Relato memorial sobre a minha educaçÃO



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Eu no mundo

Nasci em 14 de abril de 1974 na cidade de Natal, estado do Rio Grande do Norte, Brasil. Sou a segunda de três filhos dos meus pais. Ele sempre trabalhou com escritas contábeis, ofício que aprendera com meu avô. O gosto pelo violão veio de longas datas e, embora toque pouco, aprecia uma boa música brasileira, principalmente, o chorinho. Muito alegre, embora meio reservado, sempre foi muito querido entre os sete irmãos. Minha mãe nasceu e se criou no interior do estado, na região do Seridó. Veio para Natal morar em casa de uma tia com o objetivo de estudar na capital. Foi quando conheceu e se apaixonou por um dos seus primos. Com esse parentesco próximo, minha mãe casou-se com meu pai há mais de 30 anos.

Pouco tempo depois que eu nasci, meu tio materno, casou-se e passou a visitar com freqüência diária a casa da minha avó onde morávamos. Contam-me que sempre lhe tive muito apreço e como se fosse conseqüência, rapidamente mantive uma excelente relação com sua mulher. Esta viria a se tornar uma figura materna efetivamente marcante em minha vida. Isto porque passei a morar com eles (meu tio e sua mulher) e por eles fui criada e educada. Neste relato é sobre ela que falo quando me refiro a figura materna.

Eu na escola

Com três anos de idade completos entrei na minha primeira Escola (ensino infantil). Daquela primeira Escola, pouca coisa me lembro, a não ser o fardamento azul em mescla e da ladeira íngreme que subíamos para chegarmos até lá. Estudava no turno vespertino, disso também me recordo por causa do sol que me incomodava ao subir a ladeira. Afora isso, há algo de que tenho uma bela e entusiasta recordação: a minha primeira festa de São João da Escola. Estava com um lindo vestido que minha mãe fizera - ela era costureira. Tenho rápidos flashs na mente de uma dança em que girávamos em um grande círculo com as mãos nos ombros um do outro. Decerto era um tipo de dança típica... talvez fosse uma quadrilha junina. Eu me sentia feliz e sinto a mesma alegria ao rever os registros em fotos (em preto e branco) que ainda tenho!

Aos quatro anos nos mudamos e também mudei de escola. A nova escola era uma casa de esquina no bairro que fora adaptada para um ambiente escolar. Os cômodos pareciam com tantas outras casas do conjunto habitacional em que agora morávamos. Eu achava meio estranho estudar numa escola que parecia com a casa das amigas da minha mãe...

Sem muita definição, recordo-me de uma sala da qual eu fazia parte (na casa de uma amiga da minha mãe era onde ficava a cozinha!) e de uma “bronca da professora” para que eu ficasse quieta e deixasse os colegas fazerem suas tarefas sozinhos. Eu as fazia por eles para que fôssemos para o parque logo. Brincar era muito bom. Eu lembro em especial da areia que havia por toda a área lateral da escola – em casas semelhantes, neste espaço eram projetadas as garagens para os carros e o fato de na escola haver escorregas, balanços e barreiras feitas com pneus pintados com tintas coloridas, divertia-me muito. Eu adorava a areia branca por que parecia com a da praia. Eu sempre acreditei que alguém havia trazido aquela areia de lá, já que era bem próximo da escola.

Um dia, eu e uma colega - a única de quem vagamente me lembro (ela era bem maior do que eu e tinha olhos claros e cabelos loiros) enterramos até o pescoço na areia branca uma outra menina. Não bastasse, fizemo-la comer um pouco daquela areia branquinha, branquinha. Não havia de fazer mal (pensava eu)! Senti pela primeira vez que havia feito algo de ruim, embora tenha sentido uma enorme satisfação. Me senti poderosa ou algo similar! Estranhamente, aquilo não me fizera mal, apesar de termos perdido o recreio no dia seguinte (ou terá sido a semana toda?). O fato é que ficamos de castigo.

Naquela época eu estava aprendendo a escrever e lembro-me, especialmente, de um feito do qual me orgulho muito: o primeiro “r” minúsculo que consegui escrever parecido com as letras cursivas dos livros de caligrafia que tanto eu fazia! Eu estava na casa da minha avó paterna e a primeira pessoa a quem eu mostrei foi à minha mãe. Ela vibrou muito e nós duas compartilhamos com uma das minhas tias que lá morava. Ah, que maravilha foi receber aquelas palmas e os parabéns pelo “r” cursivo feito! Penso que até hoje é a letra que tenho mais zelo ao escrever... e se ela iniciar uma frase ou nome próprio... ah, o capricho é garantido!

Mais uma vez a festa de São João foi marcante! Tenho fotos até hoje. Minha mãe fez um vestido fantástico para mim e me senti uma rainha! Eu gostava de dançar, de me apresentar, de me arrumar!

No meio daquele ano mudei de sala. Na época não sabia, mas hoje sei que fui mudada não só de sala, mas de nível também. Eu passei no meio do ano para o que chamávamos de alfabetização. Era o ano de 1979 e eu tinha cinco anos de idade.

Não me lembro de ter havido uma festa de encerramento. Mas sabia que estava concluindo o ABC, pois ganhei da minha mãe um anel e recordo-me de me arrumar com um capelo e algo parecido com um “babador de renda” para fazer uma foto. Eu tinha concluído o ABC (eu acho que era assim que se dizia quando uma criança se alfabetizava...)

No início de 1980, tinha seis anos incompletos, começamos a fazer visitas a algumas Escolas todas em Natal/RN. Minha mãe buscava uma vaga para mim na “primeira série do primeiro grau menor”. Eu já lia e escrevia, mas a admissão no primário não foi fácil por causa da minha idade. Os requisitos referiam-se à prontidão atitudinal (acho que foi nessa época que ouvi estas palavras pela primeira vez e as achei lindas!) para a primeira série, a fluência adequada na leitura, na escrita e nas noções básicas de matemática (numerais cardinais e ordinais, no mínimo, se não me falhe a memória). Somente uma Escola me aceitaria, sob a condição de que eu fizesse um exame de admissão1. Minha mãe me preparou durante duas semanas. Fiz o tal teste e passei. Guardo até hoje a medalha de “honra e mérito” que recebi por ter me classificado entre os primeiros colocados.

Não sabia o que aquilo significava, mas sei que fez minha mãe muito orgulhosa, pois ela comentava com todos da rua e da família, além de olhar para a freira no dia da entrega da medalha e dizer: “Eu não disse que ela iria conseguir?” Estava feliz por que passaria a estudar numa escola enorme, que não era igual às casas das amigas da minha mãe que moravam lá no bairro. E, ademais, tinha um detalhe importantíssimo e que me dava um diferencial (assim cria eu): teria que utilizar transporte coletivo todos os dias. Isso seria muito divertido!

As aulas começaram e conheci a minha professora da primeira série. Ela era muito reservada e me parecia um pouco distante. Mas, minha mãe dizia que eu deveria fazer tudo o que ela mandasse por que as professoras gostavam de quem não as contrariasse. Com o tempo passei a gostar dela e sei que ela de mim – cada uma a seu modo. A minha mãe me dizia para que eu respeitasse a professora e não conversasse na aula. Ai de mim se ela fosse chamada na escola por causa de um mau comportamento!

Estudava numa sala grande no primeiro andar da escola. Lembro-me de algumas coisas: a professora (a primeira professora) deixou a turma antes de terminar o ano letivo por que teria que ser a “pessoa do corredor” (hoje sei que ela assumira a coordenação pedagógica do ensino de 1ª a 4ª série). Ela passara a ser mais importante! Não sabia como, mas aquela professora, a partir de então, tinha todas as chaves da Escola (pensava eu!). Era impossível não saber que ela se aproximava: o tilintar do molho de chaves que ela carregava se tornou uma marca indelével à minha memória auditiva. Todos a respeitavam muito e me sentia privilegiada por ter sido sua aluna e porque, de vez em quando, ela me cumprimentar pelo nome ao passar nos corredores ou na formação das filas no início das aulas, no pátio da escola.

Na sala de aula, outra professora, assumira já no final do ano a nossa turma. Ela era bem diferente da primeira. Parecia mais dócil. A turma e eu percebemos isso logo no primeiro encontro.

Um ponto importante que me vem à mente é a permissividade que tínhamos de chamar as professoras de “tias”. Por outro lado, a partir do momento em que elas passavam a ser coordenadoras, ou orientadoras, a relação e o tratamento mudava imediatamente. Foi o que aconteceu com a primeira professora... A relação professora/aluna parecia ser mais próxima, mais afetiva por assim dizer... E isso se expressava pelo uso comum de uma expressão que remetia a um parentesco próximo, embora inexistente, como o de “tia”. Isso remetia à noção de um processo de afiliação parental que, embora inexistente, se relacionava à idéia de que as professoras eram pessoas próximas, confiáveis como, em geral são, as irmãs das nossas mães e/ou dos nossos pais.

Até a segunda série, minha mãe me acompanhou com freqüência à escola. Na hora do recreio ela estava lá para comprar o lanche para mim (sempre fui muito baixinha e, no início, não alcançava o parapeito da cantina para comprar a ficha do lanche).

A rotina e a freqüência ao ambiente escolar me arraigaram algumas memórias. Eu quase não faltava às aulas. Consigo fechar os olhos e quase que ouvir o barulho que fazíamos ao sermos liberados para o intervalo ou na saída. A visita in loco à escola da qual me refiro neste relato, me emocionou muito e me trouxe uma memória olfativa dos lugares em que tantas vezes estive: a cantina, a quadra de esportes, as salas de aula, os corredores, o banheiro, a capela. Ah, a capela... Ali acontecia todo ritual religioso ao qual obedecíamos. Isso certamente me deixou hábitos que cultivo até hoje. Rezávamos antes de entrar para a aula todos os dias um Pai Nosso, uma Ave Maria e um Santo Anjo. Seria coincidência demais que até hoje antes de dormir eu faça essas orações e a minha filha de quatro anos também as faça desde quando começou a falar?

As orações eram “puxadas” pela coordenadora através de um megafone de cor cinza claro (achava que aquilo distorcia a voz das pessoas). Fazíamos as filas que eram organizadas por turmas. A regra básica era: “os menores na frente e os maiores atrás”. Desta forma, sempre ocupei os primeiros lugares nas filas e os lugares da frente nas salas de aula. Interessante é que sempre acreditei que os colegas que se sentavam atrás, apesar de conversarem muito, pareciam ser mais felizes, pois, quando não quisessem olhar para a professora, ou não quisessem prestar atenção às aulas, poderiam olhar a rua, ver o movimento dos carros e das pessoas através das grandes janelas que havia nas salas (sempre ao fundo ou em uma das laterais).

Na segunda série primária minha mãe organizou a comemoração do meu aniversário na escola. Ela estava grávida da minha irmã que teve um nome escolhido por mim. A festinha foi no momento do intervalo e eu estava muito feliz.

Com o nascimento da minha irmã, minha rotina na escola mudou significativamente... Aos sete anos passei a ir a voltar sozinha de ônibus. Sentia-me responsável e importante por isso! Sentia também um pouco de medo, especialmente quando tinha que atravessar a avenida movimentada, que cruzava o quarteirão do ponto de ônibus em que eu descia. Minha mãe passou a me levar até a parada de ônibus do bairro todos os dias e ao final da tarde me esperava lá também. Na ida, enquanto eu entrava no ônibus ela me “encomendava” a cada motorista. Falava-lhes alguma coisa como que o fizessem ficar sensíveis de que eu viajaria sozinha e que somente deveria descer no ponto perto da escola onde eu estudava. Com poucos meses já conhecíamos por nome cada um dos motoristas que fazia as linhas de ônibus em que eu trafegava. Sentia-me protegida e sempre fazia o percurso conversando com eles. Lembro-me que a frase escrita na parte superior interna do ônibus me incomodava muito: “fale com o motorista somente o indispensável”. Eu ficava intrigada e imaginando quem seria esse indispensável que tinha o privilégio de falar com o motorista se quisesse? Bem, enquanto ele não aparecia (pensava eu)... eu ía conversando com os motoristas todos os dias! Em datas comemorativas, minha mãe nunca esqueceu de lhes oferecer pequenos presentinhos como pares de meias, ou caixinhas de lenços de pano.




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