Revendo a questão do dia gnõstico em gestalt-terapia



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I

NSTITUTO DE TREINAMENTO E PESQUISA


EM GESTALT TERAPIA DE GOIÂNIA

ITGT


REVENDO A QUESTÃO DO DIA GNÕSTICO EM GESTALT-TERAPIA:

ENTENDIDOS E MALENTENDIDOS *
Lilian Meyer Frazão

A questão do diagnóstico é uma questão bastante controvertida em Gestalt­Terapia. Um número bastante grande de Gestalt-Terapeutas se opõem ao uso do diagnóstico em nossa abordagem psicoterápica.

Para Rosenblatt “Um diagnóstico é uma maneira limitada de reduzir uma pessoa a um conceito” (1975, pg. 16).

Para Yontef alguns Gestalt-Terapeutas veem “o diagnóstico e a relação dialógica com o paciente como diametralmente opostas uma à outra “. (1993), pg. 389).

Delisle diz que “A Gestalt-terapia, bem como todo movimento humanístico, rejeitou a idéia de diagnóstico como sendo despersonalizante. anti-terapêutica e politicamente repressiva. “(1990, pg. 42).

Creio que os Gestalt-Terapeutas que se opõem ao diagnóstico acreditando ser ele um perigoso rotular, na realidade talvez se refiram a critérios diagnósticos, que tem uma função operacional, cujo óbjetivo é oferecer-nos uma convenção que nos posibilite uma comunaiidade de linguagem e de critérios (Exemplo. DSM III e CID 10). A função desses critérios diagnósticos é verificar o que há de comum entre os homens. Neste sentido visa agrupai nomear e classificar tudo aquilo que se refira à perda dos mecanismos nonnais de funcionamento. Desta forma, a meu ver, não o diagnóstico, mas os critérios diagnósticos, embora tenham sua utilidade, poderiam estar incorrendo naquilo que muitos Gestalt-Terapeutas crêem ser um perigoso rotular

O que falta aos critérios diagnósticos é uma descrição e uma compreensão mais aprimorada do funcionamento psíquico de cada indivíduo em sua singularidade.

Cito novamente Delisle que coloca que ao implicitamente manter que a reflexão a respeito de diagnóstico é despersonalizante, talvez tenhamos nos esquecido que é tão despersonalizante, antiterapêutico e repressivo negar a existência de diferenças reais entre indivíduos quanto é fazer de conta que diferenças que na realidade existem, não existem. (1990, pg. 43).

Yontef ao se referir aos Gestalt-Terapeutas que se opõem à questão do diagnóstico deixa claro que prescindir do diagnóstico “limita severamente a competência de um terapeuta e a eficácia e segurança da terapia. “(1993. pg. 389).

Belak e Small chamam nossa atenção para o fato de que é preciso considerar que na atualidade diagnosticar visa determinar a relação da pessoa com a qual nos deparamos na terapia com ós acontecimentos passados e atuais de sua vida, sendo que a dinâmica da situação presente pode ser ident~ficada na história do indivíduo. (1980, pgs. 51 e 52).

Do meu ponto de vista quando pensamos em diagnóstico não devemos pensar em categorizações. Não se trata simplesmente de categorizar o Homem em doente ou saudável, bom ou mau, normal ou anormal, adequado ou inadequado.

A palavra diagnóstico vem da conjunção de duas palavras: DIA, que quer dizer “através de “e GNOSE, que quer dizer conhecimento. Portanto DIA -GNOSE significa conhecimento através de. Só posso conhecer o paciente, de um lado, através dele mesmo; através daquilo que ele próprio me apresenta: seu discurso, seu corpo, sua postura, seus sentimentos e a coerência ou incoerência destes aspectos; e de outro lado posso conhecê­lo através de minha relação com ele. Para tanto uso meu olhar~ meus sentidos e meus sentimentos, minha intuição, minhas fantasias, meu conhecimento e minha observação em busca de conhecer o paciente.

Este processo de conhecimentos se dá num campo, no qual intervem variáveis tanto do terapeuta quanto do cliente, sendo que, obviamente, nosso interesse é o de apreender neste campo relacional tudo aquilo que for possível do cliente. Neste sentido quanto menos diretivos pudermos ser tanto melhor; quanto mais a configuração deste campo for determinada peio cliente, tanto melhor

Bleger tece uma importante consideração a este respeito: “... cada ser humano tem organizada uma históriade sua vida e um esquema de seu presente, e desta história e deste esquema temos que deduzir o que ele não sabe”(1980, pg. 16). Acrescenta este mesmo autor que”... aquilo que não nos pode dar como conhecimento explícito, nas éoferecido ou emerge através de seu comportamento não-verbal; e este último pode informar sobre sua história ou seu presente em graus muito variáveis de coincidência. ou contradição, com o que expressa de modo verbal e consciente. “(1980, pg. 17).

Como já coloquei em outro tra balho por mim apresentado, o paciente me traz no aqui-e-agora aquilo que sabe de si ou pode comunicar de si, (Frazão, 1991).

O aqui-e-agora que o cliente nos traz é afigura, figura esta que se insere num fundo que no primeiro momento de contato desconheço, mas que sei dar sentido àfigura. Se desejo compreender o cliente é preciso que eu compreenda inicialmente sua queixa, isto é, compreenda a relação que existe entre esta figura/queixa e o fundo; é a relação entre figura e fundo que dá significado à figura.

Neste sentido é importante compreender qual o sentido da queixa que o cliente traz, na totalidade de sua existência. A queixa é algo que se dá no aqui-e-agora, mas épreciso compreender que este aqui-e-agora não é apenas o presente, ahistó rico. Trata-se de uma figura que se insere num fundo e por fundo entendo a história da pessoa, suas experiências de vida, etc...

De acordo com Etchegoyen devemos tentar “ver como o indivíduo funciona e não como diz que funciona” (1987, pg. 28).

Barroso coloca que diagnósticar é um “saber através “; um saber através da historicidade, do tempo e espaço onde individualidades se entrecruzam e prosseguem se dando a conhecer (1992, pg. 55).

Para Yontef “Diagnóstico pode ser um processo de respeitosamente prestar atenção a quem a pessoa é, tanto como um indivíduo único quanto em relação às características partilhadas com outros indivíduos “. (1993, pg. 396)

De acordo com Tellegen ‘Diagnosticar é detectar a configuração especifica
- --‘ - - . .

com que se articulam as partes em cada situação concreta. Diagnosticar é um processo e o começo .do vislumbre de uma possível re-configuração do campo. E vislumbrar a possibilidade de mudança já é mudança. Estamos longe do diagnóstico como rotula ção”. (1986, pg. 4)

Meu intuito ao buscar a relação de significado entre figura e fundo é saber como o indivíduo funciona; compreender como é seu sistema total de funcionamento.

Yontef parece ter uma visão semelhante quando diz que”... O diagnóstico em Gestalt-terapia deve ser feito com total reconhecimento da estrutura do todo. Quando lidando com pessoas isto quer dizer levar em consideração a sua auto-imagem e sua identidade ao longo do tempo, o contexto do significado de sua interação presente, a história de tais interações em vários contextos que fonnam o background do momento presente, e assim por diante”(1993, pg. 407)

A pergunta que me faço é: à serviço do que está a queixa e o sofrimento que o paciente apresenta? Qual a relação de funcionalidade que existe entre esta queixa e o existir total do indivíduo?

Esta é, do meu ponto de vista, a questao central do diagnóstico em Gestalt­Terapia: relacionar o aqui-e-agora do cliente ao lá-e-então de sua existência. O diagnóstico então é buscar no fundo (no duplo sentido que a palavra pode ter neste contexto) a compreensão da figura.

A queixa, via de regra é uma cristalização da figura: um padrão que se repete; uma re-petição, i. e., um pedir novamente e este pedir se repete justamente em busca de um atendimento do pedido. Trata-se de uma gestalt incompleta que busca, através da repetição, um fechamento.

Hycner concebe a ‘patologia” como um distúrbio da existência inteira da pessoa, e como uma ‘manifestação’ das necessidades que devem ser atendidas, no sentido da existência desta pessoa se tornar mais completa.”(1991, pg. 40) Diz também este autor que a patologia é resultado de um antigo diálogo abortado. (1990, pg. 45).

Novamente instaura-se uma pergunta: o que impediu o fechamento desta Gestalt? Certamente a Gestalt não se fechou por falta de condições de completude e éisto, em última instância que o paciente busca em terapia: condições para completar Gestalten inacabadas, com vistas a superar os bloqueios que impedem seu crescimento.

Estas Gestalten inacabadas, que podem ser entrevistas na queixa ou nos sintomas que o paciente nos apresenta revelam formas defuncionamenta do indivíduo que em algum momento se tornaram necessá rias para sua sobrevivência psíquica e neste sentido em algum momento se constituiram enquanto ajustamentos criativos. A questão é que, na medida em que estes ajustamentos permaneceram ao longo do tempo, por serem necessidades não satisfeitas, deslocadas no tempo e no espaço, acabaram por se constituir em ajustamentos disfuncionais, embora seja de fundamental importância compreender que em algum momentoforamfuncionais e criativos.

Pensar os sintomas como ajustamentos criativos não implica apenas uma mudança de nome. O que estou propondo é uma mudança de atitude, que tem, implícita, uma ideologia, em que a patologia é vista como o único caminho adaptativo possível para o indivíduo. (Frazão, 1992, pg. 49).

Da primeira questão por mim colocada (o que impediu e continua impedindo o fechamento da configuração?) chego a uma segunda questão: de que maneira esta Gestalt pode se completar de maneira a restaurar no indivíduo a possibilidade de crescimento e desenvolvimento?

No caso da primeira questão sua função é ajudar-me a diagnosticar o que se passa com esta pessoa, e no caso da segunda questão sua função é a de, a partir do diagnóstico, i.e., a partir da compreensão da totalidade da existência da pessoa e de sua singularidade, ajudar-me a perceber a melhor maneira de trabalhar com este cliente específico.

Para Yontef o diagnóstico deve auxiliar a “... fazer discriminações a respeito de padrões gerais, a respeito de que tipo de pessoa o paciente é, quais seus problemas e forças centrais, qual será o desenvolvimento provável do tratamento, que abordagens poderão funcionar melhor, qüais os sinais de perigo. “(1993, pg. 396). Para este autor o ‘Diagnóstico possibilita ao terapeuta ser mais preciso, discriminado e articulado na compreensão da realidade particular e diferenàiada de cada paciente individual e de cada tipo de paciente”. (1993, pg. 398).

Tellegen ressalta que “... o terapeuta tem uma função esclarecedora, ao ajudar o cliente a desvendar relações de significados. A sua tarefa é dirigir discretamente a atenção do cliente para aspectos da situação não incluídos na percepção deste.” (1986, pg. 9).

Para Latner no diagnóstico “O terapeuta continuamente avalia a extensão do passo crescente que o paciente pode dar no desenvolvimento de sua awareness e em qual ponto a experimentação pode começar. A ênfase é naquilo que o paciente pode fazer, o que não pode e quão grandes são os passos entre uma coisa e outra.” (1974), pg. 207)

O diagnóstico é como um mapa, e como tal impreciso, falho, como todo mapa. Ele apenas dá uma idéia do que se passa com o cliente, mas não é o cliente. Sua função é possibilitar-me, de um lado, compreender o que se passa com o cliente e em nossa relação; e de outro a discriminar o melhor caminho para ajudar este cliente a lidar com suas figuras cristalizadas e com seus bloqueios com vistas a superá-los e retomar seu processo de crescimento e desenvolvimento, ou seja, afunção do diagnóstico é ajudar-me a discriminar a melhor maneira de favorecer a emergência de novas configurações que possibilitem a resigníficação do fenômeno.

Gostaria de falar um pouco do diagnóstico no momento inicial do processo terapêutico. Como disse anteriormente a condição sine qua non para desenvolver um trabalho conjunto com o cliente é que eu possa compreendê-lo (apreendê-lo com). Épreciso que eu- esteja disponível para conhecer a pessoa que me procura em busca de terapia. Para tanto considero imprescindível que antes de- iniciarmos um processo terapêutico com o paciente (uma longa jornada a dois), tenhamos tempo para nos conhecermos. Jean Juliano (1972, pg. 9) faz uma analogia do processo terapêutico com a situação de viagem. Penso que para embarcarmos numa viagem a dois é preciso que antes da viagem tenhamos a oportunidade de nos conhecermos, tanto o paciente a mim, quanto eu a ele. Para isto penso ser imprescendível que o processo terapêutico seja precedido por entrevistas que visam oferecer esta oportunidade, bem como possibilitam um diagnóstico inicial.

Creio ser importante discriminar que quando falo de entrevista não estou me referindo à anamnese. A anamnese parte de um pressuposto bastante diferente daquele do qual parte a entrevista. Na anamnese temos o objetivo de compilar dados previamente estabelecidos afim de obter um histórico de vida do paciente. Parte-se do pressuposto de que o paciente (ou seus familiares) podem nos fornecer estes dados.

Na entrevista partimos de um pressuposto bastante diferente deste: o de que, como já coloquei anteriormente quando citei Etchegoyen, devemos tentar “ver como funciona o indivíduo e não como diz que funciona”. (1987, pg. 28).

Como já coloquei em outro trabalho, o caminho da elaboração de um pensamento dia gnástico não é um caminho linear Sua função é a de ajudar-me aperceber o cliente; percebê-lo para compreendê-lo, para com ele estabelecer uma relação. Para isto é importante que eu compreenda a dinâmica de seu funcionamento psiquíco.

Para isso faço uso de qualquer coisa que o cliente me apresente e que ocorra em nossa relação inicial, sendo que presto especial atenção àquilo que me impacta. àquilo que de início chama e prende minha atenção e que entendo serem sinalizações da figura em direção ao fundo. Não se trata apenas daquilo que acontece (o o que) mas principalmente ao como acontece. Isto implica numa postura de disponibilidade e atenta curiosidade. Presto atenção:

ao conteúdo de seu discurso -

à forma de seu discurso

à sua energia

ao seu sofrimento

à sua postura corporal

à sua aparência

à sua afetividade ou bloqueios dela

à sua queixa.

à sua voz, etc. etc.

Aquilo que me impacta nesse momento inicial da relação é a figura para mim e quando falo em impacto não me refiro necesariamente a apenas uma coisa. Várias coisas podem me impactar e busco a relação entre estes diversos impactos, como se cada coisa que me impactasse representasse aquela peça chave do quebra-cabeças que pode me indicar pistas em direção à apreensão e compreensão da dinâmica de funcionamento psíquico do cliente.

Estou constantemente em busca da relação entre afigura e o fundo e quando falo em figura-fundo não estou em busca de uma relação causal (relação causa-efeito) e sim em busca de uma relação dialética (relação de relações). Busco compreender como os vários elementos se relacionam entre si e com o fundo; com a totalidade da existência da pessoa em todos os planos:

- sua história de vida

- seus relacionamentos passados, em especial as relacões primárias singnificativas

- seus sucessos e insucessos nas mais diferentes esferas (amorosa, profissional, afetiva, etc.)

É a partir do contexto total da história do cliente que será possível compreender sua. história presente e seu sofrimento, que contém em si gestalten inacabadas, gestalten estas que uma vez fechadas implicarão numa resigrnficação do sujeito e de seu mundo. É a relação figura-fundo que vai dar origem e esta hipótese que chamo dediagnóstico; hipótese diagnóstica.

Obviamente ao longo do processo de desenvolvimento do trabalho com o cliente não busco confirmar minha hipótese. Ela se constitue tão somente num primeiro parâmetro norteador para meu trabalho com o cliente.

Por outro lado é preciso cuidado para que este primeiro parâmetro norteador não se transforme por sua vez numa figura cristalizada, um rótulo diagnóstico.

Na realidade quando falo em diagnóstico estou me referindo a uma hipótese especulativa, hipótese esta que vai se modficando constantemente, ao longo de minha relação com o cliente, ou seja, quando falo em diagnóstico falo de um pensamento diagnóstico em processo, um pensamento diagnóstico processuaL Da mesma forma que o trabalho terapêutico é um trabalho que se desenvolve ao longo de um processo, também o pensamento diagnóstico acompanha este processo; à medida que ocorrem reconfigurações no sujeito e do sujeito, meu pensamento enquanto terapeuta se reconfigura.

O pensamento diagnóstico se constituirá num parâmetro norteador de minha conduta enquanto terapeuta, mas não deverá jamais interpor-se no entre de minha relação com o cliente. Trata-se de um suporte para o trabalho do terapeuta, cuja função como já disse anteriormente é a de, de um lado, ajudar-me a compreender o cliente em sua totalidade, e de outro, aguçar minha observação como terapeuta e neste sentido ajudar-me a ver o melhor caminho a trilhar com este cliente espec(fi co.

O pensamento diagnóstico ajuda-me a evitar propor experimentos ou trilhar caminhos que não só não ajudem o cliente, mas pelo contrário possam acentuar a evitação ou reforçar a figura cristalizada.

Desejo ainda ressaltar a importância de termos a flexibilidade de decompor e recompor o diagnóstico constantemente, pois será está flexibilidade que nos possibilitará estar acompanhando o processo do cliente. Por esta razão falo em pensamento diagnóstico processual, o que implica em falar do crescimento do cliente, de sua relação consigo e com O outro, de seu mundo intra e inter pressoal e portanto de uma constante reconfiguração do pensamento diagnóstico que dê conta de acompanhar a beleza deste processo de crescimento e transformação do cliente.



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