Relato memorial sobre a minha educaçÃO



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Encontro04.03.2018
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O aspecto relacional na história da minha educação

Algumas situações da minha vida familiar, concomitantes à minha experiência escolar, ditaram muito da forma que passei a apreender as coisas na escola. Com a ausência da minha mãe que sempre me foi uma pessoa de muita influência, que me acompanhava diuturnamente na escola, passei a me afiliar cada vez mais aos meus professores. Àqueles das matérias às quais tinha mais dificuldade como matemática, física, química eu me aproximava ainda mais. Penso que essa tenha sido uma estratégia de relação interpessoal que eu tenha estabelecido desde cedo para que pudesse compreender melhor o que corresponderia às expectativas de quem, por algum motivo pudessem me ameaçar ou precisar de sua atenção. Embora essa estratégia não tenha sido traçada intencionalmente, foi uma maneira que descobri de me fazer ser notada para poder ser protegida depois que minha mãe não pode mais me acompanhar com tanta freqüência.

A situação financeira dos meus pais nos anos 80 era bem difícil e embora tivéssemos que nos privar de algumas coisas a escola sempre foi algo intocável. Em nossa casa não tínhamos televisão e eu sempre assistia desenhos pelas manhãs ou os filmes de Sessão da Tarde durante as férias na casa de uma vizinha que muitas vezes esteve como uma mãe para a minha mãe. Minha irmã mais nova chegou como uma neta para ela e todos da sua família.

Mudamo-nos mais uma vez e assim ficou mais difícil me deixarem ir assistir TV na casa da nossa vizinha. E dependendo da hora: nem pensar em sair de casa! Foi quando meu pai nos trouxe uma televisão de “segunda mão”. Lembro-me que para ligar a TV, que era em preto e branco, primeiro puxávamos um “pitoco” preto do lado esquerdo. Aí aparecia um ponto de luz bem no meio da tela. Este passava uns cinco ou mais minutos para se transformar em uma listra bem fininha no meio da mesma tela. O som chegava antes do vídeo e só minutos mais tarde essa listra ia se abrindo e nos deixando ver as imagens que às vezes precisava do auxílio de um pedaço de bombril na ponta da antena interna para ficarem paradas ou para o som deixar de chiar. Aquilo para mim era um ritual mágico. Confesso que com o tempo comecei a me inquietar, mas nada que me irritasse ou me fizesse desistir. Esse relato é saudoso, mas é rememorando situações desse tipo que eu me dou conta do quanto significou para mim.

Eu tinha um pouco mais de oito anos e entre meus programas favoritos havia o do Daniel Azulay. Como ele desenhava bem! Dentre os desenhos animados os que eu mais gostava eram He-Man, She-Ha, Caverna do Dragão e os Smurfs. A contação de histórias do Sítio do Pica-pau Amarelo é indelével na minha memória.

Sempre gostei de passear. E não me faltava oportunidade de fazer companhia a nossa vizinha até a igreja católica do bairro a qual ela freqüentava. Íamos às missas aos domingos e terminei por ingressar no grupo de catecismo passando a freqüentar as reuniões aos sábados à tarde. Ela me aguardava rezando o terço. Fiz a primeira eucaristia com oito anos e a partir de então passei a freqüentar o grupo de crianças da paróquia. Organizávamos uma missa por mês que era a missa das crianças. Aprendíamos hinos e nos apresentávamos nas datas festivas da igreja como a coroação de Nossa Senhora em maio, Páscoa, Natal e Festa da Padroeira. Foi assim que comecei a apreciar o sentido de fazer parte de grupos de jovens, coisa que pratiquei até cerca de oito anos atrás.

O sonho e a fantasia caminham comigo desde criança, percebo isso enquanto escrevo. Para tudo eu usava a imaginação! Deus, como achava injusto não ter nascido uma Sereia! Como aquelas histórias das reinações de Narizinho me encantavam: o Minotauro e o reino das águas claras! Filmes de princesas e príncipes me fascinavam. Simbad – O marujo, ou qualquer um das Arábias me faziam sonhar.

No meu aniversário de dez anos a minha mãe me presenteou com uma coleção de livros que acompanhavam uns discos coloridos da “Disquinho” com histórias clássicas como “O soldadinho de Chumbo”, “Chapeuzinho Vermelho”, “Festa no Céu” etc. Mas o que eu gostava mesmo era de ler as histórias de Dragões e Imperadores da China, de Pele de Asno etc. Fiz isso incontáveis vezes me reportando a mundos maravilhosos na minha imaginação. Emocionei-me muitas vezes (chorei mesmo) com a história do imperador da China que tinha um rouxinol que parara de cantar e o deixou doente de tristeza. Ele quase morre! Encantei-me em me sentir a própria Polegarzinha presa a uma dívida de gratidão e prestes a casar com o Toupeira e passar o resto de sua vida debaixo da terra sem ver o sol... Juro que muitas vezes me senti voando nas asas da andorinha que a salvou daquele destino e a levou para o reino das flores onde havia um lindo príncipe!

Gostava tanto destas histórias que brincava de ser princesa dentro de casa. Envolta em lençóis, que se arrastavam pelo chão da casa como os vestidos que eu via nos filmes, eu imaginei muitas vezes histórias nas quais no final a princesa era salva pelo príncipe. Eu sempre fui muito sonhadora... E, nas minhas brincadeiras, havia vozes por mim interpretadas... ou fugas (saía correndo pela casa como se fugisse do perigo), respirações ofegantes de susto e gritinhos de medo... Nunca me furtei em experimentar palavras novas como, por exemplo: “apuros”... Fazia o meu pequeno teatro e nele eu assumia todos as personagens, acho que era isso!

Voltando a minha vivência na escola. Todas as quintas-feiras além das orações nós hasteávamos a bandeira do Brasil e cantávamos o Hino Nacional. Também na semana da Pátria, em setembro, fazíamos um desfile na rua que ficava por trás da escola, numa parte pouco freqüentada por nós alunos e que dava saída ao convento das irmãs. Penso que fora somente isso que aprendi sobre política e Estado no colégio em que estudei. Imagino que por ser uma escola religiosa, tratar de política fosse delicado naquela época, e até arriscado diante do contexto político e social que vivíamos. Algumas vezes minha mãe me dizia que se em alguma prova caísse uma questão sobre quem era o presidente do Brasil eu respondesse: João Baptista Figueireiro. Em casa, meus pais não conversavam sobre política na minha frente, ou talvez não conversassem entre eles sobre isso. O fato é que, quando passei a entender um pouco mais, compreendi que fui uma analfabeta política durante muito tempo.

Por causa da televisão que agora tínhamos em casa pude ver um movimento de pessoas que reivindicavam algo que eu não entendia bem o porquê: foi a primeira campanha das eleições diretas. “Diretas Já!” Era um grito uníssono! As pessoas clamavam para que o voto fosse direto, mas era tudo o que eu sabia e perguntava a mim mesma: por que será que o voto não é direto? O que seria um voto direto?

Em 1985, em meados de abril, adoeci e estando em casa observei uma grande comoção nacional por causa da morte de um presidente que sequer pudera assumir o mandato. Morria Tancredo Neves e me lembro de ter achado bom de certo modo, por que fora decretado luto nacional e eu não perderia aula no dia 22, já que eu estava doente. Imaginava que as pessoas gostavam muito daquele velhinho por que muitos choravam demais. Eu vi na TV!

Quando voltei às aulas a minha mãe me ensinou que o novo presidente do Brasil era José Sarney. Muito bem, passei a vê-lo mais constantemente na TV lá de casa. Mas no Colégio ninguém se interessava por esse assunto. Então entendi que não era um assunto do qual as pessoas gostassem de falar. Deixei-o para lá. Nunca caiu na prova! E nunca percebi mudanças na minha casa ou na minha escola por que a presidência do Brasil passou de Figueiredo, quase para Tancredo e, finalmente para José Sarney! Tudo continuava como antes. Na minha escola, principalmente.

Lá em casa as coisas não estavam bem e meu pai resolveu que iríamos nos mudar novamente, para outro bairro. A nova casa alugada era muito pequena, tinha um cômodo a menos e minha mãe tinha que costurar na sala. Eu não gostei muito de ir morar lá. Mas era mais perto do trabalho do meu pai, que economizaria com passagens de ônibus.

Por que não podíamos arcar com despesas extras, não pudesse cultivar alguns hábitos incentivados na escola, por exemplo: fazer trabalhos em grupos na escola. Os colegas se reuniam pela manhã (estudávamos à tarde) e isso significava mais duas passagens de ônibus além das planejadas para os dias letivos. Passar a manhã na escola implicava em levar dinheiro para um lanche rápido, o que também era outra dificuldade. Desta forma, minha mãe me desencorajava a fazer trabalhos em grupos. Fui instruída a que todas as vezes que os professores passassem tarefas assim, perguntar se eu poderia fazê-las sozinha. Nunca encontrei resistência dos meus professores, não sei o porquê. Desconfio que a minha mãe tenha conversado sobre a nossa situação com a coordenadora... O fato é que ela me fazia crer que eu aprenderia mais se eu fizesse os trabalhos sozinha. Ela me fazia crer que em grupo a gente conversaria muito e o trabalho poderia não sair tão bem feito. De uma forma ou de outra queria mesmo era ir para o colégio noutro horário, sem fardamento e me sentir importante por realizar um trabalho com um grupo. Mas raríssimas vezes fiz isso até a oitava série.

Fui representante de turma algumas vezes. Depois que a minha mãe não pode me acompanhar mais na escola, paradoxalmente, ela sumiu do convívio escolar. Até mesmo as reuniões de pais e mestres ela deixou de freqüentar. Ela me dizia que já sabia o que se iria conversar. Então, não perderia seu tempo. Acho que desde aquela época compreendia que precisava ser responsável por mim mesma. Pensando melhor agora, enquanto escrevo, precisei criar artifícios para demonstrar que poderia ser tão desenvolta que, de fato, não necessitasse de uma mãe ou um pai o tempo todo na escola respondendo por mim.

De forma não planejada passei, com freqüência, a ser a voluntária para fazer as leituras nas missas, para ir pegar um apagador de quadro que o professor havia se esquecido de levar para sala de aula, para acompanhar até a sala de Orientação Educacional uma colega que estivesse com febre ou cólicas. Desta forma, fui sendo conhecida e conhecendo lugares na escola que eram pouco freqüentados pela maioria dos alunos.

A adolescência chegou como uma rajada de vento pela janela. Aos treze anos, cursando a oitava série, comecei a ter contato com leituras que os meus colegas de sala me emprestavam. A puberdade começava a aflorar e junto com ela o interesse por assuntos, pessoas, lugares e situações antes não percebidas por mim. Era o ano de 1987 e eu li, pelas mãos de colegas na Escola, alguns dos livros que marcaram a minha adolescência. Foi quando entendi que estava equivocada quanto ao modo de enxergar as pessoas. Descobri que existia um mundo aonde não viviam princesas, nem rouxinóis e nem havia finais felizes. Li Polliana Menina e compreendi a essência do Jogo do Contente (que pratico até hoje e tem me ajudado a enfrentar situações adversas na minha vida), mas também li (escondida no banheiro) Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída. Compreendi, através desta leitura, que há muita dor na experiência com drogas e na prostituição – penso que o gosto que eu tinha de me transportar para o mundo das personagens das histórias que lia ou criava desde menina tenha me ajudado nessa interpretação.

Foi na escola que tive acesso a notícias sobre um mundo que não me fora apresentado abertamente. Também foi na escola que usei o meu primeiro sutiã. Foi pela escola que dormi a primeira vez na casa de uma amiga por que tinha ido a uma festa. Experimentei “gazear aula” e ficar passeando pelo Centro da Cidade, enfim... onde pude transgredir.

Foi por causa de uma situação escolar que a relação com a minha mãe começou a ficar conflituosa. Já na sétima série, em 1986, eu tirei a minha primeira nota vermelha: 4,6 em matemática. Consegui recuperar durante o ano letivo, mas fui aprovada “me arrastando”. Havia muitas coisas que me encantavam naquela época, mas eu mal conseguia me concentrar de forma retilínea nos estudos, principalmente em matemática que não me suscitava maiores interesses. Em 1988, a situação voltou a se repetir e entre eu e minha mãe começaram os conflitos de geração! Não foi uma época fácil!

Nesse período da vida o ambiente escolar era o meu maior e melhor refúgio durante o dia. Somente lá me sentia em casa. Era o único lugar de referência da minha infância, do meu passado. Enquanto terminava o primeiro ano, ficava quase todas as tardes na escola. No ano seguinte, 1989, as tardes eram preenchidas também nos pátios escolares. Foi nesta época que assumi lideranças de turmas – fui representante da sala por dois anos – envolvi-me com a organização das celebrações na escola, comissão de formatura e passei a ter o apreço da coordenação e professores que em minha família estava me faltando.

A partir de 1990, pela primeira vez comecei a pensar efetivamente no meu futuro. Eu não poderia “dar errado”. Eu deveria dar a volta por cima e mostrar para a minha mãe que ela estava errada em ser proibitiva e sancionadora comigo!

O vestibular começava a se aproximar e do segundo para o terceiro ano colegial passei a estudar mais e, embora eu me lembre de minha dedicação nos últimos três anos colegiais, não obtive êxito no primeiro vestibular que prestei para Direito. Alimentei esse sonho durante uma época da minha vida. Minha mãe quando me falava dos presidentes e de Brasília dizia que conseguia me ver “quando eu crescesse” como uma diplomata, vestida de tailler, com cabelo preso em coque e muito chique! Bem, o primeiro passo para isso, pensei, seria o curso de Direito! Tentativa frustrada!



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