Resenha do livro a corporeidade do cego de Eline Porto



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RESENHA

Conexões entre corpo e cegueira


A CORPOREIDADE DO CEGO. NOVOS OLHARES (128 páginas)

PORTO, E.

São Paulo; Piracicaba: Memnom; UNIMEP, 2005.



Leonídia Borges

Professora de 1º e 2º Grau do Instituto Benjamin Constant/IBC - Rio de Janeiro, Brasil


Marcia Moraes

Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense/UFF - Rio de Janeiro, Brasil


Maria Rita Campello Rodrigues

Professora do Instituto Benjamin Constant/IBC - Rio de Janeiro, Brasil


Marlíria Cunha

Professora de Artes do Instituto Benjamin Constant/IBC - Rio de Janeiro, Brasil


Regina Maria Fernandes Chimenti

Professora do Instituto Benjamin Constant/IBC - Rio de Janeiro, Brasil


No mundo ocidental o conhecimento tem sido prioritariamente um atributo do intelecto. Em seu livro, Eline Porto segue na contramão dessa tradição e focaliza o universo da corporeidade do deficiente visual, considerando o corpo como a base para a construção do conhecimento, já que é através das experiências vividas que o sujeito conhece o ambiente que o cerca. Investigando o tema da corporeidade a autora procura revelar como se estabelecem as relações do deficiente visual consigo mesmo, com o outro e com o mundo: “O processo do conhecimento é, antes de tudo, um processo corporal” (p. 104). Todo ser humano é presença no mundo e isto se efetiva por meio do seu corpo. E todo “corpo é vida, é movimento e é sentimento, de certa forma, independentemente de sua condição física, social, cultural e política. O corpo ... é quem permite ao ser humano estar presente ... vivendo todas as situações ... que possam surgir; corpo é ser no mundo” (p.22).

Dividindo seu livro em cinco partes, em que o tema proposto é abordado sob diversos ângulos, ela apóia-se na Fenomenologia e na Teoria da Complexidade para desenvolver seu estudo, e ainda utiliza depoimentos de sujeitos cegos, que revelam como vivem essa corporeidade. A presença desses depoimentos confere ao livro a importância de dar voz aos próprios deficientes visuais, deixando-os falar sobre os seus modos de perceber e estar no mundo.

Num ambiente social criado e projetado para e por videntes, em que os estímulos visuais, a cada dia, e cada vez mais, fazem parte da vida das pessoas, compreender sobre como o cego percebe, relaciona-se e insere-se nesse mundo é o objeto das reflexões da autora.

E, como bem lembra Eline Porto, recorrendo a Elcie Masini, na relação entre o cego e o vidente, a identidade do deficiente visual estabelece-se a partir da falta da visão e não da presença dos outros sentidos. Dito de outro modo, a autora chama a atenção para o fato de que o deficiente visual é considerado mais pelo que lhe falta, isto é, a visão, do que pela suas possibilidades, pela positividade dos sentidos que ele possui.

O tema da cegueira tem sido amplamente discutido por outros autores (Batista, 2005; Simmons; Santin, 2000) que apontam para o fato de que o enfoque comparativo apaga uma outra definição de cegueira: aquela que a considera não como falta, mas como uma outra modalidade de relação com o mundo, que tem suas especificidades, suas singularidades. Considerar a cegueira positivamente, como um modo singular de estar no mundo é a proposta destes autores, entre os quais situamos Eline Porto.

A autora afirma que aquilo que é “invisível aos olhos do cego não é invisível à sua sensibilidade, intencionalidade e interioridade” (p.25). Sua percepção do mundo é própria, individual, única, assim como a de qualquer pessoa, deficiente ou não. E essa percepção única baseia-se nas experiências, sentimentos e sensações que vão sendo acumuladas ao longo da existência de cada um – mundo vivido (Lebenswelt). A diferença é que o deficiente visual constrói seu mundo sem a percepção do visível aos olhos.

Para a autora é ter uma visão reducionista pensar na percepção apenas biologicamente. Não há razão para identificar-se o sentido com a subjetividade. O corpo é mais do que as coisas vistas; ele é o centro do campo perceptivo que o circunda e, tanto para o vidente como para o cego, viver no mundo implica a “possibilidade de percebê-lo além do ver com os olhos e sentir com os sentidos” (p.36).

A autora diz ainda que não há diferença entre o mundo dos videntes e o mundo dos cegos. O que existe é a maneira como cada um deles percebe esse mesmo mundo real e o elabora internamente, de acordo com suas singularidades, possibilidades e experiências. E argumenta que os videntes, como os cegos, também vivenciam diferentemente situações idênticas, porque são seres diferentes em sua essência e existência. O mesmo ocorre de cego para cego e de vidente para vidente, porque “todo ser humano é único e particular na sua relação com o mundo” (p.37).

Eline Porto ressalta ainda que a condição de deficiente não deve ser considerada como negativa ou inferior, mas ser encarada como uma das possibilidades de estar no mundo, porque, como afirma adiante, “ser corpo deficiente não significa ser corpo ausente; ser corpo deficiente é ser corpo como outro ser qualquer” (p.38).

A autora cita Merleau-Ponty (1991), que afirma ser o corpo


o vínculo entre o eu e as coisas... ele é um todo envolvido e envolvente no espaço que lhe é próprio e único, pois ao movimentar-se, vive pela percepção de seu eu interior e exterior, sensações que só a ele pertencem e podem ser percebidas (p.39).

Desse modo, para sentir o outro na sua essência e existência, teríamos que ser esse outro. Constatando a impossibilidade dessa ação, pois um vidente nunca poderá sentir e viver como o cego e, já que para o primeiro o mundo apresenta-se através da visão, a autora sugere que se mantenha uma relação em que a comunicação se estabeleça de modo verdadeiro entre os dois sujeitos, cego e vidente, para que cada um deles apreenda o mundo do seu jeito próprio e crie possibilidades de troca sobre o que é percebido e vivenciado por cada um.

Eline Porto, ao enfocar a educação propõe uma mudança de paradigma, que reconhece já vir ocorrendo – inclusive com o advento da inclusão. Para ela, o processo do conhecimento é eminentemente corporal, pois só acontece com a “presentidade” corporal e seu desenvolvimento na relação com o mundo acontece por meio da educação. Ela espera que, com essa nova mentalidade, o cego e outros deficientes sejam considerados em sua singularidade, na medida em que as pessoas passarão a compreender e aceitar limites e diferenças.

Em vários pontos o livro de Eline Porto leva-nos a refletir sobre as relações entre cegos e videntes, tópico fundamental no debate sobre inclusão. Como compreender os modos de conhecer e de perceber dos cegos? Quais são os referenciais que um cego utiliza para perceber o espaço, a profundidade, o tempo? São questões que a autora levanta, adiantando como resposta o papel do corpo como solo da cognição entre os deficientes visuais.

No entanto, em algumas passagens observamos uma hesitação da autora no que toca ao enfoque dado ao tema da cegueira. Porque, se de um lado Eline Porto afirma que o cego deve ser considerado em suas especificidades, e ser reconhecido por elas, de outro lado a autora assume a perspectiva que compara cegos e videntes. Ao apostar na peculiaridade que o cego tem para conhecer o mundo a autora afirma que “surge a necessidade de entender sob quais parâmetros este ser humano que vê o mundo não com os olhos, mas vê o mundo pelos sons, pelo tato, pelo olfato, pelo paladar, enfim pelo corpo, é denominado cego” (p.24). Mais adiante, comentando acerca das relações entre as linguagens oral e corporal ou gestual, Eline Porto faz uma afirmação que nos pareceu conflitante com o que mencionou na citação anterior. Diz ela que, com relação à linguagem corporal ou gestual, “o cego, na maioria das vezes, mostra-se bem limitado ao ser comparado com o vidente, pela impossibilidade que o primeiro [o cego] tem de imitar o segundo [o vidente]” (p.81). As citações acima são exemplos do que nos pareceu ser uma hesitação da autora com relação ao modo de tratar o tema da cegueira: ora comparando o cego com o vidente, ora considerando o cego em suas peculiaridades. Tais hesitações são, sem dúvida, parte do cotidiano daqueles que se interrogam sobre o que é o conhecer sem o ver. Seguindo as indicações do filósofo Deleuze (1988), consideramos que a contradição, os paradoxos e os impasses são parte do pensamento, são aquilo mesmo que força o pensar e produz diferenças.

Nesse sentido, afirmamos que o livro de Eline Porto é um subsídio importante para a compreensão do deficiente visual como sujeito interagindo com o mundo, a partir desses “novos olhares sobre a corporeidade do cego” que a autora propõe, e, na medida em que certas proposições da autora nos causam estranheza, a obra também se coloca como fonte para reflexões, estudos e debates.



Referências Bibliográficas
BATISTA, C. G. Formação de conceitos em crianças cegas: questões teóricas e implicações educacionais. Psicologia. Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 21, n. 1, p. 7-15, 2005.

DELEUZE, G. A imagem do pensamento. In:_____. Diferença e Repetição. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

SIMMONS, J. N.; SANTIN, S. Problemas das crianças portadoras de deficiência visual congênita na construção da realidade. Revista Benjamin Constant. 2000 Disponível em: http://www.ibcnet.org.br/Paginas/Nossos_Meios/RBC/RBC_16.htm.

Acesso em: 2003.


Recebido em: 29/11/2007

Aceito para publicação em: 14/01/2008

Endereço eletrônico: mmoraes@vm.uff.br
Editor responsável: Anna Paula Uziel


ISSN: 1808-4281

ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICOLOGIA, UERJ, RJ, ANO 8, N.3, P. 814-817, 2° SEMESTRE DE 2008

http://www.revispsi.uerj.br/v8n3/artigos/pdf/v8n3a18.pdf


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