Relato memorial sobre a minha educaçÃO



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Encontro04.03.2018
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O mundo em mim

A minha formação superior foi de descobertas intrínsecas e extrínsecas. Li coisas que jamais imaginaria que alguém pudesse ter pensado, nem escrito. Conheci a Filosofia e me encantei. Li sobre a formação da personalidade das pessoas. Sobre as psicopatologias. Vi-me no laboratório de anatomia e jamais esquecerei o toque da campainha anunciando o fim do tempo para identificar as peças do anatômico na gincana avaliativa. Em Biologia revi a função das mitocôndrias, relembrei o que era pinocitose e fagocitose, osmose e osmeostase. Pela primeira vez entendi que o que estudara no colegial me servira para alguma coisa: eu já havia ouvido falar naquelas estruturas e processos biológicos. Cursei Fisiologia e entendi um pouco sobre o funcionamento e a estrutura do cérebro. Depois disso, vi que não bastava a estrutura, havia algo meio mágico e que havia pessoas, em várias partes do mundo e em épocas diferentes ou concomitantes que tentavam decifrar os chamados processos mentais.

De volta às salas de aula fora do Centro de Biociências da universidade, aprendi sobre motivos, emoções, percepções e as distorções perceptivas. Aprendi que cada um tem a sua verdade e por mais que para mim aquilo seja um equívoco, ainda continuará sendo verdade para o outro, esbraveje eu ou não. Estudei sobre a estrutura e dinâmica a personalidade; sobre a discussão do que é herdado, genético, congênito ou adquirido. Li e me apaixonei por Freud e por Ana O. Choquei-me ao assistir “Laranja Mecânica”, mas só assim compreendi o behaviorismo radical e a fragilidade da psiquê.

Foi em minha experiência de formação superior que pude experimentar estudar em grupo; que fiz provas dissertativas com cinco páginas escritas sem ter medo de ter errado na fórmula e ter posto tudo a perder. Foi lá que entendi que tenho limites e que devo respeitar não a eles (os meus limites), mas a mim por tê-los.

Foi naquela época que ouvi uma professora dizer que um excelente psicólogo deveria ler todos os livros, ver todas as peças de teatro e assistir a todos os filmes. Quando ouvi, aquilo não fez muito sentido para mim... Mas hoje compreendo plenamente a essência do raciocínio dela.

Aprendi sobre a aprendizagem significativa. Li sobre Vigotisk, Piaget, Carl Rogers, Alexander Lowen, Pichon e Kurt Levin. Estudei pelo livro de Anastasi, entendi o que significa HTP (house, tree and person), apliquei e me submeti a testes psicológicos. Nesta época tive a oportunidade de ser monitora da disciplina TEP – Técnicas e Exames Psicológicos. Costumo dizer que como monitora fui aprendiz de professor. Aprendi sobre o processo de desenvolvimento da criança e compreendi o que era prontidão atitudinal.

Foi cursando Psicologia que cresci além do meu um metro e meio de altura. Foi onde comecei a busca de mim mesma e iniciei o meu processo de autoconhecimento através da psicoterapia. Conheci e reconheci coisas que não admitia como minhas e compreendi que não tenho um jato invisível para voar.

Entendi que o todo é muito mais que a soma das suas partes. Compreendi o que pode ser figura e fundo na minha vida e na vida das outras pessoas. Entendi que o passado só é passado quando não está presente. Pois se o passado está presente ele não é passado, é presente. Entendi que devo viver sem buscar preencher lacunas do passado. Por que o passado deve estar lá. Mas sim, devo viver de modo a evitar que novas lacunas se abram ou não se fechem enquanto é presente.

Em 1995, ainda estudante, e cursando uma disciplina eletiva na área de organizacional recebi um convite de uma professora para trabalhar ministrando treinamentos com ela. Esse foi um momento transformador da minha vida! Não fazia dois meses que eu havia conseguido um estágio extra-curricular. Mas, algo me movia fortemente e então eu pedi rescisão do contrato de estágio e fui trabalhar como estagiária com a professora. Esse fato deu uma grande guinada na minha carreira e atuação profissional.

Faríamos treinamento de qualidade no atendimento ao usuário para operadores de transporte coletivo. Seriam muitas turmas. Nas três primeiras turmas, comecei auxiliando-a na distribuição das cadeiras, dos crachás, das pastas, organizando a mesa do lanche na hora do intervalo, entregando e recolhendo material didático. Na quarta turma ela me permitiu aplicar uma dinâmica de abertura. Na quinta turma eu assumi o primeiro horário do primeiro dia. Na Sexta turma eu assumi metade do treinamento. A sétima turma eu conduzi o treinamento e ela me auxiliou e me deu “olho” o tempo todo de que precisei.

Descobri com aqueles motoristas e cobradores de transporte coletivo o encanto de lecionar. A partir dali já sabia que um sonho na minha vida seria me tornar professora. Eu não sabia como, mas cria fortemente que isso iria me acontecer.

Concluí o curso de Psicologia no final de 1996. Estagiei na área da Psicologia Organizacional, que me encantara desde a primeira semana de aula (Até hoje costumo dizer que nós não escolhemos a área a qual nos dedicaremos... ela é que nos escolhe!). Fui contratada como Psicóloga pela empresa em que estagiei. Era um sonho se realizando! Mas, tive que abdicar dos treinamentos com os motoristas e isso de alguma forma não me fez bem! Algo me dizia que seria temporário, que eu voltaria a ministrar treinamentos. Seria uma questão de tempo.

As solenidades da minha colação de grau aconteceram no início de 1997 e recordo-me, em especial, de quando eu estava dentro auditório do Centro de Convenções de Natal, sentada entre as cadeiras destinadas aos formandos de Psicologia. Olhei para os professores vestidos com as becas que lhes são peculiares e desejei profundamente que um dia também assumiria um lugar daqueles – foi a primeira vez que desejei conscientemente ser professora!

Como psicóloga organizacional, realizei algumas daquelas coisas que imaginei na primeira semana de aula. Organizei eventos, fiz seleções, elaborei, organizei e ministrei treinamentos, fiz avaliação de desempenho, recebi e supervisionei estagiárias de Psicologia na área de organizacional. Mas, de vez em quando me lembrava dos meus sonhos quando da época de prestar vestibular e decidi não parar de estudar. A escola estava em mim. E era como se eu acreditasse que pela escola minha vida se completava.

Comecei um curso de especialização em Recife, mas não concluí por ingressei numa turma de especialização em Gestão de Recursos Humanos nas Organizações. Com o início do Curso fiz uma descoberta incrível. Pela primeira vez eu adentrava no mundo da Administração como ciência e naquela época firmava um interesse pela gestão de pessoas que mantenho e cultivo até hoje. Tive a oportunidade de ser aluna de estudiosos com Maurício Serva, Alain Jouli, Sérgio Motta, Zélia Kiliminick, Marcos Vinícius, Miguel Añez dentre tantos renomados no Brasil e fora dele na área de Administração. Uma das disciplinas por mim mais esperadas na especialização era Metodologia do Ensino Superior. Eu sabia que ela era uma daquelas disciplinas que objetivava a formação docente mínima necessária para a entrada no ensino superior como docente. Alimentei em mim a expectativa de que durante o seu decurso eu seria minimamente habilitada para lecionar numa faculdade ou, quiçá, numa Universidade!

No final de 1997, conheci um moço especial (é assim que pensam os enamorados sobre seus amores) e começamos a namorar. Até abril do ano seguinte, mais outros tantos momentos transformadores na minha vida aconteceram: eu adquiri o meu primeiro carro e em maio do mesmo ano recebi as chaves do meu apartamento! Eu começava a fixar o meu lugar pelas minhas próprias conquistas. Foi mais uma grande conquista na minha vida!

Ainda no mesmo ano, no final do mês de outubro estava casada com o moço especial. O meu casamento foi como um boomerang bem lançado em minha vida. Atirei no que vi e acertei no que não vi. Ele me trouxe grandes conquistas e aprendizados! Ao lado do meu marido concluí mais alguns cursos e constituí em 1998 a minha própria empresa. A partir de então, passei a prestar serviços na área de Recursos Humanos e Comportamento Organizacional para outras empresas.

O início da experiência como profissional liberal foi muito confuso para mim. Era o momento de aplicar sistemática e concomitantemente todo o conhecimento que eu havia apreendido na graduação e na pós-graduação. Embora soubesse o que fazer não sabia muito bem como fazer e isso me causava angústia e uma sensação de incompetência danosa. A orientação de uma pessoa mais experiente no mercado de trabalho, de postura assertiva em suas colocações (muitas vezes de maneira que ficava envergonha de não ter percebido tal ou tal aspecto das minhas atitudes ou decisões), foi de inenarrável importância para que eu pudesse enxergar as minhas intervenções de forma mais profissional. Com efeito, as coisas que me dispus a refletir e a mudar me serviram de referência. Chego a pensar sobre o que realmente prepara um consultor de empresas ou o profissional liberal e penso seriamente que é muito mais a referência de alguém mais experiente na mesma área e muito menos o legado que a escola nos deixa.

Concordo que replicar pura e simplesmente as atitudes e atuações deste profissional em quem se espelha não é o adequado. Mas, incrivelmente, a forma de pensar e agir deste terceiro mais experiente serve como bússola e, a partir de então, o indivíduo aprendiz acrescenta seu toque pessoal suas idéias e idiossincrasias. Comigo foi assim: sempre escolhi uma ou duas pessoas a quem me referendar quando as situações no ambiente de trabalho me eram apresentadas como novas ou jamais por mim vivenciadas. Foi assim que fui experienciando o mundo do trabalho.

O ano de 1998 foi, de fato muito marcante na minha vida por todos os acontecimentos supra narrados. Pois bem, adentrei 1999 como profissional liberal, mas por questões de saúde precisei parar um pouco as atividades profissionais em função de alguns meses de tratamento. Ao sair da licença médica, retomar a clientela tornou-se, obviamente, um trabalho de reconquista um pouco lento. Foi quando aquela mesma professora que me convidara a ser sua estagiária em 1995, convidou-me para ser instrutora de Cursos para condutores de veículos automotores. As leis de trânsito no Brasil, através do CBT (Código Brasileiro de Trânsito) haviam sido recentemente alteradas e a exigência de qualificação adequada para a concessão de carteiras de habilitação formava uma demanda significativa de treinamentos.

Estava voltando às salas de aulas conforme intrinsecamente desejara há algum tempo. Voltei a estudar sobre transporte coletivo e reentrei em sala de aula de uma forma mais segura, o que me fizera atingir resultados satisfatórios com as turmas que eu assumi. Eu gostava de me ver naquele contexto.

Tomei consciência da minha voz interior e reconheci que a docência no ensino superior era o meu grande objetivo. O trabalho como instrutora para motoristas ou candidatos a motoristas reacendeu o sonho que um dia eu havia deixado aflorar em meus pensamentos e em meu plano de vida. Mais uma vez desejei ser professora para toda a vida! Só que para isso, sabia que não podia parar de estudar. Se o meu objetivo era a Universidade então... Havia um longo caminho a ser perseguido. A todos os que eu conhecia dizia do meu sonho de ser professora numa Universidade. Acreditava que se dividisse o meu sonho com os outros a possibilidade dele se realizar era mais próxima.

Outrossim, acreditava que falando sobre os meus planos para os que eu conhecia, quando surgisse uma oportunidade alguém se lembraria de mim. E foi exatamente assim que aconteceu. No segundo semestre de daquele ano, meu ex-professor da graduação e supervisor de estágio, que era também professor do Curso de Psicologia numa Universidade privada em me fez um telefonema dizendo do processo seletivo para professor de Psicologia no Curso de Administração. Os requisitos eram: ser psicólogo e ter experiência na área organizacional. Com um desafio: se aprovada teria que entrar em sala de aula em três dias úteis.

Era dia 10 de agosto, uma terça-feira. A banca avaliadora de uma prova didática realizou-se na quarta-feira (nem dormi naquela noite montando o que acreditava ser um plano de ensino, um plano de aula e a aula propriamente dita). Passei no exame! Assinei os documentos de contratação na quinta-feira, dia 12 e em 13 de agosto de 1999, sexta-feira (não me lembro se a lua estava na fase cheia) no período vespertino eu assumia a minha primeira sala de aula como professora universitária. Eu quase não cria no que estava acontecendo e ao entrar naquela sala eu me lembrava de quando de dentro dos ônibus eu passava em frente das Universidades em Natal e olhava para as suas instalações físicas e falava com os meus botões: “Me aguarde! Não sei quando nem como, mas um dia ainda serei professora aí!”

Agora era realidade! Havia cerca de 60 alunos esperando por uma professora (a última que ainda faltava se apresentar, pois as aulas tiveram seu início na segunda-feira próxima passada). Quando eu entrei e me apresentei, alguns me olharam com uma expressão de dúvida. Houve risinhos e cochichos e eu não me contive em perguntar o que estava acontecendo, até que um aluno disse em voz alta: “Você está brincando com a gente, não é? Você está querendo passar um trote, mas a gente não vai cair não! Está na cara que você é aluna também! Acho que do segundo ou terceiro ano. Confesse aí!”

Eu tinha pouco mais de vinte anos, há muito media um metro e cinqüenta de altura e pesava cerca de cinqüenta quilos. Naquele momento percebi que a imagem que eu passava era de uma pessoa muito jovem. Não tardou para que eu me desse conta que era melhor deixar os alunos me tratarem por “senhora” quando quisessem. Isso estabeleceria a distância muitas vezes necessária para o bom andamento da relação professora/aluno, visto que no mais das vezes, pela forma de ser e de me expressar, eu me assemelhava bastante a eles.

A minha identidade profissional consolidou-se através da minha experiência docente. Dentro da própria universidade, no ensino fundamental II e médio na Escola, comecei a circular por outros lugares que não a sala de aula e conheci pessoas que me abriram outras portas dentro da Universidade. Ainda em 1999 assumi outras atividades administrativas na área da pós-graduação lato sensu. O conhecimento e a experiência com aquelas atividades foram incríveis. Por outro lado, sentia que não poderia ir mais longe se não me aperfeiçoasse. E aperfeiçoamento na academia significava, inevitavelmente, estudar mais. Resolvi que estava no momento de entrar no mestrado. A essa altura, a área da Administração já me era apaixonante e então prestei seleção para o mestrado em Administração. Ah, como eu me lembro daquela tarde em que saíra o resultado! Eu havia passado!

Cursar o mestrado foi um dos momentos de maior aprendizado em minha vida, principalmente para a minha vida docente. Foi no mestrado que compreendi o papel de um professor em sala da aula, que li coisas que jamais escolheria ler por opção.

Foi no mestrado que aprendi a estudar mais sistematicamente; aprendi que o pesquisador precisa criar estratégias de leituras e de estudos para melhor aproveitar as informações bibliográficas que lhes estão disponíveis mundo afora. Descobri meu estilo de escrever e que tenho peculiaridades na forma de pensar e de produzir. Aprendi que posso me superar e que ainda há muitos amigos a fazer na minha vida. Aprendi que ainda posso viver o dobro do que já vivi e estudar o triplo do que já estudei e ainda assim me sentir desatualizada! Aprendi no mestrado o que é delimitação do campo de estudo. Aprendi o que é citação, referência e edentamento. Entendi que não preciso abrir mão da Psicologia para viajar no encanto das outras Ciências como a Administração, a Educação, a Sociologia. Foi no mestrado que, pela primeira vez, li Porter, D’Aveni, Robbins, Morgan, Bresser Pereira, Bruynne, Salvador, Ansoff, Pedro Demo, Bardin entre outros.

Foi no mestrado que redescobri o prazer de ser representante de turma e participar das reuniões de colegiado. Foi no mestrado que eu reafirmei o meu desejo de ser professora e entendi que precisava da Educação para sustentar a minha atuação profissional. Foi no mestrado que eu decidi que iria fazer o doutorado. Nessa época engravidei e passei um dos períodos mais fantásticos da minha vida. Compreendi o que era superação, depois de defender minha dissertação com seis meses de gestação, ao mesmo tempo que assumia algumas turmas de graduação e uma aqui e outra acolá de pós-graduação lato sensu. Em 14 de dezembro de 2001, lá pelo meio dia eu estava a realizar mais um sonho na minha vida. Eu recebia o título de Mestre em Administração.

Poucos meses depois eu realizava outro grande sonho: em 05 de março de 2002 nascia minha filha. E lembrar de Cecília, e em tudo de bom que ela me trouxe com o seu nascimento me faz lembrar outro momento importante da minha vida: os últimos dias do meu pai.

Se na Escola não aprendemos tudo sobre como viver e sobreviver, certamente não foi lá que aprendi sobre a morte. Eu aprendi sobre a morte com a experiência e o misto de sentimentos que vivi desde o padecimento do meu pai (no final de 2001) até a sua morte. Em 31 de maio de 2003, por volta das 2h da madrugada meu pai dava seu último suspiro segurando em minha mão. Quiçá um dia eu escreva algo sobre o aprendizado que eu tive com essa experiência. De uma coisa eu tenho certeza e atesto nos escritos que agora teço, sou uma pessoa diferente e creio que bem melhor depois de tudo.

Mas, voltando ao ponto central e motivador deste relato...

Com o término do mestrado e o nascimento da minha filha resolvi que só iria pleitear uma vaga para o doutorado depois de transcorrido uns quatro ou cinco anos, depois de 2002. Bem, parece-me que a área de planejamento não é o meu forte, porque na época em que estava de licença maternidade imaginei como seria importante enveredar pela área da Educação para completar minha pós-graduação. Desta forma eu faria um tripé interessante em minha formação: a Psicologia, a Administração e a Educação, visto que eu já era professora e queria sê-lo até o resto da minha vida. Pois bem, comecei a pensar quais os motivos que não me deixavam parar de pensar em estar no meio escolar. O que ele representava para mim? Que garantias eu buscava em estar inserida no ambiente universitário? O que me realizava em ser professora e quais eram as minhas lacunas nesta função? Por que me sentia tão cobrada pela sociedade e cada vez mais buscava na academia o respaldo para enfrentá-la? Será que a minha experiência escolar havia me preparado para adentrar no mundo do trabalho e por causa disso eu não desejava me afastar dela? O que me fazia querer estar em constante condição de aluna, de aprendiz? Em que a academia me fascinava tanto na condição de docente e de discente?

Conversando com pessoas mais vividas (como sempre fiz) tomei a decisão: era em Educação que eu deveria me doutorar e, se em minha cidade havia um programa de referência, pensei: por que não? Vou tentar e, o mais importante, não vou esperar tanto tempo!

Conhecer um pouco mais sobre a Educação era o primeiro passo que eu precisava dar. Comecei a ler e a tentar compreender um pouco mais sobre Educação. Precisava descobrir qual era o ponto intersticial entre a Educação, a Psicologia e a Administração. Então pensei que fazendo algumas disciplinas como aluna especial poderia ter um norte de por onde começar a fazer o meu projeto de tese. Desta feita, em 2003 ingressei como aluna especial e em 2004 prestei a seleção. Ao ver meu nome na lista dos aprovados afixada no mural dos corredores do PPGEd, chorei! Naquele instante, lembrei-me de agradecer a Deus por ter sido aprovada no vestibular de Psicologia, por ter sido escolhida pela área de organizacional, por ter sido convidada a ministrar cursos para operadores de transportes coletivos, por ter conhecido pessoas admiráveis na minha vida, por ter aceitado o desafio de lecionar no Curso de Administração de uma Universidade (sem sequer saber direito como se fazia um plano de ensino), por ter feito especialização em Gestão de Recursos Humanos nas Organizações, por ter conhecido, me apaixonado e casado com o meu marido, por ter feito o mestrado em Administração, por ser madrasta do meu enteado e mãe da minha filha e por nunca ter desistido.

Já em processo de doutoramento descobri várias coisas a respeito de alunos, professores e pessoas. E mesmo sabendo que adoraria falar sobre mim e sobre a minha trajetória de autoformação, demorei um pouco para encontrar uma metodologia que pudesse, de forma científica, trazer na minha experiência escolar e seus entornos um ponto de referência para outras pessoas e contribuições para as Ciências. O meu desejo era que a minha história de vida pudesse ser abstraída por outras pessoas e que estas pudessem identificar situações e fatos isolados ou conexos que lhes fizesse refletir sobre suas próprias histórias de vida. Desejei que a partir do meu relato eu pudesse encontrar incidentes críticos (ou momentos transformadores). Que teorias e construtos poderiam referendá-lo? Almejava que a partir da minha experiência escolar eu pudesse compreender que caminhos e descaminhos eu havia percorrido até chegar ao mundo do trabalho e ser a pessoa e profissional que sou hoje. Seria através do relato reflexivo que eu poderia mergulhar num processo de transformação e, ao final, conseguisse perceber claramente em qual a pessoa tenho me transformado em minha trajetória de vida.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

As experiências relatadas anunciam uma grande diversidade de contextos, situações, outros significativos, condições sócio-culturais, políticas, familiares por mim percebidos. Desta forma, percebo a evidência da dinâmica da interação entre essas experiências. Há em todo o relato a presença de ligações bio-psico-sociais com situações, coisas, lugares e pessoas. Essas ligações se dão, impreterivelmente, entre os acontecimentos materiais e psíquicos da minha vida, em dimensões tanto individuais quanto coletivas (Delory-Momberger, 2006).

Com grande presença de registros relacionais, o conteúdo do relato sobre mim mesma parece corroborar a idéia de Dominicé (2006) de que o centro da autobiografia de jovens adultos está calcado nas suas relações familiares, escolares e amorosas. Identifico isso claramente ao evocar meus pais, meus professores, aqueles que admirava como pessoas e que me mobilizaram.

A minha família e as minhas escolas foram compostas de atores de uma geração que sonhou com um futuro estável e feliz para os seus. Durante um longo período da minha formação estive bastante absorvida pelos ímpetos ambiciosos das gerações que me precederam. O fato é que eu percebo que tive que me reinventar e criar outras soluções para assegurar a minha existência e lhe aferir um sentido. Penso que durante esses momentos de ressignificação dos meus valores e objetivos coincidem com os momentos de confusão mental diante de tantos papéis por mim assumidos e desempenhados. Muitas vezes me pergunto: eles foram escolhidos por mim, ou a mim foram atribuídos? De verdade, percebo-me diante de trajetórias insólitas e opções aparentemente contraditórias. E na busca desta resposta e compreensão do meu processo formativo vou escrevendo coisas, assim como agora escrevo, procurando identificar os acontecimentos críticos a partir dos quais reorganizo o percurso da minha vida.

Outro aspecto de destaque que observo refletindo sobre o meu relato é que me transformei em uma mulher que enfrenta uma vida adulta acrescida de problemas postos pelas novas condições de existência. Desta forma me identifico com a afirmação de que “o adulto pode sofrer ao se deparar com uma vida tornada precária e cuja complexidade ele não domina mais” (Dominicé, 2006, p. 354). Então, parece que pensarmos sobre a nossa formação pode nos ajudar a pensar sobre a nossa vida e a reconhecer como o nosso caminho fora traçado por nós mesmos.

A formação não vai, como ontem, abrir as portas às quais os adultos não tinham acesso, lhes garantir uma mobilidade, até uma promoção profissional. Em contrapartida, ela pode ajudá-los a conceber as formas do que sua vida pode se tornar. A construção biográfica parece assim representar bem ,em nossos dias, uma das finalidade da formação dos adultos. (DOMINICÉ, 2006, p. 354)

Pensar sobre o que a Escola me deixou e tem me agregado é refletir muitas vezes que precisei renunciar do que havia previsto fazer de minha vida no passado. Essa ruptura exigiu de mim um balanço sobre as minhas escolhas e me reorientou a refazer programas de ações educativas para que eu os realize nos próximos decênios da minha vida. Penso que são motivos que encontram base nesse raciocínio que me fazem permanecer dentro da academia, do ambiente escolar. Penso ainda que eu tenha necessitado reconhecer quais são as necessárias aprendizagens que fazem face às exigências que no mais das vezes perturbam a vida adulta. Percebi esse movimento nas minhas buscas o compreender que:

A formação contínua, monopolizada pelo aperfeiçoamento profissional, deve ser oferecida àqueles que precisam de apoios formadores para conduzir sua vida adulta. A resolução dos conflitos existenciais põe em destaque um conhecimento da vida que merece ser reconhecido. (DOMINICÉ, 2006, p. 354)

Com efeito, elaborar esse texto foi um desafio que me convidou a desconsiderar as trajetórias lineares da minha vida. Da educação de base, passando pela juventude, até a universidade, novos caminhos, percalços, descobertas e redescobertas fizeram-me perceber que o tempo todo eu pude me reinventar. Eu só não tinha consciência disso. Compreendi que a minha formação, como a de qualquer outra pessoa, deve ser pensada considerando as descontinuidades da existência (idade, mudanças, perdas, descobertas), principalmente, que as transformações impostas pela sociedade atual são bruscas e possuem um nível de exigência altíssimo nos fazendo ter que mudar o rumo de forma talvez jamais imaginada!

Por fim, ao escrever, ler, reescrever e reler a história da minha própria educação, passo a crer que realmente ela foi construída entre flores e muros. Entre flores por que em todo o meu percurso até hoje encontrei pessoas que exalavam ensinamentos, que me inspiravam. Outrossim, deparei-me com pessoas e situações que me machucaram a guisa do que os espinhos nos fazem. Entre muros porque a cada etapa da minha formação precisei enfrentar barreiras altas e baixas, frágeis e fortes e principalmente as internas. É mister lembrar que os muros para mim nem sempre foram obstáculos ou empecilhos. Em alguns momentos foi em um muro que eu subi para poder enxergar que havia do outro lado e também ao longe muito mais do que eu e os meus imaginávamos. Em alguns momentos senti-me em cima dele, sem saber o que fazer... Em outros, precisei decidir mudar de lado, em outros tantos entendi que ele era mais baixo de que eu supunha, da mesma forma que caí dele algumas vezes.

Foi nesse jardim de flores e muros que me tornei parte do mundo e deixei a escola fazer parte do que fui, do que sou e do que serei. Com efeito, é assim que me vejo: Eu no mundo e a Escola em Mim.

REFERÊNCIAS

DELORY-MOMBERGER, Christine. Formação e socialização: os ateliês biográficos de projetos. Educação e pesquisa. V. 32, n. 2, São Paulo: FEUSP, mai/ago. 2006. p. 359-372.

DOMINICÉ, Pierre. A formação de adultos confrontada pelo imperativo biográfico. Educação e pesquisa. V. 32, n. 2, São Paulo: FEUSP, mai/ago. 2006. p. 345-358.

JOSSO, Marie Christine. Experiências de vida e formação. São Paulo: Cortez, 2004.

NÓVOA, António (org.) Vida de professores. 2 ed. Coleção Ciências da Educação. Porto: Porto Editora, 1995.




1 O exame de admissão era uma espécie de averiguação do nível de conhecimento que na escola chamavam de “teste”. Naquela época, havia poucas vagas para as escolas particulares de confissão religiosa e as diretoras, em sua maioria religiosas, queriam ter a certeza de que estariam admitindo os melhores alunos em conhecimento e em atitudes – este foi o argumento usado para convencer à minha mãe de que eu precisava me submeter ao dito exame.




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