação e à criação. Na pesquisa que realizamos aqui no Instituto Benjamin Constant (IBC), na oficina de cerâmica coordenada pela Clara Fonseca, fomos capazes de acompanhar um trabalho maravilhoso, muito potente nessa direção. Há efeitos notáveis de produção de subjetividade, ao mesmo tempo em que ocorre a produção das peças de cerâmica. Nesse caso, o processo de criação é, ao mesmo tempo, um processo de autocriação. O encontro com o barro é também ocasião para o encontro consigo mesmo. É nesse sentido que afirmamos que a prática com a cerâmica virtualiza a subjetividade, produzindo novas atualizações. Há também outras oficinas que vêm produzindo efeitos muito interessantes, como as de corpo, movimento e expressão, desenvolvidas pela Laura Pozzana, doutoranda da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e a coordenada pela Marcia Moraes, da UFF (Universidade Federal Fluminense), ambas aqui no IBC.


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