Reciclando as adversidades


UMA LEITURA POSSÍVEL DAS PRÁTICAS



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UMA LEITURA POSSÍVEL DAS PRÁTICAS

3.1 O ARQUÉTIPO DO BODE EXPIATÓRIO – UMA POSSIBILIDADE DE CONEXÃO ENTRE O MICRO E O MACROCOSMO.


Estamos em agosto de 2008, pior que enfrentar o frio de um clima, foi encontrar um frio, que antes me era desconhecido.
Um dos primeiros aspectos que chamou a atenção foi a forma como os pais e seus filhos adolescentes, catadores de material reciclável, encaravam o lixo e sua possibilidade de transformação. No começo, muitos me pareciam estar resignados com a forma de encarar o material. Eles não viam as possibilidades que os materiais apresentavam. Não se apropriavam do que faziam. Inclusive, desqualificavam suas práticas e ações. Aos poucos, fui percebendo que muitos adolescentes tinham vergonha de serem catadores e terem pais desta profissão.

A fim de trazer outros olhares para vivenciar esta realidade, uma das propostas foi utilizar o processo de construção da arte como recurso possível de relação e significação do material reciclável. Trata-se de uma atividade, na qual os jovens catadores de materiais recicláveis confeccionam obras de arte a partir do lixo, através de técnicas específicas e dirigidas por mim, com ajuda dos catadores interessados.

Considerando as diversas formas do ser humano se expressar através da sombra, vale colocar que se está refletindo, neste estudo, sobre os aspectos sombrios negativos projetados no lixo. As dificuldades desta forma, atuando como complexo, pode existir no habitat de um jovem de classe média, como do jovem que mora em um depósito de lixo. Este último pode deixar de brincar porque se sente sujo, se sente inferior; mas o primeiro pode deixar de brincar por esse mesmo motivo, porém expresso de outra maneira. A alma manifesta sua necessidade, independentemente do seu habitat. Ela encontra uma brecha para mostrar a dor humana.

Ao introduzir essa atividade, percebi que precisaria começar a estabelecer outra relação deles com o lixo, indo além da sua visão sombria, vivenciado como algo que se quer eliminar, sujo e excludente por sua natureza. Entretanto, me surpreendi, quando me dei por conta de que o processo não poderia se iniciar por eles, e sim era essencial e um pré-requisito que começasse comigo esta construção. Pude me dar conta disso, quando depois que soube dessa atividade, me vi cuidando mais do lixo, lavando uma caixa de leite, melhor do que geralmente eu fazia (e detalhe, precisei assumir que muitas vezes nem fazia). Em uma terça-feira, pela manhã, me perguntei: por que estou fazendo isso só agora? Porque sou eu que irei mexer no lixo? E quando são os outros, por que faço diferente? Ao me encontrar com essas questões, me deparei com um misto de sentimento: vergonha e decepção foram os piores. Também vi o quanto teoria pode não condizer com a prática, muitas vezes. Comecei a refletir sobre o significado desse trabalho para mim. Veio-me à mente todas as vezes em que precisei apresentá-lo a um público. Em geral, as pessoas acabavam de me ouvir e perguntavam-me: e aí o que se pode fazer? Como irão melhorar? Como se a saída estivesse fora de cada um de nós. Nice (2007, Informação Verbal) coloca que a possibilidade surge quando somos capazes de cuidar das nossas próprias cascas de cebola, em nossos próprios lares. Infelizmente, vejo que muitos de nós, dentro de nossa sociedade, não vivenciamos desta maneira. Trata-se da projeção da sombra, referida anteriormente. Em Nápoles, na Itália, em 2008, pode ser visto o quanto a sociedade se desesperava ao se confrontar com o lixo. O fato se deu porque os lixões da cidade estavam lotados e não havia onde colocar o lixo. A cidade entrou em crise ao conviver com o lixo, alguns moradores diziam que iriam “morrer” (BBC, 2008 – ANEXO 1). Por outro lado, conviver com o lixo é uma realidade de milhares de pessoas em todo o planeta. Há pessoas que vivem, moram dentro de barracões, e lá eles precisam separar a casca da cebola, do plástico, do papel higiênico usado, etc. Então qual será a diferença entre Nápoles e as periferias de diversas cidades? Por que uma sociedade se assusta com o que é comum a milhares de pessoas? Será que é porque nossos olhos não vêem? Porém, Jung (1999) diz que a dificuldade surge mesmo sem vê-la, pois ela está no inconsciente, portanto dentro de nós.

Desta forma, é necessário, de acordo com Jung (1999), um trabalho de fortalecimento do interior do indivíduo, já que esse é ameaçado pela dissolução na psique das massas. No entanto, é da maior importância que esse processo se realize conscientemente, pois, caso contrário, as consequências psíquicas da massificação se instalariam inevitavelmente. E, para todo este processo se dar, é indispensável à relação humana, pois essa é uma condição, já que sem um vínculo com o próximo, reconhecido e aceito conscientemente, a síntese da personalidade simplesmente não se faz. Um exemplo de práticas que exercem essas compreensões acontece num Centro de Referência de Assistência Social, em Curitiba. Ali, profissionais qualificadas buscam, através de dinâmicas direcionadas e específicas, desenvolver a auto-estima daquela comunidade que, muitas vezes, está diluída naquela realidade. Trata-se de uma iniciativa “simples”, sem muitos recursos elaborados, que resgata e fortalece o sentimento de cidadania e de dignidade desses indivíduos. Esses profissionais já percebem os resultados dessas ações através de depoimentos das catadoras, que relatam enfrentar as dificuldades que a vida impõe de outra maneira. Porém, acredito que práticas como essas ainda estão escassas. Em minha prática, percebo que faltam relações humanas, como essa descrita acima, com esta população. Isso pode estar refletindo preconceitos e toda uma falta de relação com esses jovens e com essas realidades.
3.2 O ARQUÉTIPO DO HERÓI – O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO “EU” NESTES INDIVÍDUOS

“Quem é o carrinheiro? É um herói anônimo, numa sociedade injusta” (Autoria: irmã carrinheira).


Para Boechat (2006) o arquétipo do herói está no núcleo do complexo egóico, que é o centro da consciência. Portanto, os mitos de herói são basilares para se entender a organização da consciência do ponto de vista arquetípico. Do ponto de vista da dinâmica do processo de individuação, o mito do herói configura a “libido que flui no eixo ego-Self” (Boechat, 2006, p.6), organizando o ego, principalmente nos chamados episódios de transição.

Segundo Jung (2007), o mito do herói está associado ao momento de transição da adolescência. Já que neste mito se projeta a trajetória do homem que combate o mal personificado, lutando contra seus inimigos, monstros e dragões, libertando seu povo da destruição e morte. Assim, ele é admirado pelos seus feitos, conquistando seus espaços. Uma iniciação vivenciada desta forma produz uma convicção duradoura e cria uma atitude que impõe certa forma ou certo estilo à vida de uma sociedade.

Ao me remeter aos jovens deste estudo, pode-se pensar que suas iniciações estão comprometidas, seus feitos, lutas são protelados, negligenciados, em nome do trabalho e vida com o lixo. Muitos deles não falam de seus sonhos, sentem vergonha do que fazem. Os jovens frequentadores da escola, por exemplo, não comentam com os colegas, professores ou qualquer funcionário da escola que são catadores de material reciclável. Portanto, partindo dessa experiência, pode-se ver o quanto eles não valorizam os dragões que vencem no percurso de suas vidas. Quantos desses jovens, diferentemente do herói, não se orgulham de seus feitos e de suas conquistas! Logo, pode-se entender que esse funcionamento interfira na construção do eu e da personalidade como um todo desses indivíduos.

Por outro lado, alguns desses jovens se mostram diferentes. Um deles, me contou que iria ser médico, outro advogado. Eles vão à escola, têm amigos, ajudam a mãe em casa ou na reciclagem (ANEXO 2). Também o que contou que quer ser advogado está iniciando seus amores e paixões, na busca pela conquista. Já um outro grupo desta amostra falava que ia “dominar a vila”, “mandar nos pontos”. São agressivos, difíceis de vincular, não vão à aula, têm vergonha da reciclagem, humilhando as mães por isso (ANEXO 3). Nota-se, então o impacto dos sonhos e dos desejos na vida deles, na medida em que determina a direção da libido e a relação ego-Self nas suas ações no presente.

Desse modo, pode-se compreender o quanto esses movimentos, tanto positivos (sonhos, projetos, etc.), quanto destrutivos (tráficos, agressão, etc.) representem uma possibilidade de sairem da massificação. Isto é, do lugar indiferenciado que o lixo ocupa, na maioria das vezes. Talvez o herói, mesmo que atuando de forma negativa para o contexto cultural, dentro da Vila, ele seja positivo, para muitos adolescentes. Pode-se associar este ponto na relação que se estabelece entre polícia e traficante dentro da Vila. Alguns destes adolescentes entendem, devido às circunstâncias, que a polícia é que representa perigo. Esta é que tem preconceitos, mata, agride e espanca.

De manhã, o Sol se eleva do mar noturno do inconsciente e olha para a vastidão do mundo colorido que se torna tanto mais amplo, quanto mais alto ele ascende no firmamento. O Sol descobrirá sua significação nessa extensão cada vez maior de seu campo de ação produzida pela ascensão e se dará contade que seu objetivo supremo está em alcançar a maior altura possível e, consequentemente, a mais ampla disseminação possível de suas bênçãos sobre a terra. (Jung, 2000, p.779)


Pode-se perceber o quanto a adolescência representa essa subida, ascensão, no sentido de buscar sua própria vida. Independente de o jovem viver de forma construtiva ou sombria, essa experiência acontece, involuntariamente. A saída do útero materno. Percebo, na minoria dos jovens da amostra, a concretização da subida de forma criativa e prospectiva. Além do futuro médico e advogado, citados acima, vejo outros jovens acreditando e buscando com garra seus futuros. Determinados, agarrando todas as possibilidades que aparecem pela frente, como estágios, programas socioeducativos, etc. Por outro lado, há muitos adolescentes dessa amostra, que estão passivos, diluídos na psique, não acreditando, não vendo as alternativas que a vida oferece. Há uma desmotivação, não porque não gostem, mas porque estão desacreditados em si. Por exemplo, é muito comum bons programas socioeducativos serem cancelados por falta de público. Quando pergunto a muitos destes jovens, o porquê de não irem, a resposta sempre é a mesma: “para quê? O que eu ganho? É um saco...” Estão acomodados e resignados na realidade que vivem. Por fim, há outro grupo, que também atua à sombra, mas não de forma passiva, e sim de maneira concreta, como foi colocado anteriormente. Esses têm sonhos de crescer e “dominar o tráfico na Vila”, “ganhar dinheiro fácil”. Crescem e buscam ascender pela sombra. Não há diálogo com outras possibilidades. Talvez, alguns voam tão alto, que precisam chegar à morte, como possibilidade de transformar essa possessão.

Jung (2000) coloca que o homem, enquanto consciente do próprio eu, constrói uma etapa da totalidade vital, não toda, já que esta é maior do que o eu do sujeito. Quanto mais o homem se torna consciente do próprio eu, tanto mais se separa do homem coletivo, que ele próprio é. Logo, pode-se pensar que o jovem, possuído pela sombra, não cumpriu essa etapa do ciclo vital, na medida em que não conseguiu se diferenciar.

O nascimento psíquico e, com ele, a diferenciação consciente, em relação aos cuidadores, só ocorre na puberdade, com a irrupção da sexualidade (Jung, 2000). A mudança fisiológica é acompanhada de uma revolução espiritual. Isto é, as várias manifestações corporais acentuam de tal maneira o eu, freqüentemente se impondo de forma desmedida. Segundo Jung (2000), daí o nome que se dá a esta etapa: “os anos difíceis” da adolescência. Até este período, a vida psicológica do indivíduo é governada basicamente pelos instintos. Mesmo quando as limitações externas se contrapõem aos impulsos subjetivos, estas restrições não provocam uma cisão interior do próprio indivíduo. Este ainda não conhece o estado de divisão interior, induzido pelos problemas. Este estado só ocorre quando aquilo que é uma limitação exterior se torna uma limitação interior. Isto é, quando um impulso se contrapõe ao outro. Assim, o estado problemático ou a divisão interior do próprio indivíduo surge quando ao lado da série dos conteúdos do eu, surge outros conteúdos. Estes últimos representam o complexo do eu, diferente dos primeiros conteúdos do eu, podem até tomar o comando das mãos do primeiro eu. Na prática, o jovem precisa suportar o que não é, não pode ser, lidando com as frustrações e limitações que a vida impõe. Representa o limite da sua subida.

Conforme nos relata Jung (2000, p.782):

A primeira forma de consciência consiste em um mero conhecer é um estado caótico. O segundo estágio, do complexo do eu desenvolvido, é uma fase monárquica ou monística. O terceiro estágio traz consigo de novo um avanço da consciência. Ou seja, a consciência de um estado de divisão ou de dualidade.
Diante do esforço de diferenciação da psique, da construção do eu e da necessidade de lidar com novos anseios e instintos; nota-se o empenho que o adolescente precisa para se vencer esta etapa.

A subida do sol significa escolhas, assumir atitudes e posturas na vida. Tarefa árdua, ainda mais para aqueles que ficam presos e indiferenciados em uma realidade que os consome, sem ter espaço para se constituir de forma diferente daquilo que os cerca. Esta compreensão pode-se associar aos muitos jovens. Já que os mesmos são tomados pelo lixo, este invade todos os espaços, não permitindo que reste um lugar para outras referências, outras possibilidades além daquelas vivenciadas por eles naquela realidade. Logo, percebe-se que não há diferenciação. Não há cisão ou problemas. Portanto, entende-se que a maioria destes jovens ainda está no “mar noturno do inconsciente”.



    1. A VIVÊNCIA DO ARQUÉTIPO NO CORPO

Dia 12 de fevereiro de 2010 – menino, 12 anos, subnutrido, com leptospirose, comendo lavagem de porco...

A interpretação dos fenômenos oníricos como um processo de compensação corresponde, segundo Jung (2000), à natureza do processo biológico em geral. Logo, pode-se pensar o quanto as imagens e os motivos, que regem muitos destes jovens catadores de materiais recicláveis (como a identificação com o lixo, o papel do bode expiatório e do lugar de herói) espelham nos seus corpos tais conteúdos. Isto é visível, quando nota-se a falta de cuidados básicos com seus corpos, como o ato de tomar banho, lavar as mãos depois de manusear lixo, escovar os dentes entre outros. Um dia vi uma menina, limpando o copinho de iogurte, que estava no lixo, com a boca. O costume de se cuidar e se preservar não são introduzidos, nem valorizados pela cultura local. Então, da mesma forma que os pais não fazem e não acham importantes tais cuidados, os filhos acabam reproduzindo tal funcionamento. Aliado a isto, percebe-se a falta de consciência com o próprio corpo através de outros aspectos como a sexualidade. Estudos comprovam o quanto estes jovens, que vivem em condições precárias iniciam sua vida sexual precocemente, comparados a jovens que tem as condições básicas de desenvolvimento (Johnson, et tal,1999). Nesta amostra é visível a iniciação precoce, principalmente em meninas, que se posicionam de forma imatura e inconsciente em relação ao seu corpo, com comportamentos exibicionistas, se expondo em demasia aos meninos, que respondem a tal funcionamento da mesma maneira. E vale colocar, que muitas vezes, elas estão reproduzindo o funcionamento de suas mães. Muitas acabam tendo a gravidez precoce e reincidente.

Feldman (2002) reforça esta relação entre a psique e corpo, propondo que o “eu” é, antes de tudo, um “eu corporal”. Isto é, deriva das sensações corporais geradas pela superfície do corpo. Assim, o “eu” se torna uma projeção da superfície do corpo. Isto implica, que o “eu”, que provê o senso de realidade e relação com o mundo externo, está formado a partir da experiência psicológica da superfície do corpo (como a pele). Ao associar essa compreensão com a realidade de muitos indivíduos desta amostra, pode-se entender o quanto muito dessas “sensações corporais” vivenciadas por eles são negligenciadas ou não validadas. Vejo muitos pais e mães conviverem com muitas dores corporais, diariamente. Em média, um carrinho cheio chega a pesar 500kg. Com a chuva, o peso aumenta muito. E, independente disso, pessoas novas ou velhas, com problema de saúde ou sem enfrentam esta realidade. Vi inúmeras mães com crise de bursite no ombro, varizes nas pernas e inflamação nos pulsos. Também, casos de leptospirose, ainda, são comuns dentro desta realidade. Quando pergunto: porque não vão ao médico? Porque não se cuidam ou se tratam? A resposta tende a ser a mesma: “e quem irá puxar o meu carrinho? E pôr comida dentro de casa?”. Percebo que eles conseguem conviver com as dores, de forma que já as incorporaram em suas rotinas, sem considerar o apelo do corpo. Isso reflete na construção do seu “eu”, pois, de acordo com Feldman (2002), a forma que se relaciona com o corpo influencia na constituição do “eu”. Portanto, negando-se as sensações desse, pode-se pensar que exista uma negação de partes desse “eu” que ficam diluídas em algum lugar, talvez no inconsciente, no meio dessa realidade.


3.4 O ARQUÉTIPO DO RENASCIMENTO – RECICLANDO ADVERSIDADES

R. é um menino de 14 anos, filho de catadores de material reciclável, vive de forma muito humilde. Adora jogar futebol, soltar raia e, no tempo vago, tinha muito prazer em ajudar seus pais na reciclagem, encarando tudo com muita alegria, como se a vida fosse uma grande festa. Ano passado, em um sábado, um dia depois do Dia das Crianças, R. brincava na frente de sua casa. Era sábado, em torno de 18h,quando a disputa pelo ponto começou.Um tiroteio se deu. E uma bala perdida atingiu R. Ele está paraplégico. Não corre mais, não ajuda na reciclagem. Usa fraldas. Não há perspectiva de voltar a andar.Cheguei a ele, em setembro deste ano, para aplicar os questionários do projeto. Me surpreendi com a alegria e o carinho com que me recebeu. Durante a aplicação, contou diversas histórias, rimos, etc. Nos encontros que se seguiram, participou de todas as oficinas, colaborou ativamente na construção do “Sonho de Natal”. Brincamos de mímica, ele queria imitar, não só descobrir. Ouvimos música, contamos piada, falamos de futuro e ele me disse que vai se casar e se formar...


Mas, é importante colocar que, segundo Grotberg (2005), a capacidade de ser resiliente não tem conexão do nível socioeconômico, já que conduta resiliente exige se preparar, viver e aprender com as experiências adversas, como mudança de país, doença, abandono ou vulnerabilidade psicossocial. Antelo (2000) completa:

Aquele que fracassa, para nós, é alguém a quem algo pode acontecer: Aquele a quem, segundo Grotberg (2005), resiliência é a capacidade humana para enfrentar, vencer e ser fortalecido ou transformado por experiências adversas. É um processo que vai além do simples superar essas experiências, já que permite sair fortalecido por elas. Na minha experiência de conviver quinze meses com adolescentes catadores de materiais recicláveis, percebi essa aptidão em diversos destes indivíduos. Trata-se de uma habilidade de reciclar, dando outro sentido ou significado para as vulnerabilidades que a vida oferece. Essas são vistas sob diversas formas: como baixa condição socioeconômica, problemas de drogas e álcool na família, exposição, constante à violência, ausência de uma figura parental, entre outras dificuldades enfrentadas por eles.


Nada pode acontecer é o que chamamos de vítima. Esta é a diferença entre um menino pobre e um pobre menino. A compaixão e a piedade pelas vítimas tiram de nós a responsabilidade de pensar naquilo que possa fazer de alguém outra coisa radicalmente diferente do que ele é. (Antelo, 2000, p.23)
Por isso que algumas pessoas são transformadas por uma experiência de adversidade. Essas, em geral, trazem maior empatia, altruísmo e compaixão pelos outros (Grotberg, 2005). Muitos desses sentimentos vi em diversos jovens catadores. Uma vez, quando uma catadora recebeu 3 litros de leite, eu a vi dando 1 litro daqueles três à sua colega catadora, que não havia ganho nenhum.

Mas como alguns desses adolescentes conseguem enfrentar de forma tão criativa fatos e experiências tão traumáticas?

Jung (2000) coloca dentre as várias formas de renascimento aquele que acontece durante a vida individual. Trata-se da “renovatio”, sem a modificação do ser, na medida em que a personalidade renovada não é alterada em sua essência, mas apenas funções, partes da personalidade, que podem ser curadas, fortalecidas ou melhoradas. São vivências experimentadas com sentido pelo sujeito, que possibilitam a transformação, ocorrendo o renascimento. Pode-se associar a compreensão de Jung (2000), ao proposto por Grotberg (2005), quando ele afirma que parte do desenvolvimento da resiliência corresponde a uma “força intrapsíquica” que Infante (2005) associa com a capacidade de auto-estima e autonomia do sujeito. Desde modo, percebe-se que, tanto para Jung, como para os outros autores, a capacidade de transformação encontra-se no indivíduo – na sua psique.

Na realidade da amostra dos adolescentes, catadores de material reciclável, podem-se comprovar esses achados: o renascimento ocorre quando a resiliência se expressa na sua psique. Isso é, quando eles se tornam capazes de reciclar, dentro deles mesmos, suas sombras e dificuldades, criando uma diferenciação. Assim, eles conseguem sair de uma postura passiva, entorpecida, do lugar acomodado e resignado que a vivência na diluição do lixo oferece. Reencontram seus sonhos, suas possibilidades de viverem suas vidas de forma mais plena e digna consigo mesmos.

Cabe colocar que esse processo não se dá de forma individual. Isto é, o indivíduo necessita estar em relação com o outro, já que, de acordo com Melillo, Estamatti e Cuestas (2005) a resiliência se produz em função de processos, além dos intrapsíquicos, incluindo o âmbito social. Para os referidos autores, não se nasce resiliente, nem se adquire resiliência “naturalmente” no desenvolvimento. Depende de certas qualidades do processo interativo do sujeito com outros seres humanos, responsável pela construção do sistema psíquico humano. Logo, a existência ou não da resiliência nos sujeitos depende da interação da pessoa com seu entorno humano. Grotberg (2005) reforça esses achados, quando diz que, além da força intrapsíquica há fatores externos, como o ambiente e as características adquiridas. Infante (2005), completa, propondo que a resiliência é um processo dinâmico em que as influências do ambiente e do individuo interatuam em uma relação recíproca, o que permite a cada pessoa se adaptar, apesar da adversidade.

Podem-se relacionar essas idéias ao entendimento de Jung (1999), descrito anteriormente, sobre a importância do vínculo e da relação, já que, sem eles, a síntese da personalidade simplesmente não se faz. Vários estudos que buscam conhecer os pilares da resiliência na infância e adolescência colocam que ter o apoio e a relação com algum adulto de confiança é um desses pilares (Steinberg, 2004; Johnson, Cohen, Brown, Smailes, Bernstein,1999; Brooks, R. e Goldestein, S., 2003; Collishaw, S., Pickles, A., Messer,J., Rutter,M., Shearer,C., Maughan,B., 2007; Werner e Smith, 2001).

Entretanto, além das questões comportamentais e ambientais no desenvolvimento da resiliência, é importante avaliar outros aspectos. Isto é, torna-se necessário considerar os diferentes mecanismos como a epigenética, a correlação gene-ambiente e a interação gene-ambiente (Bartels, M. e Hudziak, J., 2008; Cichetti,D., Rogosch,F., Sturge-Apple, M., 2007; Cohen,J., Moffitt,T., Caspi, A., Taylor, A., 2004). Talvez, a partir das citadas considerações, pode-se associar que a constituição de cada indivíduo (o corpo, a alma e o espírito) também influencia na expressão da resiliência. Partindo de tal compreensão, pode-se relacionar essa premissa ao que Hillman (1997) propõe, referente ao “Daimon”. Isto é, todos nós nascemos com a semente do carvalho, carregamos, desde o princípio, o destino que nos é dado e precisamos viver.

Portanto, para concluir, é importante reforçar que tanto os fatores intrapsíquicos, como os constitucionais (genéticos) e ambientais, se expressam através de uma relação dinâmica entre si, na manifestação da resiliência. Mas na perspectiva junguiana não há conflito entres esses fatores (intrapsíquico, constitucinal e o ambiental), apesar de que na dinâmica da psique eles ocupam, muitas vezes, uma relação de oposição e complementação. Todavia, em um nível mais profundo, existe uma correlação entre o interno e o externo, onde os campos intrapsíquicos, ambientais e constitucionais estão conectados pela força geradora do Si-mesmo. Assim, a função deste é mediar, constelando a associação do que está dentro e também está fora. Isto é, o Si-mesmo estabelece uma relação de correspondência através do símbolo. Este pode estar tanto no mundo interno, como no campo externo, sendo que cada parte pode estar representando simbolicamente a outra. Contudo, independente de onde o símbolo se encontre, o Si-mesmo busca simbolizar aspectos da totalidade da psique e do movimento em favor da individuação.

Deste modo, podemos considerar como resilientes, as pessoas que, em algum nível, conseguiram estabelecer uma função transcendente, superando os aspectos literais da vida. Também, aquelas que apresentam uma compreensão interna, mesmo que não seja em um nível consciente, mas que as levem para além do literal, trazendo um sentido maior. Issto gera um significado, possibilitando uma forma diferente de olhar a vida. Ou seja, a capacidade do ego de acolher os movimentos do Si-mesmo em favor de uma compreensão finalista.





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